Belov: o retorno da lenda | Por Luiz Holanda

Aleixo Belov voltou. Aos 83 anos, esse grande navegador baiano, a bordo do veleiro Fraternidade, alcançou mais um marco histórico em sua carreira. Acompanhado por uma tripulação formada por brasileiros e russos, concluiu a travessia da Passagem Nordeste, rota que liga o Atlântico ao Pacífico através do Ártico Siberiano. A rota é considerada uma das mais difíceis do planeta — mesmo para ele, que realizou mais de cinco voltas pelos mares do mundo. Muitas dificuldades aconteceram, como a falha no GPS, no piloto automático e na bússola, mas nada disso abalou o velho timoneiro, que continuou navegando com as velas abertas, tal qual uma ave marinha voando sobre as águas. Belov não é só um timoneiro levando o Fraternidade em busca de horizontes desconhecidos; é, também, um capitão dos mares, cujo destino é navegar.
Deixou Salvador rumo à Sibéria em mais uma de suas expedições em condições extremas. Quem o lançou ao mar nessa sua última aventura foi o Navio-Veleiro “Cisne Branco”, da Marinha, que seguiu ao lado do Fraternidade até a despedida, na altura da Boca da Barra, na Baía de Todos-os-Santos, que, segundo ele, é a mais bonita do mundo. Essa foi sua sexta volta ao redor da Terra. Ela lhe traria uma sensação muito especial, como realmente trouxe. Antes de ir, ele disse que ninguém sabia o resultado; só sabia que estava indo. “Emocionalmente, eu já estava preparado, já fiz tanta viagem, mas um dia você acorda e se pergunta o motivo de estar fazendo uma expedição dessa, tão difícil, com essa idade, e que nenhum outro velejador brasileiro jamais realizou. Se eu conseguir chegar vivo, não preciso planejar mais nada”. Chegou vivo e triunfante. Para uma alma aventureira, não existe lugar melhor do que o mar, que — além de ser um caminho — é o destino de todos os navegantes.
Belov atravessou os oceanos Atlântico e Pacífico através do extremo norte da Rússia, desafiando grandes obstáculos como os blocos de gelo que cobrem o mar do Ártico durante a maior parte do ano, com exceção de apenas três semanas em cada ano, quando o gelo se dissolve. Tendo percorrido mais de 140 mil milhas náuticas pelo mundo em seus mais de 60 anos de experiência, decidiu desafiar, mais uma vez, o destino. Com uma trajetória de vida marcada pela paixão pelo mar, afirmou que já navegou por todos os mares, e que só faltava a Sibéria: “Esse foi o maior desafio da minha vida. Tivemos que vencer o gelo, as intempéries e lidar com a burocracia da região. Mas conseguimos”. A grande notícia era esperada desde que o Fraternidade deixou nossos mares em abril do ano passado (12/04/2025). 142 dias depois, cruzou o estreito de Bering, chegando ao Oceano Pacífico. Essa proeza mostrou que esse grande navegador é “como as ondas do mar, que mesmo quebrando contra os obstáculos, encontram força para recomeçar”. Essa lenda viva enfrentou imensas dificuldades logo nos primeiros trechos, mas, mesmo assim, continuou navegando, ainda que, em algumas vezes, num mar escuro, pontilhado de estrelas. Esse velho e sagrado marinheiro conhece todos os segredos do mar. Sua experiência o fez navegar com segurança, recorrendo algumas vezes ao antigo método da navegação estimada, usando cálculos manuais baseados em tempo, velocidade, vento e direção para navegar. As dificuldades o fizeram traçar as rotas seguindo as estrelas, a forma das nuvens e o voo das aves. Poucos navegadores no mundo teriam completado essa travessia com tamanha maestria.
Com esse novo desafio, Belov escreveu mais um capítulo da navegação brasileira, registrando 4.500 milhas náuticas russas de navegação, conquistando a Sibéria e atravessando a lendária Passagem Nordeste, desafiando com bravura cada amanhecer do mar. Completada a travessia, a lenda retornou ao Brasil, aportando em Ilhabela, a Capital Nacional da Vela, o primeiro porto brasileiro a recebê-lo. Em seguida, seguiu para o Rio de Janeiro, acompanhado do Navio-Veleiro “Cisne Branco”, onde será homenageado com uma recepção feita pela Marinha do Brasil, com a presença do Vice-Almirante Antonio Carlos Cambra, Comandante em Chefe da Esquadra. O “Cisne Branco” o lançou ao mar por ocasião de sua partida, na Bahia.
Belov, como capitão do mar, não é só um grande navegador; é também uma lenda. Ele representa aquela partícula de que falava Madre Teresa de Calcutá, ou seja, aquela gota d’água na imensidão do mar, “mas que, mesmo assim, o mar seria menor se lhe faltasse essa gota”. Na canção de Paulinho da Viola, em parceria com Hermínio Bello de Carvalho, denominada “O Timoneiro”, um verso, muitas vezes repetido, simboliza uma metáfora de que nosso destino é guiado por forças maiores (o mar/Deus) em vez da vontade individual: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. E a onda que me carrega ela mesma é quem me traz”. E foi justamente essa onda que trouxe a lenda.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.
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