Sem medo do escuro | Por Luiz Holanda

Em sessão exclusiva para convidados e imprensa, a Fundação Aleixo Belov, no dia 9 próximo passado, apresentou o teaser do documentário sobre a vida e o legado do imortal navegador ucraniano-brasileiro Aleixo Belov. O documentário é um resumo da trajetória dessa lenda do mar, desde sua infância até suas seis voltas ao mundo, incluindo a histórica travessia da Passagem Nordeste, na Sibéria. Apesar de ser uma síntese da biografia desse notável navegador, o documentário abrange temas como a força de vontade, a coragem, a perseverança, o propósito e a esperança. Entre seus elementos centrais destaca-se um antigo caderno onde Belov registrou, ainda jovem, os sonhos que desejava realizar. Produzido pela K Filmes em sociedade com a Coletânea Filmes, com direção de Maycon Nunes, o documentário procura preservar a memória marítima brasileira, cuja divulgação será lançada em plataforma de streaming. Refugiado de guerra e migrante ucraniano, Belov chegou à Bahia ainda criança, juntamente com sua família. Para essa lenda, o destino escolhido pelo seu pai foi fundamental para que ele se tornasse um navegador: “O fato dele ter vindo pra Bahia de Todos-os-Santos fez com que eu me apaixonasse pelo mar”, costuma dizer. No Brasil, Belov se formou em Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia (Ufba), virou mergulhador, velejador e criou uma empresa de engenharia portuária. Deu seis voltas ao mundo a bordo de veleiros que ele mesmo construiu, percorrendo desde a Antártida até o Alaska, incluindo a Sibéria. Registrando suas aventuras em livros, passa, nesse documentário, a perpetuar sua trajetória e suas aventuras em filme, que pode ser visto pela internet.
Ao afirmar que sua vida no mar só foi possível graças às políticas públicas do Brasil, ele assim se expressa: “Eu fui tão bem recebido aqui. Cheguei como imigrante de guerra e progredi, claro, porque a sociedade permitiu que eu progredisse. Aqui eu estudei o primário de graça, o ginásio de graça, o científico de graça, a Universidade Federal da Bahia de graça. Tudo foi de graça. Eu não tinha dinheiro para ter plano de saúde. A saúde era de graça. Isso aqui é um país, rapaz”.
Como forma de retribuir o apoio que recebeu e compartilhar uma experiência acumulada ao longo dos seus 83 anos, Belov decidiu transformar sua embarcação num veleiro-escola e custear a viagem de toda a tripulação. Animado após a chegada, ressaltou a sua conexão com a Bahia e com o Brasil: “Eu fui fazer o Mar da Sibéria com 82 anos. Essa energia foi a Bahia que me criou. Estou aqui muito feliz por estar de volta com todos vocês.” Formado em engenharia Civil pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), fala fluentemente cinco idiomas, como o português, o russo, o ucraniano (sua língua materna), o inglês e o espanhol. Empreendedor e navegador, construiu uma trajetória de sucesso tanto na engenharia portuária e subaquática quanto na navegação oceânica, sendo o primeiro brasileiro a dar a volta ao mundo de forma solitária. Além disso, escreveu vários livros, como “A Volta ao Mundo de forma solitária, Em busca das Raízes: Segunda Volta ao Mundo – Volume 2, Alaska: muito além da linha do horizonte, A quinta volta ao mundo de Aleixo Belov a bordo do Veleiro Escola Fraternidade”, e outros. Sua vida é uma marca de superação, empreendedorismo e uma profunda conexão com o mar. Conquistou a Sibéria registrando 4.500 milhas náuticas russas de navegação ao atravessar a lendária Passagem Nordeste, desafiando com bravura as noites escuras do mar. Ser um navegador (ou um homem do mar) é um estilo de vida moldado por uma vocação que ultrapassa os ciclos das marés e as forças da natureza. É uma espécie de identidade de quem vive, trabalha e dedica a sua existência ao mar. Viver no mar, para alguns, é uma filosofia de vida. Para outros, uma convivência constante com a imensidão oceânica, desenvolvendo características marcantes a quem nela vive, como a capacidade de lidar com os imprevistos, o isolamento e a profunda compreensão de que o mar é o soberano, o forte e o definidor do seu destino. O senso de união e a solidariedade entre os que navegam são vitais para o sucesso. O filósofo Anacharsis resumiu muito bem a essência do homem do mar: “Existem três tipos de homens: os vivos, os mortos e os que navegam no mar”. Na literatura e na cultura popular o homem do mar é frequentemente retratado como uma figura sábia e corajosa, que carrega consigo as histórias, os mistérios e as transformações que o oceano representa, além da liberdade e a coragem diante da imensidão das águas. Faz do mar a sua casa, o seu sustento e a sua identidade. É um artista cujo meio de expressão é o vento. Sabe que, no mar, a ausência de luz não é o abismo, mas o estímulo para se viver “SEM MEDO DO ESCURO”.
*Luiz Holanda, advogado e professor universitário.
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