'Timing do escândalo com Vorcaro foi bom para Flávio Bolsonaro, dará tempo de se recuperar', diz Marcos Nobre

- Vinícius Mendes
- De São Paulo para a BBC News Brasil
- Tempo de leitura: 16 min
Embora a revelação das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, hoje preso, tenha afetado negativamente a campanha à Presidência do filho de Jair Bolsonaro (PL), ela não será suficiente para impedi-lo de chegar, competitivo, ao segundo turno das eleições de outubro.
A leitura do cenário atual pelo filósofo e cientista político Marcos Nobre, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), porém, não vai na direção de que a polarização calcifica os polos antagônicos de forma a blindá-los de crises como essa.
Ao contrário, seu argumento é que, na estrutura da divisão social que o Brasil vive hoje, Flávio lidera a coalizão que busca interromper políticas de redistribuição de renda iniciadas nos anos 1990.
Essa coalizão, conformada por uma parte da direita tradicional e da direita radical, tem angariado votos desde, pelo menos, a eleição de 2018 — e reúne muitas condições para seguir disputando o pleito desse ano, na avaliação de Nobre.
Para ele, embora a relação de proximidade de Flávio com Vorcaro prejudique sua imagem de alguma forma, não abala sua campanha.
"Além disso, o timing da crise foi bom para o Flávio, porque dará tempo de ele se recuperar. Tem muito tempo até outubro", diz Nobre em entrevista à BBC News Brasil.
Flávio conta, para isso, com um novo ator da política brasileira, na visão de Nobre: um partido digital. Este é eixo central de O partido digital bolsonarista, livro que ele lançará em junho, ao lado da cientista política Ana Cláudia Chaves, pelo Centro para Imaginação Crítica (CCI) do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
Do outro lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apontado por Nobre como o líder de uma coalizão distributivista, que tem o desafio de não ter mais como acomodar o conflito pela distribuição da riqueza como fazia antes: por meio de um acordo entre as classes sociais. Foi por isso que, no atual mandato, ele partiu ao confronto com o Congresso, aponta o filósofo.
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