sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

 

É insuportável ter clareza sobre a vulnerável condição humana

Desenvolver a consciência fez o homem encarar a realidade

Luiz Felipe Pondé
Folha

Mais um ano se foi. E as pessoas sobre a Terra fizeram planos. Não há dúvida de que convenções podem ser poderosas para um animal que pouco tem além delas. Leis, democracia, religiões e moral vagam sob um absoluto vazio de fundamento.

Sempre fui um apaixonado pela biologia. Isso me levou, entre outras razões, à faculdade de medicina. Sempre senti um halo de beleza e tragédia na teoria da evolução natural e em sua cegueira estrutural.

SALTO INFELIZ – A consciência é um salto evolutivo infeliz. A clareza absoluta sobre a condição humana é um sintoma insuportável. Melhor seria se nunca tivéssemos atingido esse grau excessivo de consciência. Quem disse que a evolução natural sabe o que faz?

Do autor de quem vou falar aqui hoje, infelizmente, a oferta em português é precária. O mercado editorial brasileiro, cada vez mais, se divide, na sua imensa maioria, entre as casas ideológicas e as casas que só querem best-sellers de péssima qualidade, quando os dois traços não se misturam.

Trata-se de Peter Wessel Zapffe, norueguês, advogado não praticante, montanhista e filósofo, morto em 1990.

TRAGÉDIA  HUMANA – “O Último Messias”, um opúsculo, existe em português, apesar de eu nunca ter visto essa tradução. Sua obra máxima, que li em inglês, “On the Tragic”, até onde sei, não foi vertida para o português.

Zapffe se inscreve naquela tradição rara em filosofia chamada por alguns de “filosofia lunar”. A maior parte dos filósofos, de uma forma ou de outra, pertence à “filosofia solar”. Ser lunar significa não crer que no final do dia, ou dos tempos, a ordem intrínseca, que tende ao bem, se impõe. Crer nessa ordem faz de você um ser lunar.

Nesse sentido, lunares seriam autores como o romano Lucrécio, o francês Pascal, no século 17; Kierkegaard e Schopenhauer, no século 19; Unamuno, Freud, Jung, Camus, Cioran e Zapffe, no século 20; John Gray, no século 21. Antes que alguém salte com correções de orelha, Nietzsche é um demilunar, ou meio lunar.

EXCESSO DE CONSCIÊNCIA – Uma característica de Zapffe é partir da biologia —mais especificamente da teoria da evolução— para dizer que a consciência, e sua condição cognitiva excessiva, foi um salto evolutivo que deu ruim. Um peso para a frágil espécie humana que se arrasta pelo mundo criando escapes para este excesso de consciência.

Uma analogia conhecida que Zapffe faz é com o alce pré-histórico extinto que, com seus exuberantes e poderosos galhos na cabeça, acabou sucumbindo ao peso que eles significavam no dia a dia.

No caso da consciência, ela tem suas funções adaptadas à tragédia da sua condição excessiva.

FUGAS E DISTRAÇÕES – Zapffe enumera essas adaptações, ou fugas, como ancoragem —mecanismos rígidos de fuga, como religiões ou ideologias políticas—, isolamento —fuga do pensamento obcecado pelo insuportável da consciência—, distração —se ocupar, próximo do “divertissement” de Pascal— e sublimação —fazer da agonia uma arte, filosofia, literatura, próximo a Freud.

O insuportável citado acima pode ser compreendido pela contradição insolúvel entre nosso desejo infinito e a indiferença do universo —próxima à ideia de absurdo em Camus.

Duvidar de si e do mundo, antecipar o futuro, ver o vazio de fundo, a impermanência, a vulnerabilidade, a contingência, a morte, o silêncio e a escuridão dos espaços infinitos que apavoravam Pascal. Todas essas realidades são atributos da nossa percepção.

EVOLUÇÃO TRÁGICA – Em Zapffe, o mundo não é trágico, tampouco trágica é a estética ou a moral em si. Trágica é a evolução natural da espécie, em direção à sua consciência plena, ou à clareza absoluta da sua própria condição.

Neste sentido, a lucidez que advém da clareza sobre nós mesmos —como pensava Camus— é um sintoma desse salto evolutivo infeliz, desse mau passo da natureza.

Como diz Zapffe, a natureza nos deu a consciência por meio de um erro cego e, com isso, nos expulsou dela, fazendo de nós uma espécie animal exilada do “paraíso” da ausência de consciência.

QUEDA DO PARAÍSO – Assim, o filósofo norueguês lia o mito da queda do paraíso. Como dizia Pessoa, “se o coração pensasse, parava de bater”.

Se Agostinho fosse um trágico, diria que passamos a vida buscando o trágico do lado de fora de nós, quando ele está dentro de nós. Trágica é a consciência, essa condição insuportável quando tomada na sua nudez.

“Uma noite, nos tempos imemoriais, o homem despertou e viu a si mesmo”, diz Zapffe, na abertura de “O Último Messias”. “Sua mulher o mandou caçar”, complementa o autor. Diante do animal indefeso, foi tomado de compaixão. Naquele dia, foi encontrado devorado por algum predador. Há muita beleza na tragédia humana. Há terror e há piedade.

Jornal Nacional arrebentou com Dias Toffoli, mas Fachin saiu na defesa dele

Tribuna da Internet | Com a evolução digital, a imprensa tem missão cada vez mais importante

Charge do Bier (Arquivo Google)

Carlos Newton

O jornalista Helio Fernandes costumava criticar a “imprensa amestrada” e sua ironia era procedente, porque o jornalismo estava dominado  pelos donos dos órgãos de comunicação, que vigiavam e controlavam pessoalmente as redações. Assim, somente eram publicadas as notícias que fossem do interesse deles.

Assis Chateaubriand era o Cidadão Kane brasileiro, comandava a linha editorial de seu império e escrevia os artigos de opinião. Outros empresários da comunicação usavam a mesma estratégia, como Octavio Frias, Júlio de Mesquita, Carlos Lacerda, Samuel Wagner etc.

EDITORIALISTAS – Com a modernização dos jornais e revistas, os  grandes empresários passaram a cuidar apenas dos negócios e contrataram experientes jornalistas para escrever os editoriais, a exemplo de Roberto Marinho, Paulo Bittencourt, Nascimento Brito, Roberto Civita, Adolfo Bloch e todos os demais.

Surgiram assim os editorialistas, que eram contratados para defender as teses do interesse dos empresários, que continuam controlando as redações, dando origem à tal imprensa amestrada, que os verdadeiros jornalistas tanto desprezavam.

De repente, aconteceu a informatização, com a internet, a notícia em tempo real, e os empresários foram perdendo o controle da redações, apesar de continuar entregando as chefias a jornalistas submissos e servis, para fazer o trabalho sujo.

COISA DO PASSADO – O controle direto e absoluto acabou, é coisa do passado. Os donos de veículos de comunicação não são jornalistas e nem chegam perto das redações. Mandam instruções através de seus títeres, fazem ameaças, mas não há como vigiar tudo, as notícias acabam vazando, os jornalistas de maior prestígio ganham cada vez mais independência, a imprensa livre tornou-se uma realidade irrefreável nesta nova era da notícia em tempo real.

Assim, não existe mais imprensa amestrada. Os verdadeiros jornalistas não aceitam tutela e no final acabam sempre defendendo o interesse público.

Essa realidade está sendo comprovada no caso do Banco Master. A sujeirada começou a ser denunciada discretamente em O Globo e logo se alastrou pela imprensa inteira, sem que os empresários pudessem segurar as notícias.

FARTA PODRIDÃO – Ao mesmo tempo, descobriu-se o supercontrato da mulher de Alexandre de Moraes e as pressões que o próprio ministro fez ao Banco Central, em favor do Banco Master.

Agora veio a tona o escândalo do resort-cassino de Dias Toffoli, que emporcalhou ainda mais o Supremo, além das notícias da Tribuna da Internet, denunciando a atuação ilegal de Alexandre de Moraes, que se apresentou como falso relator e irregularmente julgou sozinho dois recursos da defesa de Jair Bolsonaro.

Assim, a imprensa demonstra a importância que terá neste século, quando se registra o maior desenvolvimento tecnológico de todos os tempos, mas precisa ser acompanhado de uma evolução política, ambiental e socioeconômica, para que possamos viver num mundo mais justo.

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P.S. –
Este artigo já estava escrito, quando assisti ao Jornal Nacional na noite desta quarta-feira, um programa que vem me surpreendendo, porque agora está sendo comandado por um jornalista de verdade. Ao contrário de William Bonner, que durante 29 anos conduziu o programa para ser assistido por “telespectadores do tipo Homer Simpson”, o jornalista e apresentador César Tralli mudou o JN e agora dá destaque à política. Nesta quinta-feira, o repórter Júlio Mosquera deixou Dias Toffoli com as calças na mão 
no caso do resort, digamos assim, dando sequência a uma demolidora matéria publicada pelo Estadão. O mais importante, porém, foi a conclusão da matéria, com o presidente do STF, Edson Fachin, defendendo ridiculamente Toffoli e ameaçando quem critica o Supremo. Era só o que faltava… Fachin está tomando o caminho errado e pode cair do cavalo,  junto com o colega. Depois voltaremos ao assunto. (C.N.) 

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