segunda-feira, 29 de junho de 2026

G1

 

Por Martin Fritz — Tóquio

 

O imperador japonês Naruhito (à esq.) não teve filhos homens (Arquivo). — Foto: Pool for Yomiuri/AP Photo/picture alliance via DW

O imperador japonês Naruhito (à esq.) não teve filhos homens (Arquivo). — Foto: Pool for Yomiuri/AP Photo/picture alliance via DW

A família imperial do Japão se vê diante de uma encruzilhada: consciente da atual escassez de herdeiros masculinos –os únicos legalmente aptos a ocupar o trono–, ela encolhe cada vez mais diante da exclusão automática de princesas da realeza após se casarem. A situação representa um desafio para uma instituição milenar, vista como elemento de coesão nacional, e preocupa políticos há mais de duas décadas.

    Agora, sete partidos, incluindo oposição e governistas, chegaram a um consenso e apresentaram um projeto de mudança na Lei da Casa Imperial, com o objetivo de assegurar um número suficiente de membros na família real. O governo de Sanae Takaichi pretende encaminhar a proposta ao Parlamento em breve para garantir sua aprovação ainda na atual legislatura.

O projeto prevê a inclusão na família imperial de homens adotados, a partir de 15 anos, que sejam descendentes da linhagem paterna de antigas famílias aristocráticas. No Japão, a adoção tradicionalmente assegura a sucessão masculina. Tal solução seria uma vitória para os conservadores, que querem evitar a todo custo uma mulher no Trono do Crisântemo.

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A segunda alteração na lei também vai nessa direção. Ela permite que mulheres da família permaneçam na casa imperial após o casamento, caso assim o desejem. Atualmente, princesas perdem o título ao se casar. Dessa forma, a família imperial poderia cumprir mais facilmente suas funções representativas, como as diversas patronagens de organizações de caridade e outras instituições.

Os partidos, porém, não chegaram a um acordo sobre incluir os cônjuges civis e seus descendentes na casa imperial. Isso poderia abrir caminho para uma sucessão ao trono por descendentes de princesas.

Desde a morte do imperador Showa, em 1989, a família imperial encolheu de 21 para 16 membros. A linha masculina de sucessão direta conta apenas com o príncipe herdeiro Fumihito, de 60 anos, e seu filho de 19 anos, Hisahito. O primeiro é irmão do imperador Naruhito, de 66 anos; o segundo, seu sobrinho. Essa linha sucessória deve ser mantida.

Entre as cinco mulheres solteiras, está Aiko, filha de 24 anos do atual imperador. Muito popular, Aiko, conhecida como princesa Toshi, é considerada a candidata ideal para assumir o trono.

Uma pesquisa realizada em maio pelo jornal Asahi Shimbun mostrou que 72% dos japoneses apoiam uma herdeira feminina ao trono. No entanto, os conservadores japoneses bloquearam essa solução até agora e, com isso, obtiveram apoio multipartidário.

O príncipe herdeiro japonês Akishino é o irmão mais novo do imperador. Ao seu lado está a princesa herdeira Kiko. Atrás do casal aparece sua filha, a princesa Kako. — Foto: Kyodo News/AP Photo/picture alliance via DW

O príncipe herdeiro japonês Akishino é o irmão mais novo do imperador. Ao seu lado está a princesa herdeira Kiko. Atrás do casal aparece sua filha, a princesa Kako. — Foto: Kyodo News/AP Photo/picture alliance via DW

A principal porta-voz é Takaichi, ironicamente, a primeira mulher a comandar o Japão. "O fato histórico de que a continuidade imperial foi transmitida por 126 gerações através dos homens é único no mundo e constitui a fonte da autoridade e da legitimidade do imperador", afirmou a primeira-ministra em abril, durante um congresso do partido governista Partido Liberal Democrata (PLD).

Isao Tokoro, especialista na história do sistema da casa imperial, contextualizou as mudanças legais planejadas no jornal Asahi: "Tenta-se deliberadamente ocultar as verdadeiras intenções, mas os objetivos por trás das mudanças são claramente reconhecíveis, ou seja, manter tudo como é."

Retorno após 80 anos

Os onze ramos da família imperial, com 51 membros na época, perderam seu status aristocrático em 1947, por ordem da força de ocupação americana após a Segunda Guerra Mundial. Atualmente, existem dez homens solteiros na linha masculina desses ramos que poderiam ser considerados candidatos à adoção. Seria um retorno após quase 80 anos em que essas famílias viveram como cidadãos comuns.

O projeto de lei atual exclui que esses ex-aristocratas adotados possam se tornar imperadores, mas deixa em aberto se seus descendentes homens terão direito à sucessão. No entanto, o presidente da Câmara dos Deputados, Eisuke Mori, do PLD, já indicou o rumo da nova regulamentação. "Se nascer um menino, essa criança terá direito ao trono", disse. Pouco depois, voltou atrás sob pressão dos partidos de oposição, pois sua declaração havia ultrapassado o "consenso legislativo".

Risco à aceitação da monarquia

O príncipe Hisahito (centro) celebrou sua maioridade em 6 de setembro de 2025, ao completar 19 anos. — Foto: Kyodo News/AP Photo/picture alliance via DW

O príncipe Hisahito (centro) celebrou sua maioridade em 6 de setembro de 2025, ao completar 19 anos. — Foto: Kyodo News/AP Photo/picture alliance via DW

O intrincado plano pode, no entanto, comprometer a aceitação da monarquia no Japão, caso jovens cidadãos comuns até então desconhecidos sejam repentinamente elevados ao status de príncipes e passem a representar a casa imperial.

Quem parece ver um risco nisso é o imperador Naruhito, que, embora não possa fazer declarações políticas, manifestou-se de forma incomumente direta há duas semanas. Ele espera um "resultado das discussões que encontre compreensão da opinião pública".

Mas não há sinal de compreensão. Até jornais conservadores manifestaram dúvidas sobre a reforma e defenderam flexibilizar a questão de gênero para a sucessão imperial.

No entanto, os conservadores japoneses, que dominam o Parlamento, veem a casa imperial como o símbolo mais forte da estrutura familiar patriarcal tradicional, que querem preservar contra mudanças nas normas sociais, como maior igualdade de gênero. Por isso, também rejeitam o casamento entre pessoas do mesmo sexo e sobrenomes diferentes para casais.

Porém, na família da primeira-ministra conservadora Takaichi, foi o marido quem adotou seu sobrenome. "Há tradições que podem ser alteradas, mas também há aquelas que não devem mudar, e a sucessão exclusivamente masculina e patrilinear é uma delas", afirmou Akira Momochi, professor emérito da Universidade Nihon, em um debate televisivo.

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