PONTO DE VISTA: Guerra
sem solução
Por Luiz Holanda
2 horas e 8 minutos
Não há nenhuma dúvida que a guerra no Irã afeta o mundo. O que se discute no momento são a sua duração e as consequências. Existem duas maneiras de solucioná-la: a primeira seria a via diplomática, mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não a deseja, a menos que o Irã se renda incondicionalmente. A abertura do estreito de Ormuz, passagem de navegação comercial por onde passa cerca de 20% da produção do petróleo mundial, parece resistir a essa pretensão. A outra solução seria o extermínio de uma civilização inteira “para nunca mais ser trazida de volta”, conforme o desejo de Trump. Nervoso por ter sido influenciado por Benjamin Netanyahu, que o convenceu a invadir o Irã juntamente com Israel sem objetivo aparente, ambos imaginavam uma rápida queda do regime dos aiatolás, mas essa aposta não se concretizou.
A consequência imediata foi o abalo na economia mundial com o aumento do barril do petróleo Brent, que era negociado por cerca de 70 dólares no fim do ano passado. O barril passou para mais de 111 dólares logo no início do conflito. Internamente, a alta dos combustíveis fez a aprovação de Trump despencar para menos de 40%, segundo o agregador de pesquisas Silver Bulletin, em 26 de março. Hoje é maior. Do ponto de vista geopolítico, Trump iniciou uma guerra que talvez não consiga vencer, e que lhe trará sérias consequências políticas. A maioria dos analistas não consegue entender o plano estratégico de Trump, já que, pelos altos e baixos dos seus pronunciamentos, tudo indica que não há nenhum. As justificativas dadas para a guerra continuam mudando, conforme os acontecimentos.
O estreito de Ormuz, situado entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, separando o Irã (ao norte) da Península Arábica (ao sul), deu uma vantagem ao Irã sobre toda a máquina de guerra israelense e americana. Trump imaginava que o sucesso da operação na Venezuela, na qual forças especiais americanas capturaram o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, fosse se repetir. Tampouco imaginava que o fechamento do estreito de Ormuz, que se mantém há mais de um mês, desencadeasse repercussões nos preços mundiais do petróleo e do gás. Segundo Adriana Carranca, coautora do livro “O Irã sob o Chador”, foi um erro supor que a maioria dos iranianos, que têm enfrentado a brutalidade do regime em protestos crescentes, apoiaria um ataque unilateral dos EUA e de Israel contra seu país. Foi um “engano que ignora a história do país”. Mesmo não apoiando o regime, os iranianos “não confiam em Israel nem nos Estados Unidos”. Essa também é a visão da ativista feminista iraniana Parvin Ardalan, que, numa entrevista, afirmou que o povo do Irá não concorda com a guerra, mas “Não queremos a volta da monarquia nem outra forma de ditadura. A situação atual é muito difícil porque, de um lado, somos contra os interesses geopolíticos dos Estados Unidos e de Israel, que tentam usar o povo para seus próprios interesses. Por outro lado, enfrentamos a ditadura no Irã, que há muito oprime, mata e reprime a população. Encontrar uma solução é extremamente difícil, mas precisamos nos posicionar contra essa forma de dominação vinda de ambos os lados”.
Os danos da guerra não são apenas políticos e econômicos. Além da tragédia humana com a perda de vidas, trouxe consequências ambientais muito sérias, como a contaminação do solo, da água, chuva ácida e efeito estufa, com consequência devastadoras para a economia mundial e para a estabilidade internacional. Renomados autores entendem que a continuidade dessa escalada sob o comando de Trump e de Netanyahu certamente levará a uma guerra regional que se transformará em um conflito mundial. Independente disso, a falta de fertilizantes nitrogenados, utilizados para produzir a metade dos alimentos disponíveis no mundo, vai afetar a economia global. A guerra também está impactando a cadeia de suprimentos de medicamentos e produtos farmacêuticos.
A indústria farmacêutica da Índia, a maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos, que produz 60% das vacinas do mundo, foi afetada com o bombardeio do aeroporto de Dubai pelo Irã, importante centro de distribuição, de acordo com dados do Departamento de Comércio da Índia. Aliados alertaram que seria um grave risco entrar em guerra contra o Irã. Trump entrou, mas não sabe como sair. Foi na onda de Netanyahu, que é devotado ao princípio da sobrevivência a qualquer custo. Trump não aprendeu a lição de Sun Tzu, que, no livro “A arte da guerra”, ensina que nem sempre o confronto direto será a solução mais inteligente a ser tomada. É preciso encontrar outras formas de lidar com um problema sem que isso seja a força bruta, usando sua mente, explorando possibilidades e aprendendo a sair por cima de forma digna e criativa, pois, “A suprema arte da guerra é derrotar o inimigo sem lutar”.
Luiz Holanda é advogado e professor universitário.
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