Democratas avançam no Congresso e podem impor freios a Trump, diz analista

© AP Photo / Allison Robbert
Em conversa com a Sputnik, a cientista política dr.ª Anuradha Chenoy afirma que o avanço democrata nas eleições de meio de mandato dos EUA pode reequilibrar o sistema político ao reduzir o controle republicano sobre o Congresso, impondo obstáculos à agenda interna do presidente Donald Trump.
O avanço do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos pode alterar significativamente a dinâmica de poder em Washington e limitar a capacidade do presidente Donald Trump de governar sem contrapesos legislativos. Essa é a avaliação da cientista política dr.ª Anuradha Chenoy, professora aposentada da Universidade Jawaharlal Nehru, na Índia.
Em conversa com a Sputnik, Chenoy afirmou que os democratas vêm conquistando cadeiras tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, configurando uma "onda azul" sobre a tradicional "onda vermelha" associada aos republicanos. Para ela, a disputa reflete um descontentamento crescente de parte do eleitorado com a situação econômica e social do país.
Segundo a especialista, a principal explicação para a mudança no cenário político é econômica. "Como se diz nos Estados Unidos: 'É a economia, estúpido'", destacou. Na avaliação dela, o aumento dos custos de vida, a alta dos combustíveis e a preocupação com os impactos da inteligência artificial (IA) sobre o emprego alimentaram a insatisfação popular.
Chenoy também argumenta que a percepção de aumento da desigualdade social e as acusações envolvendo a conduta pessoal e política de Trump contribuíram para fortalecer a oposição. Para a analista, temas como cortes em programas sociais, pressões sobre universidades e o tratamento dado à dissidência serviram de combustível para os setores mais à esquerda do Partido Democrata.
A especialista avalia que uma eventual maioria democrata no Congresso restabeleceria parte do equilíbrio entre os Poderes nos EUA. "Haverá um presidente republicano, mas o Legislativo será democrata", resumiu. Nesse cenário, projetos de lei e propostas orçamentárias dependeriam de negociações mais amplas para avançar.
"Isso pode resultar em que eles exerçam poder sobre ele [Trump], mas também pode levar a um sistema mais transacional — de trocas mútuas. Todas as nomeações precisarão passar pelo crivo da Câmara", explicou.
Ainda segundo Chenoy, a nova configuração, portanto, pode ampliar os impasses políticos em Washington e, muito embora o Congresso ganhe capacidade de barrar iniciativas presidenciais e fiscalizar o Executivo, Trump continuaria dispondo de instrumentos importantes, como o poder de veto. Além disso, ela observa que os democratas poderiam voltar a discutir a abertura de um processo de impeachment, algo que já tentaram sem sucesso em ocasiões anteriores.
No campo internacional, porém, a professora não espera mudanças significativas. Apesar de Trump ter prometido encerrar rapidamente o conflito entre Rússia e Ucrânia durante a campanha, Chenoy sustenta que os Estados Unidos tendem a manter suas principais linhas de atuação externa, incluindo o apoio a aliados e a continuidade de políticas estratégicas já estabelecidas.
"[Trump] iniciou um conflito com o Irã, atacando o país unilateralmente em três ocasiões. Ele afastou aliados dos EUA ao reivindicar territórios deles, além de impor tarifas e medidas econômicas unilaterais. Ele continua a destinar bilhões a Israel — um Estado que comete um genocídio declarado e vive em estado de guerra permanente. É provável que essas políticas dos EUA continuem", afirmou.
Para a analista, as transformações mais relevantes devem ocorrer na política doméstica, enquanto a atuação internacional norte-americana permanecerá relativamente estável. "O mundo acompanhará desdobramentos interessantes na política dos EUA e, consequentemente, na política global", concluiu.



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