domingo, 26 de julho de 2026

 

Daniel Vorcaro e o caso Banco Master: suspeita de fraude bilionária, perdas no BRB, impacto no FGC e dez fases da Compliance Zero

Neste domingo (26/07/2026), o caso envolvendo o empresário Daniel Vorcaro, controlador do liquidado Banco Master, já reúne dez fases da Operação Compliance Zero, prisões preventivas, bloqueios bilionários, investigações sobre operações realizadas com o Banco de Brasília — BRB —, pagamentos extraordinários do Fundo Garantidor de Créditos — FGC —, apurações sobre fundos previdenciários e diligências contra empresários, servidores públicos e agentes políticos. O levantamento da documentação oficial e da cobertura jornalística publicada até esta data mostra que o episódio ultrapassou a crise de uma instituição financeira privada e se transformou em uma investigação sobre possíveis fraudes bancárias, corrupção, lavagem de dinheiro, obstrução da Justiça e interferência em órgãos de fiscalização. Até o momento, porém, as acusações permanecem em apuração e não representam condenações criminais definitivas.

Da atividade imobiliária ao controle do Banco Master

Daniel Bueno Vorcaro iniciou sua trajetória empresarial no setor imobiliário de Minas Gerais, ligado ao grupo familiar Multipar. Sua entrada mais direta no sistema financeiro ocorreu em 2016, quando adquiriu participação minoritária no Banco Máxima, instituição então controlada pela família Sabbá e que necessitava de capitalização. Em 2017, Vorcaro acertou a tomada do controle, com o compromisso de realizar aportes superiores a R$ 75 milhões, dos quais R$ 25 milhões seriam desembolsados inicialmente.

A mudança de controle foi autorizada oficialmente pelo Banco Central em 12 de outubro de 2019. Vorcaro passou a comandar a instituição ao lado de Armando Miguel Gallo Neto, Felipe Wallace Simonsen e Augusto Ferreira Lima. Em 2021, o Banco Máxima foi rebatizado como Banco Master, iniciando uma fase de rápida expansão, aquisições de instituições e diversificação dos negócios.

O banco ampliou sua atuação em crédito imobiliário com garantia, câmbio, crédito consignado, administração de fundos, mercado de capitais e investimentos empresariais. Também incorporou instituições como o Banco Voiter e obteve autorização para adquirir a Will Holding, controladora do Will Bank, dentro de uma estratégia que procurava combinar operações de atacado, varejo e serviços financeiros digitais.

As demonstrações financeiras referentes a 2024 apresentavam uma instituição em forte crescimento. O Banco Master declarou lucro líquido de aproximadamente R$ 1 bilhão, patrimônio líquido de R$ 4,7 bilhões e ativos totais de R$ 63 bilhões, ante R$ 36 bilhões no ano anterior. O portfólio incluía crédito varejista e corporativo, direitos creditórios, precatórios, participações societárias e operações estruturadas por fundos de investimento.

Relatos do mercado apontam que os ativos do banco haviam avançado de cerca de R$ 3,7 bilhões em 2019 para R$ 86 bilhões em março de 2025, considerando o conglomerado e os negócios incorporados. Essa expansão foi financiada, em grande parte, pela venda de Certificados de Depósito Bancário — CDBs — com remuneração elevada e garantia limitada do FGC.

CDBs com juros elevados e ativos de baixa liquidez

O modelo de crescimento do Banco Master combinava captação de recursos por meio de CDBs com taxas que, em determinados períodos, alcançavam aproximadamente 140% do CDI, prazos longos de vencimento e distribuição por plataformas digitais. Os recursos captados eram direcionados a ativos potencialmente mais rentáveis, mas também mais arriscados ou difíceis de converter rapidamente em dinheiro, como precatórios, direitos creditórios, participações em empresas em recuperação e estruturas vinculadas a fundos.

A lógica econômica permitia ao banco ampliar o balanço enquanto houvesse entrada contínua de novos recursos e capacidade de realizar ou revender os ativos adquiridos. O problema surgiria se os vencimentos dos CDBs e outras obrigações fossem superiores à liquidez disponível, especialmente porque parte relevante da carteira dependia de decisões judiciais, negociações societárias, recuperação de empresas ou avaliações financeiras sujeitas a grande variação.

Documentos posteriormente apresentados ao Supremo Tribunal Federal afirmam que a instituição teria estruturado uma captação agressiva, oferecendo remunerações muito superiores à média do mercado e destinando os recursos a operações de alto risco, ativos de baixa liquidez e fundos de investimento. Essas conclusões integram as hipóteses da investigação e ainda deverão ser examinadas no processo judicial, com observância do contraditório e da ampla defesa.

O Banco Master sustentava que sua estratégia era respaldada por garantias, avaliações contábeis, diversificação e expectativa de valorização de longo prazo. Em seus demonstrativos de 2024, a administração atribuía o crescimento à expansão da carteira de crédito, às operações estruturadas, às cessões de carteiras e às aquisições realizadas.

FGC concedeu suporte financeiro antes da liquidação

Em maio de 2025, o Fundo Garantidor de Créditos celebrou uma operação de suporte financeiro ao conglomerado do Banco Master. Segundo o próprio FGC, os recursos seriam liberados semanalmente e utilizados exclusivamente para pagar obrigações cobertas pela garantia enquanto o Banco Central analisava a possível aquisição da instituição pelo BRB.

A assistência não representava o pagamento antecipado das garantias decorrentes de uma liquidação. Tratava-se de uma operação destinada a alongar o passivo do conglomerado e preservar sua liquidez, mediante a emissão de letras financeiras em favor do Fundo Garantidor.

O apoio revelou que a situação do Master já exigia atenção extraordinária meses antes da intervenção do Banco Central. A operação procurou evitar uma interrupção imediata dos pagamentos e conceder tempo para que a proposta de aquisição pelo BRB fosse avaliada pelas autoridades reguladoras.

O FGC é uma entidade privada e sem fins lucrativos, mantida por contribuições das instituições associadas. Embora integre a rede de proteção do Sistema Financeiro Nacional, seus recursos não pertencem diretamente ao Orçamento da União. O custo de uma quebra bancária, entretanto, afeta as reservas formadas pelas instituições financeiras e pode provocar cobranças extraordinárias ou antecipações de contribuições de todo o setor.

BRB anunciou compra de 58% do Banco Master

Em 28 de março de 2025, o conselho de administração do BRB aprovou a compra de ações equivalentes a 49% do capital ordinário, 100% das ações preferenciais e 58,04% do capital total do Banco Master. O negócio dependia da aprovação do Banco Central, do Conselho Administrativo de Defesa Econômica — Cade — e de outras condições regulatórias e contratuais.

O contrato previa uma reorganização societária antes da conclusão da operação. Determinados ativos e passivos considerados não estratégicos seriam retirados do perímetro adquirido. A proposta indicava que o Master manteria apenas algumas controladas, enquanto BRB e banco privado compartilhariam estruturas de governança, planejamento, riscos, controles e liquidez.

O preço definitivo seria calculado com base em uma parcela do patrimônio líquido ajustado após auditorias e avaliações. Na época, o negócio foi estimado em aproximadamente R$ 2 bilhões, embora pudesse sofrer redução conforme a análise dos ativos e passivos efetivamente incorporados.

Em 17 de junho de 2025, o Cade aprovou a aquisição sem restrições. A conclusão, contudo, permanecia condicionada à autorização do Banco Central.

O negócio ainda enfrentou questionamentos judiciais e políticos sobre a necessidade de autorização legislativa para que um banco controlado pelo Governo do Distrito Federal adquirisse participação em uma instituição privada. A Câmara Legislativa aprovou a operação, e a autorização foi posteriormente sancionada pelo Executivo distrital.

Em 3 de setembro de 2025, o Banco Central indeferiu a aquisição. O BRB informou ao mercado que pediria acesso à decisão para analisar seus fundamentos e estudar alternativas. A negativa eliminou a principal solução estruturada para absorver a parte operacional do Master e agravou a incerteza sobre a capacidade da instituição privada de administrar seus compromissos.

Operações entre Master e BRB começaram antes da tentativa de compra

A relação financeira entre as instituições não começou com o anúncio da aquisição. Documentos judiciais indicam que o BRB passou a comprar ativos e carteiras do Master a partir de julho de 2024, meses antes da divulgação do negócio societário.

Entre julho de 2024 e outubro de 2025, as transferências do banco público para o Master teriam alcançado R$ 16,7 bilhões, segundo decisão judicial citada pela Reuters. Em determinado momento, os ativos adquiridos do Master representariam aproximadamente 30% do balanço do BRB.

A investigação sustenta que parte dessas operações envolveu carteiras de crédito consignado sem lastro real. O Banco Master teria adquirido os supostos créditos da empresa Tirreno Consultoria Promotoria de Crédito e Participações e depois repassado os ativos ao BRB. Para os investigadores, os contratos atribuídos a milhares de tomadores não corresponderiam a empréstimos efetivamente concedidos.

O Ministério da Justiça informou que o inquérito foi aberto em 2024, após requisição do Ministério Público Federal, para investigar a emissão e a negociação de títulos de crédito supostamente falsos. Depois que o Banco Central identificou problemas nos ativos vendidos ao BRB, as carteiras teriam sido substituídas por outros títulos sem avaliação técnica suficiente.

Decisão do ministro André Mendonça registra que o BRB teria adquirido cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras supostamente irregulares, apesar de pareceres técnicos e jurídicos contrários a determinadas operações. Para o relator, os indícios deveriam ser investigados para verificar se houve atuação deliberada de gestores com a finalidade de preservar a liquidez do Master em troca de vantagens indevidas.

As cifras de R$ 12,2 bilhões e R$ 16,7 bilhões não são equivalentes. A primeira representa a estimativa das carteiras apontadas como fictícias ou irregulares; a segunda corresponde ao total de transferências e negócios realizados entre as duas instituições durante o período investigado.

A defesa de Vorcaro afirma que os ativos foram substituídos por instrumentos registrados, auditados e precificados de acordo com metodologias formais. Sustenta ainda que as aquisições passaram pelos procedimentos técnicos e contábeis do BRB e nega que o empresário tenha comandado qualquer fraude.

Possíveis perdas e necessidade de capitalização do BRB

Em novembro de 2025, uma decisão judicial estimou que as perdas do BRB poderiam ultrapassar R$ 10 bilhões. A avaliação preliminar considerava o volume das operações, a qualidade dos ativos recebidos e a possível participação consciente de executivos do banco público no arranjo investigado.

Em depoimento prestado no curso da investigação, o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton Aquino, indicou que o BRB poderia precisar reconhecer provisões superiores a R$ 5 bilhões, quase o dobro de uma estimativa inicial de R$ 2,6 bilhões. O cálculo definitivo dependeria da capacidade de recuperação e venda dos ativos.

Em abril de 2026, os acionistas do BRB aprovaram um aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões. O banco também assinou memorando com a Quadra Capital para estruturar um fundo de aproximadamente R$ 15 bilhões, destinado a receber e administrar ativos originados nas operações com o Master. Pela estrutura divulgada, entre R$ 3 bilhões e R$ 4 bilhões poderiam ser pagos em dinheiro, enquanto o restante seria convertido em cotas subordinadas do novo fundo.

O BRB informou que o processo de capitalização poderá ser homologado parcialmente até o limite de R$ 8,8 bilhões, permitindo a incorporação gradual dos recursos ao patrimônio da instituição.

Em maio de 2026, a S&P Global Ratings rebaixou as notas nacionais do BRB para brCCC+ no longo prazo e brC no curto prazo, citando incertezas relacionadas à execução da capitalização, à liquidez, às investigações e aos riscos reputacionais. A agência estimou necessidade de capital entre R$ 6 bilhões e R$ 8 bilhões e advertiu para possíveis impactos adicionais caso surgissem novos problemas nas carteiras.

Banco Central decreta liquidação extrajudicial

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master. O ato foi fundamentado no comprometimento da situação econômico-financeira da instituição, na deterioração da liquidez, na infringência de normas que disciplinam a atividade bancária e no descumprimento de determinações da autoridade monetária.

O Banco Central estabeleceu 19 de setembro de 2025 como termo legal da liquidação. A medida permitiu ao liquidante revisar atos praticados durante o período anterior à intervenção, recuperar créditos, vender ativos, identificar responsabilidades e organizar o pagamento dos credores conforme a ordem legal.

Também foram liquidados, por extensão, o Banco Master de Investimento, o Letsbank e outras entidades do conglomerado. O Banco Master Múltiplo foi submetido a Regime de Administração Especial Temporária — RAET.

Os bens de Vorcaro, de outros controladores e de ex-administradores foram declarados indisponíveis. A medida não representa perda automática da propriedade, mas impede a alienação patrimonial enquanto são apuradas eventuais responsabilidades e os prejuízos causados pela administração da instituição.

Apesar da dimensão financeira do caso, o conglomerado representava aproximadamente 0,57% dos ativos e 0,55% dos depósitos do Sistema Financeiro Nacional. A baixa participação sistêmica ajudou a limitar o risco de contágio direto sobre os grandes bancos, mas não impediu um impacto expressivo sobre o FGC, o BRB e entidades que haviam adquirido papéis não cobertos pela garantia.

FGC provisiona R$ 40,6 bilhões para clientes do Master

As liquidações do Banco Master, do Master de Investimentos e do Letsbank levaram o FGC a constituir uma provisão de R$ 40,6 bilhões ao final de 2025. Os pagamentos aos depositantes e investidores elegíveis começaram em 17 de janeiro de 2026.

O relatório anual do Fundo informa que as instituições do conglomerado geraram aproximadamente R$ 41 bilhões em garantias para quase 800 mil credores. Na atualização constante do documento, 97% desse montante já havia sido distribuído aos beneficiários.

Somadas as liquidações posteriores da Will Financeira e do Banco Pleno e as operações anteriores de assistência, o custo estimado para o FGC chegou a cerca de R$ 57,4 bilhões. Para recompor sua capacidade financeira, o Fundo antecipou aproximadamente R$ 32 bilhões em contribuições que seriam pagas pelas instituições associadas ao longo dos cinco anos seguintes.

A garantia ordinária do FGC cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição ou conglomerado, respeitado o teto global estabelecido pelas regras do Fundo. Aplicações superiores ao limite, letras financeiras, cotas de fundos, participações societárias e determinados instrumentos adquiridos por entidades previdenciárias podem permanecer sujeitos à liquidação e à recuperação dos ativos.

O episódio mostrou que uma instituição com participação relativamente reduzida no sistema podia acumular um volume elevado de passivos cobertos pelo FGC. Esse desequilíbrio passou a alimentar discussões sobre remuneração excessiva, concentração de captações garantidas, contribuição diferenciada por risco e responsabilidade das plataformas que distribuíram os títulos.

Primeira prisão de Daniel Vorcaro e início da Compliance Zero

Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, antes de um embarque internacional. No dia seguinte, a Polícia Federal deflagrou publicamente a primeira fase da Operação Compliance Zero, cumprindo prisões e buscas contra executivos e empresários relacionados ao Banco Master e ao BRB.

A investigação se concentrou inicialmente na emissão e cessão das carteiras de crédito consideradas sem lastro. Além de Vorcaro, dirigentes do Master foram presos, enquanto o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado do cargo.

Vorcaro foi solto cerca de dez dias depois por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, submetido a medidas cautelares, entre elas restrições de deslocamento e monitoramento eletrônico. Sua defesa declarou que ele colaboraria com as autoridades e apresentaria os esclarecimentos e documentos solicitados.

Segunda prisão e suspeitas de obstrução

Em 14 de janeiro de 2026, a segunda fase da Compliance Zero cumpriu 42 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Foram bloqueados bens e valores superiores a R$ 5,7 bilhões.

A operação avançou sobre empresários, gestores de fundos e pessoas ligadas a estruturas financeiras que, segundo os investigadores, teriam sido utilizadas para movimentar recursos, ocultar patrimônio e conferir aparência regular a ativos questionados. Vorcaro permaneceu submetido às cautelares impostas após sua soltura.

Em 4 de março de 2026, o ministro André Mendonça determinou uma nova prisão preventiva de Vorcaro. A decisão considerou a existência de risco concreto de interferência nas investigações, destruição de provas, ocultação patrimonial e articulação com agentes públicos.

Segundo o STF, a investigação havia identificado quatro núcleos: um núcleo financeiro responsável pelas supostas fraudes; outro de corrupção institucional, voltado à possível cooptação de servidores; um núcleo de lavagem e ocultação patrimonial; e um quarto grupo dedicado à intimidação, à vigilância e à obstrução das apurações.

Em 20 de março de 2026, a Segunda Turma do Supremo manteve, por unanimidade, a prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados. O colegiado considerou que as medidas ainda eram necessárias para preservar a instrução criminal e assegurar a aplicação da lei penal.

Em 25 de junho de 2026, André Mendonça negou a substituição da prisão preventiva por prisão domiciliar e determinou a transferência do empresário para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. A Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República sustentaram que pessoas ligadas ao grupo continuavam realizando atividades relacionadas aos fatos investigados e identificaram movimentações compatíveis, em tese, com ocultação ou deslocamento patrimonial.

A defesa alegou que Vorcaro negociava um possível acordo de colaboração premiada e necessitava de condições especiais de segurança. O relator respondeu que a existência de tratativas não eliminava os fundamentos da prisão. A última atualização oficial localizada até 22/07/2026 mantinha o empresário sob custódia preventiva.

Linha do tempo do caso Banco Master e da Operação Compliance Zero

Formação e crescimento do banco

  • 2016: Daniel Vorcaro compra participação minoritária no Banco Máxima.
  • 2017: é firmado acordo para que o empresário assuma o controle da instituição mediante novos aportes.
  • 12/10/2019: o Banco Central aprova oficialmente a mudança de controle.
  • 2021: o Banco Máxima passa a se chamar Banco Master.
  • 2023 e 2024: o grupo amplia aquisições, fundos, crédito consignado, investimentos empresariais e serviços financeiros.
  • 2024: a Polícia Federal abre investigação após requisição do Ministério Público Federal; no mesmo ano, começam as operações de compra de carteiras pelo BRB.

Crise de liquidez e tentativa de venda ao BRB

  • 28/03/2025: o BRB anuncia a aquisição de 58,04% do capital total do Banco Master.
  • Maio de 2025: o FGC concede suporte financeiro ao conglomerado enquanto o Banco Central analisa a transação.
  • 17/06/2025: o Cade aprova o negócio sem restrições.
  • 03/09/2025: o Banco Central rejeita a aquisição.
  • 17 e 18/11/2025: Vorcaro é preso, a primeira fase da Compliance Zero é deflagrada e o Banco Central decreta a liquidação extrajudicial do Master.
  • Fim de novembro de 2025: o empresário é solto mediante medidas cautelares.

Expansão das investigações em 2026

  • 14/01/2026 — segunda fase: 42 buscas e bloqueio superior a R$ 5,7 bilhões; as apurações avançam sobre fundos, empresários e estruturas patrimoniais.
  • 04/03/2026 — terceira fase: Vorcaro é preso preventivamente outra vez, ao lado de investigados apontados como integrantes dos núcleos financeiro, patrimonial e de obstrução.
  • 20/03/2026: a Segunda Turma do STF mantém as prisões preventivas.
  • 16/04/2026 — quarta fase: o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o advogado Daniel Lopes Monteiro são presos. A investigação aponta a compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras supostamente fictícias e uma negociação imobiliária estimada em R$ 146 milhões. As defesas negam a prática de crimes.
  • 22/04/2026: acionistas do BRB aprovam aumento de capital de até R$ 8,8 bilhões.
  • 07/05/2026 — quinta fase: a operação investiga suposta atuação do senador Ciro Nogueira em favor de interesses de Vorcaro e determina medidas cautelares e a prisão temporária de Felipe Cançado Vorcaro.
  • 14/05/2026 — sexta fase: são decretadas sete prisões preventivas, entre elas a de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, em investigação sobre intimidação, acesso indevido a sistemas, vazamento de dados e atuação de grupos denominados “A Turma” e “Os Meninos”.
  • 19/05/2026 — sétima fase: um perito criminal federal é alvo de buscas e afastamento funcional sob suspeita de repassar dados sigilosos da investigação. O STF ressalta que a diligência não é direcionada contra jornalistas nem afeta a garantia constitucional do sigilo da fonte.
  • 26/05/2026 — oitava fase: a PF investiga aplicações de aproximadamente R$ 3,7 bilhões do Rioprevidência em produtos e fundos relacionados ao Master. O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro e ex-dirigentes da autarquia são alvo de buscas.
  • 18/06/2026 — nona fase: a operação cumpre mandados na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal e investiga a possível participação do senador Jaques Wagner em atos relacionados aos interesses do Master. O parlamentar nega ter recebido vantagens ou atuado em favor do banco.
  • 25/06/2026: o STF mantém Vorcaro preso preventivamente e determina sua transferência para a Papudinha.
  • 09/07/2026 — décima fase: a PF investiga uma suposta campanha coordenada para atacar a credibilidade do Banco Central, contratar influenciadores e intimidar jornalistas e executivos do mercado financeiro.

Suspeitas de corrupção envolvendo Ciro Nogueira

Na quinta fase da Compliance Zero, a Polícia Federal afirmou ter encontrado indícios de que o senador Ciro Nogueira teria atuado em benefício de interesses privados de Vorcaro em troca de vantagens econômicas. Entre os pontos investigados está uma emenda apresentada à Proposta de Emenda à Constituição nº 65/2023, que elevaria a cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante.

Segundo a investigação, o texto teria sido elaborado por assessores ligados ao Master e encaminhado ao parlamentar. Os autos também mencionam uma participação societária avaliada em cerca de R$ 13 milhões, supostamente adquirida por R$ 1 milhão, além de pagamentos mensais, uso de imóvel, viagens e voos privados.

Ciro Nogueira negou que a emenda fosse uma reprodução integral de proposta apresentada pelo banco e rejeitou as suspeitas de contrapartida ilícita. As medidas adotadas contra o senador têm natureza cautelar, e não há condenação criminal relacionada a esses fatos.

Pai, primo e grupos ligados à obtenção de informações

A sexta fase concentrou-se em pessoas que supostamente integravam uma rede destinada a obter informações protegidas, monitorar adversários e interferir na atuação de autoridades. O STF determinou a prisão de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel, e de outros investigados.

As apurações citam grupos identificados em mensagens como “A Turma” e “Os Meninos”. Os investigadores atribuem aos núcleos ações de coerção, vigilância, obtenção de dados sigilosos, invasões de dispositivos e possíveis acessos a sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais.

A defesa dos investigados poderá contestar a autenticidade, o contexto e a interpretação das mensagens e demais elementos obtidos. O conteúdo das comunicações, isoladamente, não substitui a necessidade de comprovação da autoria, da materialidade e da finalidade criminosa atribuída a cada pessoa.

Rioprevidência e recursos dos servidores do Rio de Janeiro

A oitava fase da operação investigou aportes realizados pelo Rioprevidência, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões dos servidores públicos fluminenses. Segundo a Polícia Federal e a PGR, aproximadamente R$ 3,7 bilhões teriam sido direcionados a fundos, letras financeiras e produtos ligados ao Banco Master.

A investigação afirma que os investimentos continuaram mesmo diante de alertas de órgãos de controle e pareceres técnicos desfavoráveis. Também apura se houve interferência política na nomeação de dirigentes e na aprovação das aplicações, consideradas de alto risco e sem justificativa técnica suficiente.

O ex-governador Cláudio Castro foi alvo de busca e apreensão. Sua defesa declarou que ele está à disposição da Justiça, confia na lisura de sua atuação e sustenta que os procedimentos realizados durante sua gestão obedeceram aos critérios técnicos e legais aplicáveis.

Ao contrário dos CDBs adquiridos por pequenos investidores, parte dos instrumentos comprados pelo Rioprevidência não está coberta pelo FGC. A eventual recuperação dependerá da liquidação, da venda dos ativos, das garantias existentes e da responsabilização de administradores ou intermediários, caso irregularidades sejam comprovadas.

Jaques Wagner é alvo da nona fase e nega irregularidades

A nona fase da Compliance Zero alcançou o senador Jaques Wagner, líder do Governo Lula no Senado. A Polícia Federal passou a investigar possíveis vantagens concedidas ao parlamentar ou a pessoas próximas, além de sua atuação legislativa em temas que poderiam interessar ao Banco Master.

Entre os elementos mencionados pela investigação estão um apartamento avaliado em cerca de R$ 2,4 milhões, pagamentos a empresas vinculadas a familiares e intervenções em matérias relacionadas ao crédito consignado, ao FGC e à fiscalização da tentativa de aquisição do Master pelo BRB. Esses fatos constituem hipóteses investigativas e ainda dependem de confirmação documental, pericial e judicial.

Wagner afirmou que não é réu, não foi denunciado e não recebeu valores indevidos. Também negou ter atuado em favor do Master ou de qualquer instituição financeira e declarou que acompanha as investigações com tranquilidade.

Décima fase apura ataques ao Banco Central e intimidação da imprensa

A décima fase, deflagrada em 9 de julho de 2026, teve como alvo o publicitário e empresário Thiago Miranda Silva. A PF investiga se ele coordenou, em conjunto com Vorcaro, uma estratégia de comunicação destinada a comprometer a credibilidade do Banco Central e defender os interesses do Master.

De acordo com a decisão judicial, influenciadores teriam recebido propostas de até R$ 2 milhões para publicar conteúdos favoráveis ao banco e críticas à atuação da autoridade monetária. A suposta iniciativa era identificada em mensagens como “Projeto DV”.

A investigação também aponta o levantamento de informações pessoais, profissionais e patrimoniais sobre a jornalista Malu Gaspar e sobre o presidente do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho. Mensagens examinadas pela PF indicariam ainda tentativas de convencer profissionais da imprensa a retirar reportagens desfavoráveis ao banco.

A Polícia Federal enquadra os fatos, em tese, como possíveis crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, organização criminosa, embaraço à investigação, violação de dados e invasão de dispositivos. A responsabilidade individual dependerá da análise dos aparelhos apreendidos, dos fluxos financeiros e das comunicações mantidas pelos investigados.

Relações políticas e institucionais reveladas pela imprensa

Reportagens publicadas após a apreensão do telefone de Vorcaro mostraram que o empresário cultivava relações com autoridades dos diferentes Poderes e campos políticos. A rede incluía parlamentares da situação e da oposição, ministros, assessores, dirigentes de órgãos públicos, empresários e integrantes do sistema de Justiça. A existência de contatos, reuniões ou contratos, entretanto, não constitui por si só prova de prática criminosa.

A Reuters informou que Vorcaro financiou encontros empresariais e jurídicos, contratou consultores com experiência no governo e manteve interlocução com autoridades sobre a situação do banco. O escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, confirmou ter prestado serviços jurídicos ao Master, mas esclareceu que nunca representou a instituição perante o Supremo Tribunal Federal.

O ex-ministro Guido Mantega teria intermediado uma reunião de Vorcaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e representantes do Banco Central. Lula declarou posteriormente que informou ao empresário que não haveria interferência política e que a situação seria examinada tecnicamente pela autoridade monetária.

O ministro Dias Toffoli assumiu inicialmente a relatoria do caso no STF, validou as cautelares anteriores, determinou depoimentos e supervisionou a investigação. Em fevereiro de 2026, decidiu deixar a relatoria após a Polícia Federal encaminhar informações contendo referências ao seu nome. Toffoli afirmou nunca ter recebido pagamentos ou mantido relação com Vorcaro, e o processo foi redistribuído ao ministro André Mendonça.

Em março, Toffoli declarou suspeição por foro íntimo para participar de julgamentos relacionados ao caso. A declaração não especifica as razões e, juridicamente, não equivale ao reconhecimento de irregularidade.

Financiamento de filme ligado à família Bolsonaro

Outro desdobramento da cobertura jornalística envolveu o senador Flávio Bolsonaro e um projeto cinematográfico sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. Reportagem do Intercept Brasil, repercutida pela Reuters, divulgou áudio no qual o senador cobraria de Vorcaro o pagamento de parcelas relacionadas ao financiamento da produção.

Flávio confirmou que o empresário havia se comprometido a financiar o filme, mas afirmou que se tratava de um patrocínio privado, anterior à crise pública do banco, sem favores ou contrapartidas políticas. A produtora responsável declarou que não recebeu recursos diretamente de Vorcaro.

O senador também confirmou que voltou a se encontrar com o banqueiro após a primeira prisão, quando Vorcaro estava solto e monitorado, sustentando que a reunião teve como objetivo encerrar as tratativas. Até o recorte temporal deste levantamento, esse relacionamento havia produzido repercussão política e jornalística, mas não correspondia, por si só, a uma imputação criminal definitiva contra o parlamentar.

CVM identifica processos e falhas de supervisão

A Comissão de Valores Mobiliários informou, em fevereiro de 2026, a existência de diferentes inquéritos e processos administrativos envolvendo o Grupo Master, a REAG e entidades relacionadas. Entre eles está um processo sancionador instaurado para apurar possíveis irregularidades na emissão e distribuição de cotas de fundos de investimento, envolvendo o Banco Master, a Viking Participações, Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro e outros agentes.

A autarquia também relacionou procedimentos sobre possível manipulação de mercado, operações com Certificados de Recebíveis Imobiliários, fundos de direitos creditórios e ativos administrados ou geridos por empresas do mesmo ambiente de negócios. Parte dos processos está em investigação, outra aguarda julgamento e alguns foram encerrados mediante termos de compromisso, que não correspondem necessariamente a reconhecimento de culpa.

Um grupo de trabalho da CVM analisou 314 processos abertos desde 2017 e identificou 14 termos de acusação relacionados a falhas informacionais, descumprimento de deveres, reavaliação de ativos e possíveis operações fraudulentas. O diagnóstico levou a propostas para aperfeiçoar a análise de auditorias, a governança de dados, a integração entre áreas e os mecanismos de proteção a informantes.

O que está comprovado e o que ainda depende de julgamento

Estão documentalmente confirmados a expansão do Banco Master, a captação por títulos de renda fixa, o volume das operações com o BRB, a tentativa de aquisição, o veto do Banco Central, a assistência concedida pelo FGC, a liquidação extrajudicial, os pagamentos das garantias, as dez fases da operação e as decisões de prisão, busca, bloqueio e afastamento funcional.

Também são fatos confirmados a necessidade de capitalização anunciada pelo BRB, a estruturação do fundo para administrar ativos relacionados ao Master, as aplicações do Rioprevidência e a existência de processos administrativos na CVM. A qualidade, o valor recuperável e a regularidade de muitos desses ativos permanecem submetidos a auditorias, perícias e disputas judiciais.

Permanecem como alegações em investigação a fabricação de carteiras de crédito, o pagamento de propinas, a cooptação de servidores, o favorecimento a agentes políticos, a lavagem de dinheiro, a intimidação de jornalistas, a invasão de sistemas e a ocultação patrimonial. A imputação final dependerá da conclusão dos inquéritos, da manifestação da PGR, do eventual oferecimento de denúncias e dos julgamentos realizados pelo Poder Judiciário.

Daniel Vorcaro e os demais investigados conservam o direito à presunção de inocência. As medidas cautelares adotadas pelo STF indicam que o Judiciário reconheceu a existência de elementos suficientes para aprofundar a investigação e preservar provas, mas não substituem uma sentença criminal definitiva.

Falhas de supervisão

O caso Banco Master evidencia como uma instituição de participação relativamente pequena no sistema financeiro conseguiu acumular passivos garantidos de dezenas de bilhões de reais, ampliar rapidamente ativos difíceis de avaliar e estabelecer relações financeiras relevantes com bancos públicos, fundos previdenciários, gestores privados e agentes políticos. O episódio exige apuração não apenas das possíveis fraudes, mas das falhas de supervisão, distribuição, auditoria e governança que permitiram a expansão do modelo durante vários anos.

A liquidação evitou que a deterioração continuasse, mas transferiu consequências para diferentes setores. O FGC, entidade privada mantida pelo sistema bancário, precisou mobilizar aproximadamente R$ 41 bilhões para os credores do Master e antecipar contribuições das instituições associadas. O BRB, controlado pelo Governo do Distrito Federal, enfrenta perdas potenciais, necessidade de capitalização e redução de sua classificação de risco. Já fundos previdenciários poderão depender da recuperação de ativos sem cobertura do mecanismo de garantia.

 

Modelo das escolas particulares já está servindo para melhorar ensino público

Leia as informações acerca dessa charge sobre educação. a)As imagens sugerem que o aluno em destaque - brainly.com.br

Charge do Junião (Arquivo Google)

Fernando Schüler
Estadão

Semanas atrás, escrevi aqui sobre o sucesso da parceria da Prefeitura de São Paulo com o Liceu Sagrado Coração de Jesus, no centro de São Paulo. A escola é confessional, católica, os alunos são bem atendidos, há disciplina, os professores não faltam e os resultados são bons. A escola é 100% privada, sem fins lucrativos, e sua função 100% pública. Um clássico ganha-ganha.

A prefeitura lançou agora um chamamento público para ampliar o modelo para mais três escolas. Uma em Parelheiros, outra no Jardim Bandeirantes e ainda outra no Jaraguá. É exatamente assim que se faz política pública. O modelo é testado, em menor escala. E vai avançando, se os resultados forem positivos.

CHANCE ÚNICA – De minha parte, vejo algo incrível aí: a chance única de permitir que crianças de famílias pobres possam estudar em escolas similares àquelas frequentadas por seus pares de classe média e maior renda. É isto que temos que fazer, se quisermos de verdade combater as desigualdades, no Brasil.

Dias atrás, escutava uma entrevista do professor Ricardo Paes de Barros sobre nossa educação. Ele foi direto ao ponto: nós planejamos, avaliamos, aumentamos os recursos da educação, mas os resultados são “desastrosos”. E não sabemos bem o porquê.

Paes de Barros e Laura Muller realizaram uma importante pesquisa mostrando que, no conjunto analisado, as escolas de tempo integral, vistas por muitos como uma espécie de “bala de prata” da educação brasileira, perderam desempenho entre 2019 e 2023. O Ideb médio dessas escolas caiu de 4,51 para 4,44, enquanto o das demais apresentou pequeno avanço.

ESTAGNAÇÃO – A conclusão mais prudente é a de estagnação. É um quadro semelhante ao revelado pelo Pisa. Considerando a média aritmética das três áreas avaliadas, o Brasil passou de aproximadamente 401 pontos em 2009 para 397 em 2022. Em matemática, a nota caiu de 386 para 379.

O problema começa quando se tenta entender o porquê disso. Em regra, agimos de um modo algo estranho. Admitimos as mais diversas hipóteses, menos uma. Nos recusamos a considerar que possa haver um problema estrutural com o sistema estatal. Rejeitamos uma pergunta bastante simples: não estaríamos basicamente fazendo a mesma coisa e esperando resultados diferentes?

Faz sentido dobrar sempre a aposta e colocar mais dinheiro em um sistema que não funciona? E não porque há um problema com os professores, com os diretores, com o currículo ou o que seja. Não funciona porque insistimos em ignorar a lógica mais elementar dos incentivos.

SEM COMPETIÇÃO – Em primeiro lugar, não há competição. Uma escola privada capricha na gestão por uma razão simples: porque do contrário os alunos vão embora. A segunda questão trata do que os americanos chamam de “accountability”. O fato elementar de que raramente alguém é responsabilizado se os resultados não aparecerem. Os professores podem faltar 15% dos dias letivos que “não dá nada”.

Se os alunos não aprendem ou os pais estão insatisfeitos, a escola não perde nada com isso. Isso vale para diretores, secretários ou governadores, visto que a retórica política é sempre capaz de explicar qualquer coisa.

Há centenas de institutos, fundações e “especialistas” dando sugestões sobre como melhorar o sistema. Mas se ele não melhora, depois de 20 ou 30 anos, ninguém perde uma só noite de sono por causa disso.

ECOSSISTEMA SINDICAL – A verdade é que nossa educação há muito foi capturada por um ecossistema sindical, político e acadêmico cuja obsessão é manter intocado o monopólio estatal sobre a educação pública. O resto, sendo bem direto, importa muito pouco.

É o que vemos agora, a partir da iniciativa da prefeitura de São Paulo. Bastou abrir o modelo e permitir que os estudantes possam estudar em boas escolas de gestão privada, com mais diversidade e resultados significativamente melhores, que o ecossistema do monopólio estatal se põe em movimento.

O PSOL, espécie de porta-voz do grupo, entrou com uma ação na Justiça que simplesmente pode inviabilizar todo o processo. A ação diz que o programa é “ilegal”. Não é. O art. 213 da Constituição é claríssimo ao dizer que os recursos públicos serão aplicados às escolas públicas, “podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais e filantrópicas”.

SISTEMA MISTO – Nossa educação básica é um sistema misto – estatal e não estatal. Esse é o espírito da Constituição, bem desenhado no processo constituinte. Não fosse assim, por que teríamos uma lei, aprovada pelo Congresso, à época da ex-Presidente Dilma, o chamado “Marco Regulatório da Sociedade Civil”, autorizando as parcerias com o setor privado sem fins lucrativos? Exatamente a legislação que a Prefeitura de São Paulo utiliza agora para levar adiante estas parcerias.

O fato é que nossas crianças de menor renda merecem esta oportunidade. A mesma que seus pares de maior renda. Elas não têm lobby, em lugar nenhum, diferentemente da incrível rede corporativa que orbita no entorno do sistema estatal.

O que deveríamos estar discutindo é como fazer com que as parcerias ofereçam o melhor resultado. Na experiência americana com as charter schools, que são modelos de parceria, há dois dados fundamentais, revelados pelo National Charter School Study, feito em Stanford: o modelo como um todo oferece resultados melhores do que o das escolas públicas tradicionais, e há um ganho ainda mais robusto quando as parcerias são feitas com redes de ensino de maior porte, com experiência e capacidade de investir em qualidade.

OLHAR PARA FRENTE – É sobre isto que deveríamos estar discutindo. Olhando para frente, e não para trás. Rompendo com a prisão ideológica em que nos encontramos, e cuja conta é paga por mais de 80% dos alunos brasileiros que dependem das redes públicas.

São Paulo está nos oferecendo uma rara oportunidade de avançar. Trata-se de um avanço voltado não aos filhos de juízes, promotores, políticos e pessoas com renda para matricular os filhos em boas escolas, mas às crianças de Parelheiros e do Jaraguá. E por nada deveríamos retirar delas esta oportunidade.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Mais um artigo magnífico de Fernando Schüler, que está se firmando como um dos mais preparados intelectuais do país. A verdade é que a escola estatal é uma vergonha, embora possua profissionais da melhor qualidade, porque o problema é político e não apenas administrativo. Portanto, está na hora disso acabar e todos fazerem a coisa certa, para melhorar o ensino público no país. (C.N.)