PONTO DE VISTA: Origem
histórica e funcional das
“Kengas”
Por Luiz Holanda
1 hora e 50 minutos
Vários são os métodos utilizados para corromper autoridades e pessoas influentes, tanto no mundo dos negócios como no do poder político. Entre os meios encontramos o suborno (oferta de dinheiro vivo ou transferências bancárias), doações de bens de luxo, vantagens comerciais, ofertas de empregos, cargos, tratamento VIP em eventos exclusivos para o alvo e seus familiares, viagens e festas fechadas. Jeffrey Epstein, que se suicidou, em agosto de 2019, em uma prisão em Nova York, circulava nesse universo junto de gente poderosa, manipulando suas vulnerabilidades, ambições e necessidades. Tudo isso para ganhar dinheiro. Morreu rico. Posteriormente, os “Arquivos Epstein” revelaram a existência de uma organização criminosa que utilizava mulheres e meninas como objeto de troca. No Brasil, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, também contratava mulheres para participar de festas luxuosas em Trancoso (BA) e em viagens internacionais. O esquema era utilizado para oferecer regalias, obter favores e se aproximar de autoridades públicas, políticos e magistrados. Vorcaro se referia às mulheres contratadas como “Kengas”, usando o termo de forma pejorativa.
No Nordeste, o termo é popularmente conhecido como “Quenga”, de kienga, do quimbundo (língua banto falada em Angola), cujo significado é vasilha, tacho ou um recipiente feito a partir da metade de uma casca de coco sem polpa. A referência ao coco é porque, assim como o coco fica sem o miolo (quenga de coco) a mulher que usa o sexo para ganhar dinheiro é "sem miolo", ou seja, "desmiolada". Em Natal, um dos blocos carnavalescos LGBTQIA+ e de diversidade mais tradicionais e importantes do Brasil é o “Bloco das Kengas”, símbolo de resistência e celebração. No Rio de Janeiro existe a “Banda das Quengas”, fundada em 1990, que desfila pelas ruas da Lapa atraindo grandes multidões. A palavra apareceu nas mensagens atribuídas a Vorcaro durante as investigações sobre o escândalo do Banco Master: “Preciso de um avião para as kengas”, escreveu ele a um operador, referindo-se às garotas de programas utilizadas nas festas para aliciar autoridades dos três poderes da República. As investigações apontam que esses eventos ocorriam na Bahia, em uma mansão cinematográfica, em Trancoso, uma propriedade de luxo com 12 suítes localizada no condomínio Terravista, no litoral baiano. A casa contava com rigorosos protocolos de segurança, inclusive a proibição de uso de celulares, já que nela se encontrava gente muito importante. Relatórios da Polícia Federal também apontam a realização de eventos e orgias em cenários internacionais luxuosos, como Nova York, Londres e Lisboa.
Os fatos narrados fazem parte das investigações no âmbito do escândalo envolvendo o Banco Master, divulgados pela imprensa. A inusitada solicitação de Vorcaro foi encaminhada para Leo Serrano Giunchetti, identificado pelos investigadores como um dos operadores do ex-banqueiro, em abril de 2024. Nela, Vorcaro diz que precisava de um “avião para as kengas”. A quebra de sigilo demonstrou que o pedido ocorreu minutos após Vorcaro receber atualizações sobre o plano de voo de uma comitiva de políticos. Mensagens encontradas no celular do ex-banqueiro indicam que as “Kengas” eram custeadas para atrair autoridades e empresários, criando uma rede de lobby e influência que está sob apuração do Tribunal de Contas da União (TCU) e da Policia Federal (PF). O cruzamento de dados e as datas dos diálogos reforçam a principal linha de apuração da PF, que aponta que eventos de grande porte promovidos por Vorcaro contavam com serviços de prostituição como parte de uma estratégia deliberada de lobby. Entre os objetivos estavam estreitar laços com magistrados de tribunais superiores e parlamentares influentes para blindar os interesses do Banco Master.
O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) formalizou um pedido de abertura de investigação para mapear quais autoridades públicas compareceram a essas festas ocorridas em Trancoso. Segundo as investigações, a proprietária do imóvel expressou forte descontentamento com o andamento das festas, reclamando da entrada frequente de garotas de programa na residência e da superlotação do espaço, que ultrapassou o limite estabelecido no contrato de locação. O inquérito policial segue em andamento para detalhar a identidade das autoridades beneficiadas e se os eventos resultaram em favorecimentos ilícitos ou decisões ligadas às atividades financeiras do Master. Apesar da extensão desses crimes, tudo indica que ninguém será condenado, pois os crimes, no Brasil, praticados pelos poderosos, são garantidos pela impunidade. O ministro Gilmar Mendes já afirmou que esse processo do Master está igual ao da Lava Jato, ou seja, pode ter o mesmo destino.
Luiz Holanda é advogado e professor universitário
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