PT aposta em mulheres evangélicas para tentar romper resistência histórica ao lulismo

Bate-boca põe evangélicas de esquerda em evidência
Anna Virginia Balloussier
Folha
Quem são as mulheres evangélicas ligadas ao PT, grupo que há anos tenta construir pontes entre a esquerda e um segmento tão arisco ao lulismo? Para a primeira-dama Janja da Silva, uma lufada de esperança no redemoinho eleitoral que se avizinha, ao contrário do que o pastor Silas Malafaia possa achar.
“Ele teve a cara de pau de ir numa rede social e falou que eu estava conversando com mulheres insignificantes. Insignificante é ele, porque toda mulher para mim é importante”, disse naúltima semana, em evento com crentes petistas ou simpáticas ao partido. O encontro referido pelo pastor aconteceu em 2025 na Coletivação, igreja de Ceilândia (DF). Malafaia disse na ocasião que a primeira-dama conseguia no máximo reunir mulheres sem “nenhum pingo de expressão no mundo evangélico”.
“INSIGNIFICÂNCIA” – Ao resgatar a fala, Janja a tirou completamente de contexto, diz o pastor. Há uma “diferença monumental”, segundo ele, entre “mulheres sem expressão” e “insignificantes”. “Uma mulher pode não ter expressão na sociedade, mas ser extremamente significante para sua casa, sua família e sua igreja.”
O bate-boca entre os dois coloca foco em um grupo pequeno em número, mas estratégico para o presidente Lula (PT). Essas mulheres tentam conciliar fé cristã e pautas historicamente associadas à esquerda. Rejeitam a ideia de que ser crente implique adesão automática ao conservadorismo e querem disputar uma narrativa religiosa monopolizada por pastores alinhados ao bolsonarismo.
É gente como Nilza Valéria Zacarias, 54, autora do livro “A Casa da Rita”, conselheira da Presidência e uma “grande amiga” com quem Janja diz conversar bastante para organizar reuniões Brasil afora. O objetivo é identificar obstáculos que evangélicas “viam em nós, do campo progressista”, e ouvir o que essas mulheres têm a dizer —elas que são, em sua maioria, negras e de baixa renda. E também a base das igrejas.
RELEVÂNCIA DA MULHER – Nilza tem um monte a dizer. Foi quem a fez se tocar da relevância da mulher no cristianismo, afirmou Janja no evento do PT. Deu exemplos: ao ressuscitar, Jesus se revelou primeiro para Maria Madalena, e transformou água em vinho após outra mulher, Maria, alertar que faltava a bebida numa festa. “A gente precisa olhar a Bíblia também pela ótica feminina”, disse a primeira-dama.
Nilza reconhece que a direita conseguiu emplacar no imaginário popular “a ideia de que a esquerda tem que ser combatida”, mas vê sinais de saturação na base. A partidarização dos templos, segundo a coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, gera um efeito colateral de esvaziamento.
“Os pastores que insistirem no discurso, assumindo candidatura, vão continuar perdendo gente. Há um cansaço do excessivo discurso político dos últimos tempos”, diz Nilza, que é de uma família batista há gerações —ela frequenta a carioca Nossa Igreja Brasileira.
OUTROS TEMPOS – Nilza lembra de quando estudou num colégio católico, por ser o melhor da região. Era chamada de pagã por colegas, por não ser batizada no catolicismo. Os tempos mudaram, e os evangélicos saíram das franjas sociais. Não tem por que agora tratá-los como um monolito eleitoral, afirma. “Não existe um ser humano que se diga somente evangélico na vida. Todo mundo é evangélico e alguma coisa.”
A mesma mulher que “reconhece Cristo como aquele que promove vida” sai de casa todo dia “para ter uma vida”. “Ela vai trabalhar, pega ônibus lotado, não tem com quem deixar os filhos, tá no Sisreg [sistema que organiza filas no SUS], sofre violência. É atravessada pelo que atravessa todas as mulheres.”
Mãe, avó, cuidadora de idosos, estudante de serviço social, dirigente partidária e filha de um fundador do PT, Dagmar Santos, 46, mora ao lado de uma “congregação bem bolsonarista” em Lauro de Freitas (BA). Prefere orar numa igreja mais progressista, que para ela acerta no tom: não bate na tecla ideológica, ou assustaria a membresia, diz. “A gente vai fazendo o chamado do Senhor. Não adota muito uma linha de posicionamento entre direita e esquerda.”
POLARIZAÇÃO – Dagmar estava no salão onde Janja disse algo na mesma toada: “Ah, esquerda e direita… Se a gente continuar nisso, talvez fique patinando igual um carro encalhado na lama, sabe? Acho que é o campo progressista que acredita nos valores que estão no Evangelho”. Faltou combinar com os milhões de evangélicos que aderiram a Jair Bolsonaro (PL) e aliados nos últimos anos —a mesma turma que, mesmo tendo valores mais conservadores do que a média da população, já optou pelo PT antes.
Dagmar acusa pastores que, “de forma muito maldosa, muito perversa”, perceberam que muitos fiéis não conseguem detectar os interesses políticos embutidos na pregação. Também se incomoda com “uma Bíblia instrumentalizada a partir da perspectiva do homem masculinizado e opressor contra as mulheres”.
Daí tantos irmãos de fé “seguirem essa linha da demonização do diferente”, afirma. Ela credita a impopularidade da esquerda nas igrejas a uma maior dificuldade de chegar à base, “pelo falso moralismo mesmo, pela hipocrisia instalada”.
ERRO – Para Dagmar, o maior erro do campo tem sido a forma de pautar o aborto, caindo na armadilha discursiva de quem é “a favor ou contra a vida”. Quem que vai ser contra a vida afinal? Criminalizar a mulher que interrompe uma gravidez é “subjugá-la duas vezes a uma violência” e condená-la “em condições desumanas no aspecto espiritual”, afirma. O tema não foi citado na reunião do PT. Campo minado demais.
Deu para sentir quais frentes, na visão dos ali presentes, devem ser priorizadas: o combate ao feminicídio e à violência doméstica, sem esquecer que a igreja costuma ser o primeiro refúgio para fiéis agredidas. Mortalidade materna, insegurança alimentar e falta de vagas em creches e escolas também afetam muitas evangélicas e, por isso, devem entrar na pauta.
A vereadora em Goiânia Aava Santiago (PSB) jogou luz sobre o que considera ser “uma das estatísticas mais cruéis deste país hipócrita, que faz uma verdadeira cruzada contra mulheres”. Conservadores falam que “a maternidade é sagrada”, mas compactuam com o afrouxamento de leis trabalhistas, disse. Saldo: muitas profissionais voltam da licença maternidade e são demitidas. “A cara da pobreza deste país ainda é uma mãe com seu filho pequeno no colo.”
ARAPUCAS – À Folha, Aava defende que a esquerda não caia em arapucas ideológicas. “Quem tem obsessão por esses temas é justamente a extrema direita, não o governo ou o campo progressista, tampouco a grande maioria dos evangélicos”, afirma. “Se você perguntar para qualquer uma das minhas irmãs da Assembleia de Deus o que é prioridade para elas, não vão falar quem pediu casamento LGBTQIA+. Vão falar de creche para os netos, emprego para os filhos, tempo com a família.”
A vereadora conta que tem um monte de tios pastores. Tudo no que acredita, diz, não aprendeu nem na faculdade de ciências sociais nem na militância política. “Eu aprendi primeiro na igreja, na escola bíblica dominical, lendo a Bíblia. Na verdade, a política é um método para aplicar aquilo que o Evangelho me ensina desde que eu nasci.”
Piada do Ano! Na falsa delação, Vorcaro iria “inocentar” Moraes e a mulher dele
Charge de João Spacca (Arquivo Google)
Carlos Newton
Não é sem motivos que a Justiça brasileira esteja sendo alvo de tamanhas críticas, investigações e até processos, como ocorre nos Estados Unidos, na Itália, na Espanha e na Argentina. Realmente, não têm a menor justificativa jurídica os erros da Suprema Corte, relatados pelo ministro Alexandre de Moraes a partir de 2019, no início do “Inquérito do Fim do Mundo”, na expressão realista e jocosa do ministro aposentado Marco Aurélio Mello
O que houve desde então foi uma extrapolação do rigor da Justiça, a pretexto de punir um golpe de estado que realmente foi planejado e poderia ter ocorrido. Porém, não foi tentado e, por esse motivo, seus autores nem podiam ser processados .
LEMBRANDO GETÚLIO – Como todos sabem, o golpe não existiu. Bolsonaro, Braga Netto & Cia. se acovardaram e desistiram na chamada undécima hora. Diante dessa realidade, tornaram-se inimputáveis, pois no Brasil e nos demais países do mundo o ato de “planejar” não caracteriza crime, que só acontece se existir “tentativa”.
Esse episódio cívico-jurídico nos faz lembrar o presidente Getúlio Vargas, após a Intentona Comunista de 1935, que obteve maior resultado no Rio Grande do Norte, onde o governador Rafael Fernandes teve de se asilar no consulado do Chile. O estado ficou por três dias com os revolucionários no poder. No golpe, houve quatro mortes em Natal e outras mais no interior, com cerca de 20 vítimas fatais.
Na hora de punir os revoltosos, o ditador Vargas fez exatamente o contrário do que aconteceu agora no Supremo, neste governo do socialista refinado Lula da Silva.
CLEMÊNCIA – Vargas convocou seu maior aliado no Rio Grande do Norte e pediu que indicasse um advogado que tivesse dignidade e clemência ao julgar os comunistas. Alegou que os juízes federais iam querer agradá-lo, impondo penas rigorosas, mas ele queria o contrário, seu objetivo era pacificar o país.
O político da base aliada disse que só havia um grande advogado com esse perfil em Natal, chamado Manuel Quirino de Azevedo Maia. Mas tinha um problema – ele era antigetulista.
Mesmo assim, o ditador aceitou. Nomeou como juiz federal o Dr. Quirino Maia, como era conhecido, e ele foi piedoso com os comunistas, mas continuou fazendo comícios contra Getúlio, que decidiu “exilá-lo”, digamos assim, mandando transferi-lo para o então território do Acre, que pertencera à Bolívia e ainda estava sendo colonizado pelos brasileiros, em clima de faroeste caboclo.
TUDO AO CONTRÁRIO – Quase 100 anos depois, Lula fez o contrário de Getúlio e aplaudiu o rigor da absurda condenação dos manifestantes do 8 de Janeiro, que mereciam ser processados, mas dentro da lei e sem o rigor do Supremo petista.
Portanto, tudo mudou. Hoje, a Justiça está emporcalhada, o Supremo inteiramente desacreditado, e surge a notícia de que a delação do banqueiro Daniel Vorcaro poupa o ministro Moraes, alegando que ele não tomou qualquer iniciativa para defender o Banco Master.
Em O Globo, o jornalista Lauro Jardim informa que Vorcaro admite que o contrato de R$ 129,6 milhões com Viviane Barci, mulher de Moraes, tinha como objetivo se aproximar do ministro, mas ressalva que Moraes não chegou a agir a seu favor.
COMPROMETEDOR – “Pode ser”, diz o colunista Lauro Jardim, arremetendo: “O que compromete, no entanto, é um contrato assumidamente feito com o objetivo de criar boa relação com uma autoridade. E, pior, com um valor exorbitante e injustificável”
No mesmo embalo, a jornalista Malu Gaspar, também em O Globo, informa que Vorcaro, poucos dias antes de ser preso, iria assinar novo contrato com a mulher de Moraes. Ele já havia entregue R$ 80,2 milhões ao escritório dela e aceitava pagar os restantes R$ 50,4 milhões à vista, para perfazer os R$ 129,6 milhões, caso o Master fosse vendido ao BRB.
Em suma: a família Moraes tem goela grande, tipo avestruz, e julga que pode “vender proteção” a um criminoso bilionário e escapar ilesa.
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P.S. 1 – As provas contra Moraes já existem. São o primeiro contrato, de R$ 129,6 milhões, para não prestar qualquer serviço, exceto a “proteção”, e o telefonema de Vorcaro a Moraes, no dia da intervenção no Master, perguntando: “Bloqueou?”. Em qualquer país minimamente sério, Moraes já estaria sendo processado, como está ocorrendo na matriz Estados Unidos. Enquanto isso, aqui na filial Brazil, a Justiça se comporta como se não estivesse acontecendo nada.
P.S. 2 – Por fim, o trabalho de Lauro Jardim e Malu Gaspar mostra que ainda há jornalistas na imprensa amestrada, e isso é fundamental para garantir uma democracia minimalista neste país. (C.N.)
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