Metade do dinheiro público para deputados fica nas mãos de 7% dos candidatos
Charge do nani (Nani Humor)
Marina Pinhoni
Natália Santos
Nicholas Pretto
Folha
A poucos dias do primeiro turno das eleições 2026, metade do dinheiro público para o financiamento de campanha destinada ao cargo de deputado federal se concentra em apenas 7% dos candidatos. A desigualdade também é observada na eleição para deputados estaduais e distritais.
Os 7.700 candidatos que concorrem a uma vaga de deputado federal arrecadaram R$ 2,76 bilhões de verba pública transferida por meio dos partidos, de acordo com a prestação parcial de contas ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral), cujo prazo foi no domingo (13).
MAIS DE R4 1,58 MILHÃO – Do total, só 7,4% (579 candidatos) receberam mais de R$ 1,58 milhão, mostra análise da Folha. Essa quantia é a metade do que cada candidato a deputado federal pode gastar com a campanha (R$ 3,17 milhões). Juntos, esses 7% somam R$ 1,36 bilhão em recursos.
Já entre os 11,7 mil postulantes a deputado estadual e distrital, foram repassados R$ 1,1 bilhão. Só 3% deles (388 candidatos) receberam mais de R$ 635 mil (a metade do R$ 1,27 milhão que podem gastar). Desde que as doações empresariais foram proibidas, em 2015, o dinheiro público tornou-se a principal fonte de financiamento para as candidaturas.
Nesta eleição, os partidos dispõem de R$ 4,96 bilhões do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para distribuir a todos os cargos, além da verba do fundo partidário –que serve para manter a legenda ao longo do ano, mas também pode ser usada na eleição.
MAIORES FATIAS – O PL e o PT ficaram com as maiores fatias do fundo especial (também chamado de fundão), tendo recebido respectivos R$ 881,6 milhões e R$ 615,3 milhões. O União Brasil vem em seguida, com R$ 526,2 milhões.
Embora as 30 legendas recebam uma parcela mínima do fundo eleitoral, a maior parte é dividida de acordo com o número de votos na última eleição e a representação no Congresso.
A candidata Rosana Valle (PL-SP), que concorre à reeleição na Câmara dos Deputados, foi quem mais recebeu transferências públicas entre os candidatos. Foram R$ 3,24 milhões, oriundos da direção nacional do PL (R$ 3,17 milhões), da direção paulista da sigla (R$ 50,8 mil) e da direção municipal de Santos (R$ 20 mil).
APOSTA DA LEGENDA – Rosana é presidente estadual do PL Mulheres e uma das apostas da legenda para atrair o eleitorado feminino, segmento no qual o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta rejeição. O PL também transferiu mais de R$ 3 milhões para Marcelo Moraes (RS), Coronel Meira (PE), Giovani Cherini (RS), Bibo Nunes (RS) e Osmar Terra (RS).
Na ponta oposta, a que menos recebeu do partido foi Shanisys (PR) que tenta uma vaga na Câmara pela primeira vez. Ela recebeu R$ 1.430. A ex-ministra do Turismo Daniela do Waguinho (Republicanos) é a segunda na lista dos que mais receberam recursos públicos dos partidos. Também candidata à reeleição, ela arrecadou R$ 3,17 milhões.
Os 579 candidatos que concentram metade da verba pública de deputado federal estão espalhados por 19 partidos. O topo tem o União Brasil com 88 nomes, seguido do PL, com 80, e do PT, com 79.
TOPO DA LISTA – Na esfera estadual/distrital, o topo da lista é composto por cinco nomes que receberam a mesma quantia: R$ 1,27 milhão. São eles: Professor Cláudio Branchieri (PL-RS), Olívia Motta (Republicanos-PB), Kaio Maniçoba (PP-PE), Maurício Scalco (PL-RS) e Kelly Moraes (PL-RS). As maiores doações contrastam com os R$ 78,43 recebidos, por exemplo, por 21 candidatos paulistas do PSB.
Cabe a cada sigla decidir como o dinheiro é distribuído. Candidatos a presidente e governador costumam receber quantias maiores, já que as campanhas são mais caras e o teto de gastos é maior. Mas, mesmo para os cargos proporcionais, não há igualdade no repasse: nomes mais conhecidos ou que disputam reeleição concentram a verba.
DEMAIS CARGOS – Segundo a declaração parcial de contas, os candidatos que concorrem a todos os cargos dessas eleições arrecadaram R$ 5,3 bilhões. Mais de 85% vêm do fundo especial (R$ 4,5 bilhões); outros 5% do fundo partidário (R$ 297 milhões) e 9% de outros recursos (R$ 478 milhões) –que podem ser doações de pessoas físicas, financiamento coletivo e recursos próprios. Os candidatos podem receber de mais de uma fonte, e vices e suplente estão contemplados nas declarações dos titulares ao cargo.
Juntos, os candidatos à Presidência declararam R$ 90,6 milhões de recursos públicos. Desse valor, 90% está dividido entre o Flávio Bolsonaro, com 46,3%, e o presidente Lula (PT), com 44,3%.
FUNDO ESPECIAL – Flávio recebeu R$ 42 milhões da direção nacional do PL, por meio de fundo especial, e R$ 2.000 da direção estadual do PL Amazonas, por meio de fundo partidário. Já Lula recebeu R$ 40 milhões da direção nacional do PT e R$ 150 mil da direção nacional, mas por fundo partidário.
Romeu Zema (Novo), Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Clariana Barão (DC), Hertz Dias (PSTU) e Samara (UP) totalizam 9,4% de todo o valor recebido por presidenciáveis que vieram de recursos públicos. Edmilson Costa (PCB), Renan Santos (Missão), Rui Costa Pimenta (PCO) e Wilson Grassi (Democrata) não declararam ter recebido verba de fundos públicos até agora.
BENEFICIADOS – Segundo dados do TSE, fundos públicos somam R$ 430 milhões para a campanha de 125 candidatos a governador. Dentre os nomes, quem mais recebeu foi Douglas Ruas (PL), com R$ 17,7 milhões, que disputa o Governo do Rio de Janeiro com Eduardo Paes (PSD), o segundo nome da lista (R$ 16,6 milhões recebidos).
Na sequência vem o ex-ministro Fernando Haddad (PT) que disputa o governo paulista, com R$ 16 milhões, seguido de Alexandre Kalil (PDT), por Minas Gerais, com R$ 14 milhões. A quinta posição é de Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, que recebeu R$ 11,8 milhões de recursos públicos. Os limites de gastos com a campanha definidos pelo TSE para governadores e senadores variam de acordo com o estado.
CANDIDATOS A SENADOR – Entre os candidatos a senador, Simone Tebet (PSB-SP) lidera a arrecadação de verbas públicas com R$ 6,5 milhões, seguida do ex-presidente da Assembleia paulista André do Prado (PL-SP) e de Geraldo Rufino (Podemos-SP), ambos com R$ 6 milhões.
Na sequência vem o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo Guilherme Derrite (PP-SP), com R$ 5,85 milhões. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT-MG) e a ex-deputada Benedita da Silva (PT-RJ), receberam R$ 5,3 milhões cada.
A análise da Folha considera como recursos públicos o somatório das verbas vindas de Fundo Especial de Financiamento de Campanha e de fundo partidário. Não foram avaliados nesta reportagem as doações vindas de pessoas físicas, financiamentos coletivos ou recursos que os próprios candidatos injetaram em suas campanhas.
Na reta final, diminuem as manipulações e as pesquisas se tornam menos levianas
Charge do Newton Silva (Arquivo Google)
Carlos Newton
Conforme começamos a avisar antes mesmo de iniciada a campanha, não se deve confiar em pesquisas eleitorais, devido à alta possibilidade de manipulação. Somente na fase final as pesquisas se aproximam da verdade, porque não podem falhar demais, porque se desmoralizam e acabam perdendo clientes na eleição seguinte.
O exemplo mais gritante ocorreu quando a ex-presidente Dilma Rousseff decidiu disputar a eleição para o Senado em 2018. Desde o lançamento da candidatura, todas as pesquisas indicavam seu favoritismo. Como havia duas vagas, a eleição era considerada certa e os assessores logo começaram a chamá-la de “senadora”.
ENORME DECEPÇÃO – Quando as urnas foram abertas, uma enorme decepção. Os candidatos eleitos foram Rodrigo Pacheco (DEM), com 20,49%, e Carlos Viana (PHS), 20,22%. A superfavorita Dilma (PT) ficou em quarto lugar, perdendo até para Dinis Pinheiro (Solidariedade), que teve 18,42% dos votos.
Mesmo assim, os jornalistas continuam a tratar as pesquisas como se fossem oriundas do Oráculo de Delfos. Na atual eleição, Lula vinha disparado, praticamente eleito no primeiro turno. Mas depois Flávio Bolsonaro foi subindo, foi subindo, até começar a aparecer na frente do petista, no segundo turno.
No desespero diante dessa realidade, Lula e o PT estão fazendo o diabo, como disse a então presidente Dilma, em 2013: “Nós podemos disputar eleição, nós podemos brigar na eleição, nós podemos fazer o diabo quando é a hora da eleição”.
NOSSA SENHORA – Na reta de chegada as duas campanhas partem para o tudo ou nada, e o PT desencavou a projeto apresentado em 2007 pelo então deputado pastor Professor Victório Galli (PP-MT), arquivado há muitos anos. Ao contrário do que os petistas propagam, o texto não tirava de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil, apenas trocava por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”, pois Galli era evangélico e invocava a laicidade do Estado.
Em cima dessa manipulação, o PT está fazendo o diabo, mas o resultado pode ser contrário, com Lula perdendo preciosos votos dos evangélicos e protestantes indecisos, pois os religiosos não aceitam esse tipo de manipulação secular.
É triste e decepcionante ver a política brasileira sendo manipulada até em termos de religiosidade, embora o país seja um Estado laico, que tem de aceitar todas as religiões, sem discriminação.
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P.S. – Essas manipulações das pesquisas mostram que ainda estamos longe de atingirmos o grau de civilização. Como dizia o lendário historiador, filósofo e jornalista britânico Kenneth Clark (1903-1983): “Civilização? Não sei o que é isso. Mas tenho certeza de que, se algum dia a encontrar, saberei reconhecê-la”. (C.N.)
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