sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

G1

 

Por BBC

 itador Kim Jong Un leva filha para assistir ao lançamento de míssil balístico intercontinental

O líder da Coreia do NorteKim Jong-un, parece estar tomando algumas medidas para consolidar sua filha, Kim Ju-ae, como sucessora. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (12) pela Agência Nacional de Inteligência da Coreia do Sul (NIS) a um grupo de parlamentares. De acordo com a agência, pela maneira como Kim Ju-ae vem participando de eventos públicos ao lado do pai, a jovem já estaria começando a influenciar decisões políticas e sendo tratada como a segunda pessoa mais importante do país.

As informações foram repassadas pelos deputados Park Sun-won e Lee Seong-kweun após uma reunião a portas fechadas com a comissão parlamentar de inteligência. O NIS também informou que vai observar de perto se ela participará de um congresso importante do partido norte-coreano, previsto para o fim de fevereiro. Analistas avaliam que o encontro deve indicar os principais políticos do regime para os próximos anos nas áreas de economia, política externa e defesa.

Kim Ju-ae é a única filha de Kim Jong-un conhecida publicamente.

A definição de quem herdará o poder sempre gerou especulações, já que a Coreia do Norte é um dos países mais fechados do mundo e mantém sob segredo praticamente tudo o que acontece dentro de suas fronteiras — inclusive informações sobre a vida pessoal do líder e de sua família. Se Kim Ju-ae for a sucessora do pai, ela se tornará a primeira mulher a liderar a Coreia do Norte desde a fundação do regime comunista em 1948.

O que se sabe sobre Kim Ju-ae?

Kim Jong-un e Kim Ju-ae — Foto: BBC

Kim Jong-un e Kim Ju-ae — Foto: BBC

Kim Jong-un é extremamente reservado sobre sua família e, como resultado, se sabe muito pouco sobre eles.

Ele até manteve sua esposa, Ri Sol-ju, em segredo por um período após o casamento — ela só fez sua primeira aparição pública em 2012, apesar da imprensa sul-coreana afirmar que eles se casaram em 2009 e tiveram seu primeiro filho em 2010.

Ri Sol-ju é também considerada a mãe de Kim Ju-ae, que nasceu alguns anos depois. A primeira vez que a existência de Kim Ju-ae foi mencionada publicamente foi em 2013, depois que o astro aposentado do basquete americano Dennis Rodman fez uma polêmica viagem à Coreia do Norte. Rodman disse que passou um tempo com a família de Kim, relaxando à beira-mar e "segurando o bebê", a quem chamava de Ju-ae.

Acredita-se que ela esteja no início da adolescência. Pouco se sabia sobre ela até novembro de 2022, quando apareceu ao lado do pai no lançamento de um míssil balístico intercontinental (ICBM). Mesmo a imprensa norte-coreana apenas "a reconhece como filha de Kim Jong-un, sem mencionar seu nome ou idade", diz Fyodor Tertitskiy, pesquisador da política norte-coreana na Universidade Kookmin, em Seul.

"Nada mais é conhecido, pelo menos publicamente", acrescenta. Mas ele estima que ela tenha algo entre 10 anos e o início da adolescência. Em uma reunião privada no ano passado, o NIS afirmou a políticos sul-coreanos que Kim Ju-ae nunca esteve matriculada em um estabelecimento de ensino oficial e estava sendo educada em casa em Pyongyang.

A agência também disse que alguns de seus hobbies eram andar a cavalo, nadar e esquiar.Uma das pessoas que participaram do briefing revelou mais tarde aos repórteres que Kim Jong-un estava especialmente satisfeito com suas habilidades de equitação. O NIS afirmou ainda que ela tinha um irmão mais velho e um irmão mais novo cujo sexo a agência não confirmou. Eles nunca foram vistos em público.

Estreia pública

Kim Ju-ae e Kim Jong-un na Coreia do Norte — Foto: KCNA via Reuters

Kim Ju-ae e Kim Jong-un na Coreia do Norte — Foto: KCNA via Reuters

Kim Ju-ae fez sua estreia pública em novembro de 2022, quando participou de um teste de míssil com seu pai. Desde então foi vista ao lado dele diversas vezes, tanto em eventos militares quanto não militares.

Recentemente, na celebração da véspera de Ano Novo no Estádio 1º de Maio, em Pyongyang, ela e o pai foram fotografados trocando um beijo na bochecha.

Em dezembro de 2023, eles assistiram ao lançamento do míssil balístico intercontinental de combustível sólido Hwasong-18, o míssil de longo alcance mais avançado do arsenal do país.

Ela também esteve com ele no lançamento do satélite espião Malligyong-1 em novembro daquele mesmo ano. Na época, Pyongyang alegou que o equipamento daria a Kim Jong-un uma visão da Casa Branca.

Em fevereiro de 2023, a Radio Free Asia informou que o governo norte-coreano exigiu que qualquer outra pessoa chamada Kim Jun Ae mudasse de nome, o que é uma prática padrão quando se trata da dinastia governante.

Pesquisadores sobre a Coreia do Norte também notam que Kim Ju-ae é agora descrita pela imprensa oficial como uma filha "respeitada", em vez de uma filha "amada". O adjetivo "respeitado" é reservado aos mais reverenciados da Coreia do Norte.

No caso de Kim Jong-un, por exemplo, ele foi referido como "camarada respeitado" apenas depois de o seu estatuto como futuro líder ter sido consolidado.

A visibilidade pública de Kim Ju-ae tem aumentado constantemente ao longo do tempo.

Em setembro do ano passado, ela acompanhou o líder norte-coreano em sua visita à China para assistir ao desfile militar do Dia da Vitória. Foi sua primeira viagem internacional documentada.

A visita foi significativa, marcando a estreia histórica do líder norte-coreano na diplomacia multilateral ao lado do presidente chinês Xi Jinping e do presidente russo Vladimir Putin. No entanto, Kim Ju-ae não compareceu ao desfile.

Possível sucessora?

Kim Ju Ae apareceu pela primeira vez em público em 2022 – nesta foto, ela e seu pai estão em um banquete pelo 75º aniversário do Exército do Povo Coreano, em fevereiro de 2023 — Foto: Reuters

Kim Ju Ae apareceu pela primeira vez em público em 2022 – nesta foto, ela e seu pai estão em um banquete pelo 75º aniversário do Exército do Povo Coreano, em fevereiro de 2023 — Foto: Reuters

Os cidadãos da Coreia do Norte são informados de que os Kim provêm de uma linhagem sagrada, o que significa que só eles podem liderar o país. Alguns analistas dizem que apresentá-la ao público em uma idade tão precoce poderia ser a forma do líder norte-coreano garantir que a sua filha se estabeleça muito antes de assumir o poder.

Não há indícios de que uma sucessão vá acontecer em breve, e rumores anteriores de que Kim Jong-un estava com a saúde debilitada foram descartados. Outros dizem que também poderia ser uma forma de Kim Jong-un sinalizar que é um homem de família atencioso em meio a uma sociedade profundamente patriarcal.

"Com os antigos líderes Kim Jong-il e Kim Il-sung, houve muita propaganda focada no papel desses líderes norte-coreanos como figuras maternas e paternas", diz Edward Howell, professor da Universidade de Oxford e especialista no assunto.

"Portanto, acho que esse simbolismo também continuou ao retratá-la com o pai em público."

Mas "ter um membro da linhagem Kim é tão crucial para a liderança norte-coreana que, se for uma mulher, é melhor do que ter alguém que não seja membro da família Kim", diz Howell. Anteriormente, o NIS da Coreia do Sul também disse que ainda está considerando "todas as possibilidades", uma vez que existem "muitas variáveis".

Fyodor Tertitskiy acredita que Kim Jong-un tem "testado a opinião do público e da elite sobre uma potencial sucessão", mostrando Kim Ju-ae em público — algo que ele diz que normalmente não é feito até que a sucessão seja confirmada. Mas ele concorda que ainda é cedo para falar sobre o sucessor de Kim Jong-un .

"Se ele, digamos, morrer com a mesma idade que o seu pai, aos 70 anos, isso seria em 2054. Mesmo se assumirmos que o Estado norte-coreano sobrevive até então na sua forma atual, a sociedade provavelmente não seria a mesma que é agora", diz ele.

 

No fio da legitimidade, o Supremo depende do conteúdo do celular de Vorcaro

Caso Master leva Toffoli ao centro da crise

Marcelo Copelli
Revista Fórum

O Supremo Tribunal Federal entrou em uma zona de desconforto institucional que não pode ser tratada como detalhe. O Caso Master, iniciado como investigação sobre a liquidação de um banco, passou a envolver diretamente o ministro Dias Toffoli, após a Polícia Federal identificar menções ao seu nome em mensagens extraídas do celular do controlador da instituição, Daniel Vorcaro. A partir daí, o que era um processo financeiro tornou-se um teste de credibilidade para a mais alta Corte do país.

Os fatos conhecidos são objetivos. A empresa da qual Toffoli é sócio — a Maridt Participações — recebeu valores decorrentes da venda de participação no resort Tayayá, no Paraná, operação que envolveu fundos ligados ao grupo empresarial de Vorcaro.

O ministro confirmou a transação e afirmou que os valores foram recebidos de forma regular, negando qualquer favorecimento ou vínculo que comprometesse sua atuação. No plano formal, a operação foi apresentada como legítima. No plano político, porém, a coincidência entre a transação empresarial e a relatoria do caso abriu um campo inevitável de questionamentos.

RELAÇÕES EMPRESARIAIS – A tensão não reside na existência da venda, mas na sobreposição entre relações empresariais e função jurisdicional. Em democracias constitucionais maduras, imparcialidade não se resume à ausência de ilegalidade.

Exige também distância inequívoca de qualquer circunstância que possa comprometer a aparência de neutralidade. Quando o nome do ministro surge em comunicações apreendidas de um investigado — ainda que em contexto negocial — a discussão sobre eventual suspeição deixa o terreno abstrato e passa ao centro do debate institucional.

O impacto extrapolou o Supremo quase imediatamente. Em Brasília, o avanço das investigações passou a ser acompanhado com atenção redobrada por setores políticos que mantiveram interlocução institucional com o Banco Master antes de sua liquidação.

LIGAÇÕES PERIGOSAS – A instituição operava com entes públicos e mantinha relações com bancos regionais, inserindo seu controlador em ambientes de influência relevantes.

No Distrito Federal, operações envolvendo o Banco Master e o BRB, banco estatal vinculado ao governo local, acrescentaram sensibilidade ao cenário. O governador Ibaneis Rocha, cuja administração mantém relação institucional com o banco regional, observa o desdobramento dos fatos sob pressão ampliada.

Não há, até o momento, imputação formal contra o governador no âmbito do inquérito. Ainda assim, a possibilidade de que a análise de dados telemáticos amplie o mapa de conexões institucionais já é suficiente para tensionar o ambiente político.

REDES DE CONTATO  – Entre as lideranças do Centrão, a leitura é pragmática. O bloco consolidou influência a partir de presença estratégica em estruturas administrativas, instituições financeiras públicas e articulações parlamentares. Investigações que tangenciam agentes com trânsito político raramente permanecem circunscritas ao ponto de origem. A experiência recente mostra que a exposição de comunicações digitais tende a revelar redes de contato que, mesmo quando institucionais, tornam-se politicamente sensíveis sob escrutínio público.

Nesse contexto, o Caso Master deixa de ser apenas um inquérito financeiro e passa a representar um foco potencial de instabilidade. A previsibilidade institucional é elemento central para a sustentação das coalizões no Congresso. Qualquer tensão envolvendo o Supremo — sobretudo quando cruza interesses do sistema financeiro e atores políticos — repercute imediatamente na arena legislativa.

Para o STF, contudo, o desafio é mais profundo. A Corte não enfrenta apenas uma questão processual, mas uma decisão de natureza simbólica. A permanência de Toffoli na relatoria poderia encontrar amparo nas regras formais. A discussão sobre o seu afastamento, entretanto, transcende a literalidade da norma. Ela alcança o campo mais sensível das instituições: a confiança pública.

ISENÇÃO – A autoridade de uma Corte constitucional não se sustenta apenas na validade técnica de seus atos, mas na convicção coletiva de que seus julgadores atuam sem qualquer sombra capaz de comprometer sua isenção. Em momentos críticos, instituições sólidas costumam optar por medidas que preservem sua integridade estrutural, mesmo quando a estrita legalidade não as impõe.

É nesse ponto que o afastamento de Tofffli deixa de ser percebido como gesto individual e passa a assumir natureza institucional. O instituto da suspeição não existe apenas para sancionar desvios, mas para resguardar a autoridade do julgamento. Quando circunstâncias externas produzem questionamentos consistentes — mesmo que não configurem irregularidade — o afastamento pode funcionar como instrumento de proteção da própria decisão futura.

A manutenção da relatoria prolongava o debate sobre isenção. O afastamento, por sua vez, não encerra a controvérsia no plano simbólico nem reforça a autoridade do desfecho que vier a ser proferido.

DIVISOR – O Caso Master tornou-se, assim, um divisor. Ele mede não apenas a capacidade investigativa do Estado, mas a maturidade institucional do Supremo. A Corte não está apenas julgando um processo. Está sendo avaliada quanto à sua habilidade de preservar a própria credibilidade em meio à turbulência.

Em um ambiente de polarização estrutural, não basta estar juridicamente correto. É necessário estar institucionalmente incontestável. A história das cortes constitucionais demonstra que momentos críticos não são lembrados pela minúcia técnica das decisões, mas pelo grau de prudência adotado diante da crise.

A questão que se impõe é objetiva. A resposta define se o Supremo atravessará este episódio apenas formalmente intacto — ou historicamente fortalecido. E, em tempos de tensão institucional, essa diferença não é detalhe. É destino.