As delações de Vorcaro
Investigações sobre banqueiro revelam mensagens e relações que alcançam ministros do STF e aumentam a crise
25/06/2026 • 14:57
O escândalo do Banco Master, provocado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, atingiu o topo da política brasileira. Suas relações com o poder contaminaram a própria Justiça, já que alcançaram o Supremo Tribunal Federal (STF). O caso envolve uma rede complexa de contatos com autoridades dos três Poderes e está no centro de uma tentativa de colaboração premiada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Os dados apreendidos no celular de Vorcaro revelam comunicações próximas e ligações entre o banqueiro e alguns ministros do STF, envolvendo negócios com o banco e com o próprio Vorcaro, entre os quais o escritório de advocacia ligado à esposa do ministro Alexandre de Moraes.
Segundo as investigações, o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, foi contratado em fevereiro de 2024 para prestar serviços de advocacia ao banco. O contrato durou até novembro de 2025. O acordo original previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais por 36 meses, totalizando R$ 129 milhões. Até a liquidação do banco, o escritório recebeu pouco mais de R$ 80 milhões pelos serviços prestados.
Após três meses de silêncio, o escritório informou que prestou serviços de consultoria e compliance ao Banco Master, recebendo valores sem atuar no STF. Entre os serviços declarados estão a emissão de 36 pareceres e opiniões legais e a participação em 94 reuniões de trabalho, focando em reestruturação de compliance, análise de inquéritos policiais, ações civis públicas e áreas cível e trabalhista.
Especialistas apontam que a precificação estava significativamente acima das médias praticadas no mercado jurídico. Em sua defesa, o escritório de Viviane Barci emitiu notas afirmando que a atuação de sua equipe e as reuniões realizadas contestam as críticas e o vazamento das informações.
Na proposta de delação de Daniel Vorcaro aparece um novo acordo com o escritório no valor de R$ 50 milhões, que seria assinado antes da liquidação do banco. A revelação desse caso gerou debates sobre transparência corporativa, com detalhes sobre os valores e as minutas do acordo que podem ser acompanhados nos relatórios da PF.
Já as relações de Vorcaro com o ministro Dias Toffoli incluem encontros sociais, trocas de mensagens e transações financeiras envolvendo um resort e negócios da família do magistrado.
A PF elaborou um relatório apontando mais de 10 encontros entre Toffoli e Vorcaro entre 2023 e 2024, a maioria em jantares e festas em Brasília. Mensagens recuperadas do celular do banqueiro discutiam repasses financeiros que, segundo a PF, alcançariam R$ 35 milhões.
Toffoli declarou ser sócio da empresa familiar Maridt, a qual vendeu participações de um resort (Tayayá) a um fundo ligado ao Banco Master. O ministro negou qualquer ilegalidade nos negócios e afirmou que sua participação societária sempre foi declarada à Receita Federal.
Devido às citações ao seu nome e às investigações em andamento, Toffoli declarou-se suspeito e deixou a relatoria dos inquéritos referentes a Vorcaro no STF. O caso foi repassado ao ministro André Mendonça.
As propostas de delação de Vorcaro foram recusadas pela PF — e uma delas pela PGR — sob a justificativa de omissão de dados e valores de ressarcimento considerados insatisfatórios.
Em seus depoimentos, Vorcaro afirmou que não sabia que Toffoli era o verdadeiro dono do resort Tayayá, situado em Ribeirão Claro (PR). O celular do banqueiro desmente essa versão.
As investigações indicam que Vorcaro dialogava com os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. As conversas vieram à tona após a apreensão do celular do banqueiro pela Polícia Federal.
Segundo reportagens, os diálogos ocorreram em 17 de novembro de 2025, horas antes de Vorcaro ser preso no Aeroporto de Guarulhos. O banqueiro atualizava seus interlocutores por mensagens sobre a tentativa de vender o Banco Master para evitar uma intervenção, questionava o andamento de inquéritos e bloqueios e pedia que o negócio fosse autorizado.
A última interação registrada ocorreu pouco mais de uma hora antes da abordagem da PF. Nela, Vorcaro afirmava que o anúncio do negócio com investidores poderia “inibir” a situação, ao que Moraes teria respondido com um emoji de positivo.
A Secretaria de Comunicação do STF e o próprio ministro negaram ter recebido essas mensagens, classificando as alegações como informações falsas com o objetivo de atacar a Corte.
Seja como for, o contrato celebrado entre a esposa de Moraes e o Banco Master, bem como o jantar em Londres do ministro com o banqueiro, prejudicaram a imagem do magistrado e do próprio STF. Nas delações de Vorcaro, ambos os ministros foram poupados.
Luiz Holanda
Luiz Holanda (ou Luiz de Holanda Moura) é um reconhecido jurista, professor universitário e advogado baiano, com vasta experiência em gestão pública e ensino jurídico. É autor de livros e artigos, além de ter sido conselheiro da OAB/BA e ocupou cargos importantes na administração pública.
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