Moraes se autodestruiu no Supremo por absoluta falta de honestidade e de caráter
Charge do Schmock (@schmock_art)
Carlos Newton
Aos 57 anos, Alexandre de Moraes torna-se o maior fracasso da longa trajetória do Supremo, com um desfecho verdadeiramente inesperado, porque ele exibia uma sólida formação acadêmica e ostentava um currículo de rara qualidade, só comparável ao do ministro Luiz Fux na formação atual da corte.
Além de ter publicado dois importantes livros sobre Direito Constitucional, Moraes era professor titular de Direito Eleitoral da famosa Faculdade do Largo de São Francisco (USP), instituição pela qual se graduou e fez doutorado em Direito do Estado, sob a orientação do renomado professor Dalmo Dallari, apresentando uma tese sobre jurisdição constitucional.
BELO CURRÍCULO – Na USP, ele obteve em 2001 a livre-docência com uma tese sobre Direito Constitucional Administrativo. E no ano seguinte ingressou no corpo docente da universidade, como professor do Departamento de Direito do Estado. Além disso, exercia o magistério também na Universidade Presbiteriana Mackenzie, na Escola Superior do Ministério Público de São Paulo e na Escola Paulista da Magistratura. Nada mal, portanto.
Outro diferencial de Moraes era a experiência administrativa. Foi integrante do Ministério Público de São Paulo de 1991 até 2002, quando pediu exoneração para assumir o cargo de secretário estadual da Justiça e da Defesa da Cidadania, no governo de Geraldo Alckmin, função que exerceu até 2005. Depois, foi secretário municipal de Transportes de São Paulo na gestão de Gilberto Kassab, de 2007 a 2010, e secretário municipal de Serviços, cumulativamente, de 2009 a 2010. Em seguida, Alckmin o nomeou secretário estadual de Segurança Pública, onde ficou até maio de 2016, quando se tornou ministro da Justiça no governo de Michel Temer.
BELA VIOLA… – Como diz o velho ditado, “por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Ao percorrer essa trajetória de vida, Moraes foi sendo alvo de diversas acusações sobre seus procedimentos, mas conseguia escapar delas.
Em fevereiro de 2005, quando era secretário estadual de Justiça, após ser pressionado por diversas denúncias de tortura e rebeliões, Moraes demitiu de uma vez só 1.761 funcionários dos presídios, alegando estar afastando a “banda podre” da instituição. A demissão em massa gerou uma ação trabalhista coletiva que obrigou o governo a pagar 38 milhões de reais em indenizações. Moraes foi investigado pelo Ministério Público, mas o caso acabou arquivado.
Como secretário de segurança, um desastre, porque primou pela violência extrema, fazendo em 2015 a Polícia Militar ser responsável pela morte de uma em cada quatro pessoas assassinadas no estado de São Paulo, algo estarrecedor e jamais visto.
JUNTO AO PCC – Ainda em 2015, reportagem do Estadão revelou que o escritório de Moraes defendia pelo menos 123 processos da cooperativa Transcooper, uma das cinco empresas e associações que lavavam dinheiro para a facção criminosa do PCC.
Como ex-secretário de Transportes, Moraes tinha obrigação de saber quem controlava a cooperativa, mas se fingiu de desentendido e apenas disse, por meio de nota, que “renunciou a todos os processos que atuava como um dos sócios do escritório de advocacia” e alegou que estava de licença na Ordem dos Advogados do Brasil durante o período investigado. Quer dizer, explicou, mas não justificou, como é seu hábito.
Agora, no auge da carreira, o pirotécnico ministro do Supremo novamente não tem como se justificar, devido à constatação de que vendeu “proteção” a um banqueiro fraudador que se acostumara a comprar autoridades em série. É um final grotesco de uma carreira que parecia magnífica.
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P.S. 1 – Esse surpreendente caso criminal é apenas mais um episódio bizarro em um país onde o próprio presidente da República já cumpriu pena por corrupção e lavagem de dinheiro, sendo julgado por dez juízes diferentes, em três instâncias, e condenado sempre por unanimidade.
P.S. 2 – O mais incrível é que o soberbo Alexandre de Moraes foi destruído por um ministro que não dispõe de currículo portentoso e tem pequena experiência jurídica. Em compensação, André Mendonça desponta como um homem digno e corajoso, que sabe como enfrentar os poderosos e vencê-los no bom combate. (C.N.)
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