Crise entre Tarcísio e Kassab coloca PSD fora da chapa em São Paulo

Kassab ficou para trás na corrida para ser vice de Tarcísio
Samuel Lima
O Globo
Os recentes atritos públicos entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o presidente do PSD, Gilberto Kassab, aprofundaram as dúvidas sobre o papel do partido na chapa à reeleição estadual. O diagnóstico entre aliados é que Kassab ficou para trás na corrida para ser vice de Tarcísio, posto que hoje é de Felício Ramuth, também do PSD.
Visto até então como favorito a seguir na chapa, Ramuth sofreu um abalo com a revelação de que é investigado, no exterior, por suposta lavagem de dinheiro, o que ele nega. O PSD de Kassab foi um dos principais fiadores da campanha de Tarcísio em 2022. Além de filiar o vice de Tarcísio, o dirigente foi alçado ao posto de secretário de Governo, uma espécie de braço-direito do governador.
DESGASTES – A relação entre Tarcísio e Kassab, que vinha tendo desgastes devido à leitura de que o dirigente cumpria “agenda própria” no governo para expandir o próprio partido, piorou no início deste ano. No mesmo dia de uma visita de Tarcísio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão, Kassab afirmou que “gratidão é uma coisa, outra coisa é submissão”.
O governador declarou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, enquanto Kassab, que já estimulou o próprio Tarcísio a concorrer, vem formando no PSD uma espécie de “terceira via” alternativa ao bolsonarismo e ao presidente Lula (PT).
Tarcísio rebateu a declaração de Kassab com uma indireta: disse que “as pessoas, às vezes, querem rotular lealdade como submissão”, e alfinetou o raciocínio. “Infelizmente, amizade e lealdade na política viraram atributos raros. As pessoas agem por interesse próprio, deixam de ter o pé no chão”, declarou.
TRÉPLICA – Na última sexta-feira, Kassab divulgou nas redes sociais uma mensagem que foi entendida como tréplica a Tarcísio. Além de reafirmar que o PSD terá candidatura presidencial, citou ter feito “bons amigos e conselheiros na política”. Ao citar Tarcísio e outros candidatos que apoiou no passado, disse ter acertado nas disputas eleitorais que venceu, e pontuou que “não foram poucas”.
As falas de Kassab circularam nos gabinetes da administração estadual como um “desabafo” do dirigente do PSD com os rumos eleitorais de Tarcísio, mas também como um exemplo de “fogo amigo”. Não à toa, o dirigente depois afirmou, nas redes sociais, que não considerava Tarcísio submisso, e que seu comentário havia sido distorcido por “incompreensão textual ou má-fé”.
NOVA CRISE – Ramuth, por sua vez, vem trabalhando para seguir como vice de Tarcísio em meio à possibilidade de mudança de partido. O atual vice-governador tem dito a interlocutores que prefere seguir no PSD, mas pode ser obrigado a trocar de legenda caso Kassab crie obstáculos. Dessa forma, Kassab pode se deparar com o dilema de ceder o posto a Ramuth ou vê-lo assumir o posto em outro partido, como o MDB. O prazo para troca de legenda termina em 4 de abril.
A situação do atual vice-governador foi abalada por uma nova crise nos últimos dias. Como noticiado pelo O Globo, Ramuth e sua esposa, Vanessa, são investigados em Andorra, um paraíso fiscal europeu, por suspeita de lavagem de dinheiro. O tribunal local bloqueou US$ 1,4 milhão (R$ 7,2 milhões na cotação atual) de uma conta atribuída ao casal. O vice de Tarcísio alega que os valores são lícitos e declarados à Receita Federal brasileira.
ALTERNATIVA – Caso o desgaste do vice-governador se aprofunde, outra possibilidade para compor a chapa de Tarcísio é o deputado estadual André do Prado (PL), presidente da Assembleia Legislativa do Estado (Alesp). O Globo apurou que um grupo de parlamentares prepara uma carta aberta de apoio a ele.
“Passado o momento das filiações, e o que cada um vai definir de projeto em nível nacional, vamos ter a escolha do vice. Sempre, claro, respeitando o outro, para a gente não se dividir e continuarmos remando para um lado só, o da reeleição do governador Tarcísio”, desconversou Prado.
Conta a favor de Prado o fato de ter trabalhado para aprovar os principais projetos enviados pelo Executivo, como a desestatização da Sabesp. Além disso, o PL tem uma bancada com 19 deputados. Tarcísio, porém, pretende abrir espaço para outras siglas aliadas reivindicarem a vaga de vice.
DESCONTENTAMENTO – Devido ao descontentamento de Tarcísio com a postura de Kassab, o governador já havia mudado sua articulação política no início deste ano, conforme a leitura de políticos com trânsito no Palácio dos Bandeirantes.
Na Casa Civil estadual, Tarcísio substituiu Arthur Lima pelo presidente do Republicanos no estado, Roberto Carneiro. Nos bastidores, a nomeação de Carneiro é vista como um recado direto de que ele, e não Kassab, comandará a articulação no ano eleitoral. Procurados pela reportagem, Carneiro e Lima não retornaram os contatos.
Possibilidade de delação de Vorcaro cresce com o escândalo dos bacanais
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Delação premiada é a única alternativa para Daniel Vorcaro
Carlos Newton
O pedido ao Tribunal de Contas da União para que mande a Polícia Federal investigar os bacanais organizados pelo banqueiro Daniel Vorcaro em Trancoso, região paradisíaca do Sul da Bahia, muda inteiramente de feição o chamado caso do banco Master. Não se trata mais de uma simples maracutaia financeira, mas de um escândalo político da maior gravidade, envolvendo importantes figuras da República em ambientes de sexo, drogas e rock and roll.
Torna-se explícita a estratégica adotada pelo banqueiro, para se proteger da lei e da ordem. Ele se comportava com uma desenvoltura tamanha, que somente poderia haver duas explicações – ou estava com seu equilíbrio mental afetado ou tinha controle sobre importantes autoridades dos três Poderes, a ponto de se julgar totalmente impune.
MAIS VAZAMENTOS – Para desespero dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, do Supremo, os vazamentos não cessam. Pelo contrário, aumentaram em profusão, devido à quebra da criptografia que blindava o principal celular de Vorcaro, e agora não há como sufocar o escândalo, ao contrário do que ocorreu no episódio anterior, a Lava Jato.
Naquela época, o então senador Romero Jucá, um dos líderes do chamado Quadrilhão do MDB, a mais forte e inatingível facção do crime organizado do país, ensinou como destruir a Lava Jato e “estancar essa sangria, por meio de um acordo com o Supremo, com tudo”…
Agora, não será possível repetir a exitosa estratégia, porque desta vez um dos principais envolvidos na corrupção é o próprio Supremo, cuja resposta corporativista tem sido blindar os denunciados Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, ao invés de puni-los por enlamear a imagem da Suprema Corte. É evidente que isso não vai dar certo.
VÍDEOS REVELADORES – Durante o ano eleitoral, a atenção continuará concentrada nos escândalos do grupo Master. São devastadoras as notícias de que existem vídeos clandestinos que Vorcaro mandou gravar nos bacanais, para garantir o apoio dessas festivas autoridades que ele convidava.
Se realmente existem esses vídeos no celular que Vorcaro julgava ser “blindado” pela criptografia, logo saberemos quem são os amigos do banqueiro, que somente convidava políticos e autoridades de grande influência, para desfrutar do apoio deles no futuro.
O novo relator, ministro André Mendonça, que substituiu o trêfego Dias Toffoli, sabe que o caso Master é sua grande oportunidade de se tornar um jurista respeitado. Portanto, saberá usar a lei com seu devido rigor.
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P.S. – Diante dessa realidade altamente adversa, o banqueiro/estelionatário Daniel Vorcaro não tem saída e será obrigado a requerer uma delação premiada, que vai abalar as estruturas da República em pleno ano eleitoral. Por isso a pipoca vai substituir o feijão como principal alimento dos brasileiros. (C.N.)
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