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É espantoso que ainda existam pessoas que acreditam nas pesquisas eleitorais

Pesquisas eleitorais - Espaço Vital

Charge do Newton Silva (Arquivo Google)

Carlos Newton

Em países como o Brasil, as pesquisas eleitorais são um ramo promissor no setor de serviços, não há dúvida. O faturamento cresce a cada eleição, batendo seguidos recordes. Basta dizer que até maio deste ano, foram feitos mais de 700 levantamentos sobre perspectivas das eleições de outubro, com investimentos de R$ 40 milhões.

É muito dinheiro rolando por baixo da ponte que conduz ao poder. O TSE informa que 2024, foram realizadas 14 mil pesquisas, com gastos quase R$ 172 milhões em levantamentos sobre intenção de voto para os cargos de prefeitos e vereadores. Estas são apenas as pesquisas oficiais, registradas na Justiça Eleitoral, mas existem milhares de outras que são feitas por baixo do pano… e que até custam muito mais caro.

EXCITAÇÃO – A imprensa contribui generosamente para o sucesso comercial dos institutos, que gostam de serem chamados assim, e divulgam os resultados como se fossem infalíveis, oriundos do Oráculo de Delfos, centro religioso mais importante e reverenciado da Grécia Antiga, nas encostas do Monte Parnaso.

Mas a realidade não é bem assim, e a melhor definição de pesquisa é a que define essa atividade como “a arte de torturar os números até que eles confessem os resultados pretendidos”.

O fato concreto é que toda eleição é marcada por erros grotescos, em que os resultados das urnas têm sido absurdamente diversos daqueles apontados às vésperas da votação.

ERROS BIZARROS – Lembrem o que ocorreu em 2018 com a vitória de três azarões em Estados importantes – Romeu Zema em Minas Gerais, Wilson Witzel no Rio de Janeiro, e Carlos Moisés em Santa Catarina.

Os disparates foram ainda piores na disputa para o Senado, quando favoritos absolutos, indicados por todas as pesquisas, acabaram chegando em terceiro ou quarto lugar, como Dilma Rousseff em Minas Gerais, Eduardo Suplicy em São Paulo, Roberto Requião e Beto Richa no Paraná, ou José Fogaça no Rio Grande do Sul.

Em 2022, também houve muitas mancadas dos institutos. Tarcísio Freitas, por exemplo, venceu o primeiro turno com 7 pontos de vantagem sobre Fernando Haddad, que liderava amplamente as pesquisas.

MAIS VEXAMES – Foi mais uma sucessão de vexames. No Rio de Janeiro, o governador Cláudio Castro foi reeleito no primeiro turno, embora as pesquisas indicassem que haveria segundo turno contra Marcelo Freixo.

Para o Senado foi um festival. No Paraná, Sergio Moro venceu e o favorito Alvaro Dias ficou em terceiro lugar; e no Espírito Santo, Magno Malta derrotou a líder Rose de Freitas.

Em São Paulo, o astronauta Marcos Pontes venceu o líder Márcio França com 13,5 pontos de vantagem; e no Rio Grande do Sul o general Hamilton Mourão, que estava derrotado nas pesquisas, elegeu-se senador.

DATAFOLHA – Vejam agora a nova pesquisa Datafolha. O respeitado instituto quer nos convencer de que, entre cada grupo de 1.784 pessoas que encontrarmos nas ruas e irão mesmo votar, cerca 80% delas vão votar em Lula ou Flávio Bolsonaro, e apenas 20% delas estariam dispostas a sufragar algum dos outros 12 candidatos alternativos. Somado aos brancos e nulos, esse total chegaria a menos de 26%.

Mas não é isso que as pesquisas apresentam no quesito rejeição. Bolsonaro é repudiado por 48% dos eleitores e Lula por 46%, no próprio Datafolha. E pesquisa mais recente, do Instituto Ipsos-Ipec, indica que 56% dos brasileiros não confiam em Lula.

Apenas uma pesquisa, feita pelo Alfa Inteligência, independente e sem patrocinador, indica Ronaldo Caiado e Romeu Zema com 7 pontos cada. Todas as demais jogam no abismo os dois candidatos alternativos. Por que será?

P.S. Os números precisam ser torturados com arte. Caso contrário, entregam em choque entre si. Nas regras da probabilidade, é praticamente impossível que candidatos vençam o pleito tendo 48% (Flávio) ou 46% (Lula) de rejeição. Isso só acontece se eles forem os vencedores do primeiro turno. Porque qualquer outro candidato, com menos rejeição, pode derrotá-los no segundo turno. Justamente por isso, as pesquisas precisam manter a polarização, a qualquer custo.  Pense sobre isso, antes de acreditar em pesquisas eleitorais num país corrupto como o Brasil. (C.N.)