A Polícia Federal na berlinda
02/09/2026 • 15:31
Em artigo publicado em vários jornais da Bahia, escrevi, por ocasião de um congresso realizado pela Polícia Federal (PF) em nosso estado, que a instituição era uma das mais sérias do país, liderando o Ranking de confiança entre os brasileiros com 56% de aprovação. Também afirmei que sua atuação era exercida como um “sacerdócio” para quem tem vocação em enfrentar os perigos e proteger o Brasil contra a corrupção. Hoje, infelizmente, as dificuldades para que se repitam essas alegações são muitas. Seu diretor, Andrei Rodrigues, foi citado em mensagens do ex-banqueiro Daniel Vorcaro em tratativas e tentativas de interferência em investigações, segundo relatórios da própria corporação divulgados após o levantamento de sigilo pelo ministro André Mendonça, do STF.
Os relatórios mostram Vorcaro citando o nome de Rodrigues e do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, para monitorar ou tentar barrar o andamento de apurações contra o Banco Master. Mesmo não apontando elementos indicando que Rodrigues tenha atendido os pedidos ou prestado alguma proteção a favor de Vorcaro, uma troca de mensagens desse tipo indica que o ex-banqueiro pediu que o magistrado tentasse reverter as investigações sobre a instituição financeira junto de Paulo Gonet e do próprio Andrei Rodrigues: "Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?", escreveu Vorcaro ao ministro em 15 de novembro de 2025 — dois dias antes de ser preso pela primeira vez.
O Banco Master custeou as despesas de hospedagem, alimentação e locomoção de Rodrigues para que o diretor da PF pudesse participar do I Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, realizado em abril de 2024. As despesas pagas pelo Master incluíram a hospedagem no Hotel Península e a alimentação, além do transporte local. Paralelamente ao Fórum, Vorcaro financiou altíssimo luxo na capital britânica, como um jantar/festa no exclusivo clube privado Annabel's (com direito a show do cantor Seal) e uma badalada degustação do uísque Macallan, um dos mais caros do muindo, além de charutos no George Club, em Mayfair. O evento reuniu a cúpula dos Três Poderes da República, com a participação de ministros do STF (Alexandre de Moraes e Dias Toffoli), além do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski. Apenas a degustação de uísque e charutos foi avaliada em US$ 640.831,88 (cerca de R$ 3,2 a R$ 3,3 milhões no câmbio da época). Estimativas de gastos com jantares paralelos e festas privadas exclusivas na mesma viagem também somam cifras milionárias.
A PF informou que não houve pagamento de diárias com recursos públicos para a viagem e que Andrei Rodrigues não recebeu cachê, remuneração ou ajuda de custo pela participação. O episódio gerou representações de partidos políticos junto a órgãos de controle para apurar eventuais conflitos de interesse, além de questionamentos levantados em comissões do Congresso Nacional. Em mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, o ex-banqueiro pediu que o magistrado tentasse reverter as investigações sobre a instituição financeira junto de Paulo Gonet e Andrei Rodrigues: "Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei? Muita sacanagem isso. Isso em Brasília?", escreveu Vorcaro ao ministro em 15 de novembro de 2025 — dois dias antes de ser preso pela primeira vez.
A direção da corporação e o próprio Andrei Rodrigues reiteram que a instituição atua com total imparcialidade e autonomia técnica, rechaçando qualquer envolvimento em esquemas de proteção a investigado. O problema é que as mensagens de Vorcaro para Moraes apontam para um pedido de proteção: “É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem" e "Não conseguimos reverter isso com Paulo e Andrei?". Na véspera de ser preso Vorcaro tentou fazer com que Moraes sensibilizasse o chefe da PF para atrasar o cumprimento das medidas judiciais: "Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra". Os relatórios da Polícia Federal indicam o esforço e a crença de Vorcaro de que conseguiria essa blindagem por meio de seu interlocutor, embora não haja prova de que Andrei Rodrigues tenha atendido ao apelo. Mesmo assim, a PF sai chamuscada nesse episódio, mesmo sendo amplamente reconhecida como uma das instituições mais respeitadas e confiáveis do país. Diferente da percepção de um abalo generalizado, dados de pesquisas como os da AtlasIntel, em parceria com o Estadão, mostram a corporação no topo da credibilidade institucional no país, registrando 56% de avaliações positivas. Mas, infelizmente, Vorcaro colocou a PF na berlinda.
Luiz Holanda
Luiz Holanda (ou Luiz de Holanda Moura) é um reconhecido jurista, professor universitário e advogado baiano, com vasta experiência em gestão pública e ensino jurídico. É autor de livros e artigos, além de ter sido conselheiro da OAB/BA e ocupado cargos importantes na administração pública.
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