Os três poderes de Vorcaro
Queda do sigilo de outra parte das investigações sobre o Banco Master dificulta ainda mais a tentativa da família Bolsonaro de escapar do escândalo

A derrubada do sigilo de mais um pedaço das investigações sobre o escândalo do Banco Master incluiu o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entre as autoridades que foram agraciadas pela generosidade do banqueiro Daniel Vorcaro, com uma viagem ao Gilmarpalooza.
Na semana passada, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), já tinha aparecido como destinatário de 30 milhões de dólares — ele negou e prometeu “todas as medidas judiciais cabíveis“.
Essa é a parte da cúpula do Legislativo com que o banqueiro teria se relacionado, cujo destaque é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que estampa as investigações da Polícia Federal com várias fotos de carinho com o banqueiro em locais paradisíacos (foto).
No Judiciário, a principal relação foi com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, com quem Vorcaro trocava mensagens, segundo as investigações — Moraes nega.
Também há uma conexão com o ministro Dias Toffoli, que chegou a relatar o caso do Banco Master no STF de forma muito estranha e teve de abandonar o processo depois de admitir que é sócio oculto de uma empresa que fez negócio com o banqueiro, no resort Tayayá.
No Executivo, o contato de Vorcaro teria sido direto com o presidente Lula, em reuniões fora da agenda oficial. O presidente confirmou ao menos uma delas e teria até lhe dado um conselho.
Não se tem notícia de que o petista recebeu qualquer benefício, mas Vorcaro contratou ex-ministros de Lula, como Ricardo Lewandowski e Guido Mantega, aparentemente com a intenção de se aproximar do presidente da República — e algum acesso ele conseguiu.
Interesses
Além de tudo, o banqueiro do Master cooptou dois funcionários do Banco Central e subornou o presidente do BRB, que autorizou transações desaconselhadas pelo corpo técnico do banco público de Brasília, em troca de seis apartamentos de luxo, segundo indicam as investigações.
A reunião de Lula com Vorcaro ocorreu em dezembro de 2024, época que, alegam agora os bolsonaristas, o banqueiro não era encarado como alguém enrolado com a Justiça.
Mas a família Bolsonaro criticava os encontros de Lula fora da agenda até outro dia, antes de virem a público as mensagens do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedindo dinheiro para o filme Dark Horse, sobre a eleição de 2018 que elegeu seu pai presidente.
É por conta de todo esse histórico que as explicações do pré-candidato à Presidência da República pelo PL não colam. Vorcaro se relacionou com todos os que conseguiu para sustentar a administração irresponsável — e aparentemente criminosa — do Banco Master.
E, ainda que a tão esperada delação do banqueiro não saia, os envolvidos dificilmente vão se recuperar do desgaste de ter tido qualquer tipo de ligação com ele.

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