Especializada em temas internacionais, foi repórter, correspondente e editora de Mundo em 'O Globo'
'Conselho da Paz' nasce esvaziado e à imagem de Trump
Com a ausência de grandes potências, entidade criada para rivalizar com a ONU espelha a visão empresarial e megalômana do presidente americano.
Formalizado nesta manhã em Davos, o "Conselho da Paz" espelha a visão empresarial e megalômana do presidente dos EUA, Donald Trump: ele atuará como presidente vitalício, um CEO com poder de veto. Os países que desejem ser membros permanentes devem pagar a taxa de adesão no valor de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,3 bilhões).
Trata-se de um clube de aliados do presidente americano, criado sob o pretexto de reconstruir Gaza, mas com a intenção de imiscuir-se em outros conflitos mundiais e rivalizar com a ONU.
A realidade, contudo, mostra uma entidade que já nasce esvaziada. Dos 60 convites enviados a líderes pelo presidente americano, em torno de 25 aceitaram integrar o conselho. (Veja aqui quais países aceitaram, quais recusaram e quem ainda não respondeu)
Destes, somente um europeu — o premiê autocrata da Hungria, Viktor Orbán, admirador do movimento MAGA e o maior aliado de Trump no continente. Os demais declinaram, ao menos por enquanto — reflexo também da quebra de confiança no relacionamento com o presidente americano.
No universo paralelo e constrangedor traçado por Trump, ele vangloriou-se da composição do conselho, formado, nas suas palavras, “por estrelas e as pessoas mais influentes do mundo”. Ele proferiu os habituais superlativos sobre a importância que terá na solução de guerras.
Trump exibe tratado de paz de Gaza — Foto: Fabrice Coffrini/AFP
“Cada um dos que estão aqui é meu amigo. Gosto de todos”, afirmou, durante a cerimônia de criação de seu "Conselho da Paz".
Pouco se falou sobre Gaza, a que o presidente voltou a se referir como “uma bela propriedade à beira-mar”, prometendo que os moradores, hoje em situação precária, passarão a viver muito bem. Genro de Trump, Jared Kushner exibiu slides projetando imagens de uma Gaza futurista, com arranha-céus espelhados, e cenário de turismo costeiro.
O pequeno grupo disposto no palco em Davos, contudo, não refletia a realidade traçada por Trump, de que todos os convidados estariam interessados em seu Conselho. Entre os presentes, líderes e representantes de Mongólia, Uzbequistão, Emirados Árabes Unidos, Turquia, Arábia Saudita, Catar, Paraguai, Paquistão, Kosovo, Cazaquistão, Jordânia, Indonésia, Hungria, Bulgária, Azerbaijão, Armênia, Argentina, Marrocos e Bahrein.
Trump lança 'Conselho da Paz' em Davos: 'Todos querem participar' — Foto: MANDEL NGAN / AFP
O premiê de Israel, Benjamin Netanyahu, aceitou participar do "Conselho da Paz", mas não viajou por ter um mandado de busca por crimes contra a Humanidade emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Se Vladimir Putin aceitar, será o segundo líder mundial procurado pelo TPI a integrar o "Conselho da Paz".
Membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, a China ainda não respondeu ao convite e expressou preocupação com a função do clube privado de Trump. O Brasil tampouco se manifestou.
A contar pela exposição de Trump sobre a entidade recém-criada, organismo multilateral que se preze, só é válido se for presidido por ele.
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