quarta-feira, 13 de maio de 2026

BBC

 

Como ditadura teria assassinado Juscelino Kubitschek, segundo comissão

Kubitschek na construção de Brasília.

Crédito,Arquivo Nacional

Legenda da foto,Certidãod e óbito do ex-presidente pode ser retificada após nova conclusão da Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
    • Author,Edison Veiga
    • Role,De Bled (Eslovênia) para a BBC News Brasil
  • Published
  • Tempo de leitura: 10 min

Às vésperas do cinquentenário da morte de Juscelino Kubitschek (1902-1976), um documento pode finalmente dar destino aos mistérios que sempre rondaram a morte do ex-presidente.

Um relatório elaborado pela Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) chegou a uma conclusão com potencial para se tornar "a mais importante ação ilegal perpetrada pela ditadura".

Com 5 mil páginas, o documento deve confirmar que o acidente sofrido por Kubitschek a bordo de um Opala na rodovia Presidente Dutra teria sido, na verdade, um assassinato, planejado e executado por agentes do regime ditatorial que comandava o país desde o golpe de 1964.

A revelação é a principal conclusão do documento elaborado pela CEMDP, instituição vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, após análises realizadas nos últimos dois anos. E foi divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo na sexta-feira (8/5) e confirmada pela BBC News Brasil.

O teor do relatório, que ainda precisa ser aprovado em uma reunião a ser agendada em breve pela CEMDP, dá uma nova dimensão à violência com que o regime de exceção tratava seus opositores no período. "Um ex-presidente assassinado não é pouca coisa. Ele se tornaria a vítima mais célebre da ditadura", diz o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, professor na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ex-presidente da Associação Nacional de História (ANPUH) e autor de, entre outros livros, Passados Presentes: O Golpe de 1964 e a Ditadura Militar (Zahar). "Não há precedente nem paralelo na História do Brasil."

Conforme a reportagem apurou, caso o relatório da CEMDP seja aprovado, o passo seguinte deve ser a retificação da certidão de óbito do ex-presidente, a exemplo do que já ocorreu com outras figuras notáveis que, nos últimos anos, tiveram suas mortes confirmadas como execuções causadas pelo Estado brasileiro, casos da estilista Zuzu Angel (1921-1976) e do engenheiro e político Rubens Paiva (1928-1971).

Além do peso simbólico e institucional representado pelo assassinato de um ex-chefe de Estado, historiadores avaliam que há duas características a serem observadas sobre o provável assassinato de Kubitschek. Em primeiro lugar, o fato de que ele não era um militante de esquerda, muito menos um extremista — contrariando, portanto, a narrativa de que a ditadura só teria sido letal contra seus mais violentos detratores.

Nenhum comentário:

Postar um comentário