domingo, 25 de janeiro de 2026

G1

 

Por Vinícius Macêdo

 

  • Brasileiros com diploma universitário estão trabalhando como faxineiros em Londres.

  • Eles enfrentam dificuldades para validar seus diplomas e obter vistos de trabalho.

  • O setor de limpeza no Reino Unido é um dos maiores do país, mas oferece baixos salários e condições precárias.

  • O governo britânico tem intensificado a fiscalização do trabalho irregular.

  • O número de brasileiros que retornaram voluntariamente ao país aumentou 49% em um ano.

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Há um ano, quando a engenheira civil Lívia, de 28 anos, deixou João Pessoa, na Paraíba, ela acreditava que Londres seria o ponto de virada da sua vida.

Graduada e mestre pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB), ela chegou à capital britânica com visto de turista para estudar inglês e, depois, planejava buscar trabalho em sua área.

"Aprender inglês era meu principal objetivo. Sempre fui apaixonada pela cidade, pela arquitetura e pela cultura. Queria mudar de vida, já que não via nenhuma perspectiva na minha área no Brasil, ainda mais no meu Estado", conta Lívia.

🔎 Como todos os imigrantes brasileiros entrevistados nesta reportagem, ela pediu para não ser identificada por seu nome verdadeiro.

recomeço de Lívia veio acompanhado de dificuldades para validar seu diploma brasileiro — um processo que, segundo ela, é "caro e demorado".

Desde que chegou, passou então a trabalhar de forma irregular, sem visto apropriado e nem contratos formais.

Ela diz que está tentando obter permissão para morar e trabalhar em algum país da União Europeia, bloco do qual o Reino Unido não faz mais parte desde 2020, onde ela acredita que pode conseguir a aprovação com mais facilidade.

brasileira começou trabalhando como faxineira (ou cleaner, em inglês, termo usado para designar profissionais da limpeza no Reino Unido). Segundo entrevistados pela reportagem, é um tipo de trabalho comum para brasileiros morando no país.

"Nunca tinha feito nada manual antes. Foi difícil, mas precisava trabalhar. No começo, senti vergonha. Hoje, só quero estabilidade", diz Lívia.

Ela também trabalhou na limpeza da área de uma piscina de escola, cuidando de banheiros e áreas comuns, secando pisos e mantendo o local em ordem. Para isso, recebia 12,20 libras (R$ 88) por hora.

"Era muito cansativo, muitas horas de serviço, mas fisicamente mais tranquilo do que a limpeza de casas", conta a brasileira.

engenheira brasileira que trabalha limpando casas em Londres — Foto: Getty Images

engenheira brasileira que trabalha limpando casas em Londres — Foto: Getty Images

O oceanógrafo Wagner, de 28 anos, que deixou Porto Alegre há três anos, vive frustrações parecidas. No Brasil, ele fez várias atividades acadêmicas em sua área, mas diz que a carreira não é valorizada no país.

"Vim para Londres para conseguir trabalhar, mesmo sem documentação, e pela qualidade de vida", diz Wagner.

"Terminei minha graduação durante o intercâmbio, mas nunca consegui exercer a profissão — mais por falta de oportunidade do que por vontade própria."

Mas, diferente de Lívia, Wagner já contava que poderia acabar trabalhando com limpeza. Atualmente, ele trabalha em um hotel londrino, por meio de uma agência, e recebe cerca de 2 mil libras (R$ 14,4 mil) por mês.

"Considero o salário baixo para o que é exigido. É um trabalho pesado. Tenho dores na lombar e nas mãos, uma rotina intensa, escala 6x1 e cansaço constante", diz Wagner.

Antes de conseguir o trabalho atual, ele trabalhava como cleaner independente, recebendo entre 10 libras (R$ 72) e 13 libras (R$ 94) por hora — o suficiente apenas para pagar aluguel e suprir suas necessidades básicas.

Seus trabalhos também sempre foram irregulares. O oceanógrafo diz que nenhum tipo de visto se aplica a seu caso, por não ter vínculos familiares no Reino Unido, especialização ou um salário suficiente para atender aos requisitos exigidos.

"Além disso, são poucas as empresas dispostas a custear um visto de trabalho, ainda mais para mim, que sou recém-formado. Então, continuo trabalhando assim e juntando dinheiro, enquanto espero que apareça alguma oportunidade no futuro", afirma Wagner.

"Fico triste de ver tantos brasileiros qualificados trabalhando com limpeza ou em funções abaixo do nível de formação que têm. O Brasil perde muita gente boa por não valorizar o que tem."

No caso de Lívia, trocar o capacete de engenheira por vassouras e produtos de limpeza representa um recomeço indesejado — algo que ela jamais imaginou enfrentar, embora reconheça a dignidade do trabalho.

"Não é fácil ser chamada de faxineira após tanto tempo de estudo, mas aprendi na marra que todo trabalho é digno, e é isso que importa nesse momento", conta a brasileira.

Oceanógrafo brasileiro que trabalha fazendo limpezas em um hotel — Foto: Getty Images

Oceanógrafo brasileiro que trabalha fazendo limpezas em um hotel — Foto: Getty Images

Imigrantes qualificados sujeitos ao 'rebaixamento'

As trajetórias de Lívia e Wagner ilustram o que a pesquisadora Claire Marcel, da SOAS University of London, chama de "paradoxo da sobrequalificação migrante".

Em sua tese de doutorado "Navigating Precarity: The Lives of London's Migrant Cleaners" (Navegando a precariedade: as vidas dos faxineiros imigrantes de Londres, em tradução livre do inglês), Marcel afirma que mesmo aqueles com diplomas universitários enfrentam os mesmos baixos salários, longas jornadas e insegurança que os demais.

Marcel explica que as qualificações obtidas em outros países muitas vezes não são reconhecidas e que o status migratório limita as possibilidades de emprego. A barreira linguística agrava a situação, acrescenta a pesquisadora.

Tânia Tonhati, professora e pesquisadora do departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, explica que casos como os dos dois brasileiros entrevistados pela BBC News Brasil refletem um fenômeno estrutural da imigração brasileira contemporânea.

"Desde os anos 1990, o Reino Unido sempre recebeu imigrantes brasileiros com ensino superior e alta qualificação. O que mudou agora é o contexto", diz Tonhati, que já realizou pesquisas sobre imigração e a atuação de cidadãos do Brasil no exterior.

"Depois do Brexit [saída do Reino Unido da União Europeia] e da pandemia, o processo migratório ficou mais restrito e caro. Muitos brasileiros que antes circulavam com passaporte europeu perderam essa facilidade, tornando o recomeço mais precário e, em muitos casos, mais solitário."

A pesquisadora afirma que um perfil de imigrante comum no Reino Unido é justamente o do jovem com "capital econômico, social e cultural" que aceita empregos temporários — e, muitas vezes, em condições precárias de trabalho — com a esperança de mudar depois.

E acrescenta: "Quase todos os imigrantes, não só brasileiros" passam por essa espécie de "rebaixamento", em que uma pessoa altamente qualificada ocupa funções abaixo da sua formação.

"Não se trata de falta de mérito individual, mas de estruturas que desvalorizam o trabalho migrante", conclui Tonhati.

'Vivo com medo, em um estado de vigilância permanente'

Para quem deixa o Brasil sem diploma universitário e sem visto, os obstáculos se multiplicam. É o caso da goiana Fabiana, de 24 anos, que chegou a Londres em 2020, durante a pandemia, com a esperança de juntar dinheiro para voltar e estudar.

Cinco anos depois, ela encontrou estabilidade como funcionária em uma casa de família, onde trabalha de segunda a sexta, das 8h30 às 19h. Antes disso, passou por diferentes funções — de entregadora de comida a babá.

"Faço tudo: limpeza, comida, passo roupa, cuido do cachorro. Sou quase uma governanta — nem sei se essa função ainda existe", brinca Fabiana.

Ela trabalha por meio de uma agência terceirizada. Ela conta que o cliente paga 16,50 libras (R$ 119) por hora, Fabiana fica com 11 libras (R$ 79), e as 5,50 restantes (R$ 40) vão para a empresa.

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