Mídia: China ganha espaço no Golfo com possível acordo de JF‑17 entre Arábia Saudita e Paquistão
06:15 12.01.2026 (atualizado: 06:39 12.01.2026)
A possível conversão de dívidas sauditas em caças JF‑17 paquistaneses, equipados com tecnologia chinesa, reacende disputas geopolíticas no Golfo e pressiona os EUA, enquanto Riad testa alternativas militares fora do eixo ocidental e amplia seu poder de barganha por sistemas avançados como o F‑35, escreve o South China Morning Post.
Apesar da potencial vitória estratégica para Pequim no Golfo, ainda persistem dúvidas sobre a concretização do negócio, já que o JF‑17 contrasta com a frota saudita, tradicionalmente equipada com aeronaves ocidentais de ponta.
O Paquistão e a Arábia Saudita estão negociando a conversão de cerca de US$ 2 bilhões (R$ 10,8 bilhões) em empréstimos sauditas na compra de caças JF-17 Block 3 de produção chinesa, fortalecendo seus laços militares após o pacto de defesa mútua firmado no ano passado.
Nesse contexto, a revista Military Watch aponta que enquanto o caça norte-americano F-15SA tem altos custos operacionais, o JF-17 Block 3 da China está entre os mais fáceis de manter no mundo.
Apesar de relatos indianos de que um JF‑17 teria sido abatido em combate, Islamabad negou e afirmou que a aeronave destruiu um sistema S‑400 indiano — alegação rejeitada por Nova Deli.
Para analistas ouvidos pelo South China Morning Post, como Liselotte Odgaard, uma eventual compra saudita representaria uma validação significativa da tecnologia chinesa e ampliaria a influência de Pequim no Oriente Médio.
O acordo também testaria a capacidade da China de penetrar mercados tradicionalmente dominados pelos EUA, abrindo portas para futuras vendas de drones, sistemas de defesa antiaérea e plataformas navais chinesas na região. A aproximação ocorre após um pacto de defesa mútua entre Riad e Islamabad, firmado em meio a tensões regionais após ataques israelenses a Doha.
Jagannath Panda, especialista em assuntos do Indo‑Pacífico, que também falou à mídia asiática, avalia que o interesse saudita no JF‑17 tem menos a ver com receita e mais com sinalização estratégica.
Para ele, a China busca mostrar que suas plataformas podem operar em ambientes de segurança historicamente ancorados nos EUA, embora Pequim deva agir com cautela para não antagonizar Washington. O Paquistão, nesse contexto, funcionaria como intermediário, permitindo à China expandir sua presença sem assumir custos políticos diretos.
Ainda assim, há ceticismo sobre a viabilidade do acordo, já que a Força Aérea Real saudita opera apenas caças ocidentais avançados, como F‑15 e Eurofighter. Especialistas como Richard Aboulafia consideram improvável que Riad adote o JF‑17, classificado como menos eficaz que seus equivalentes ocidentais. Mesmo assim, o simples fato de o negócio estar em discussão já altera, ainda que discretamente, a dinâmica do mercado de armas no Oriente Médio.
A China, segundo Panda, parece posicionada para ocupar um espaço intermediário no mercado regional, oferecendo sistemas mais acessíveis e adaptáveis que podem reduzir a dependência dos países do Golfo das condicionalidades políticas ocidentais.
Para esses Estados, testar equipamentos chineses sem compromissos profundos com Pequim representa uma forma de diversificação estratégica. Para a China, o retorno seria gradual, com maior presença logística e integração de padrões tecnológicos chineses.
O debate sobre o JF‑17 surge em paralelo às discussões sobre a venda de F‑35 à Arábia Saudita, aprovada por Donald Trump, mas ainda sujeita à revisão do Congresso dos EUA. A legislação norte-americana exige que Israel mantenha superioridade militar qualitativa, o que torna o acordo sensível. A crescente cooperação militar entre países do Golfo e a China já havia levado Washington a bloquear uma venda semelhante aos Emirados Árabes Unidos em 2021.
Ainda segundo analistas que falaram ao jornal, o interesse saudita no JF‑17 pode fortalecer sua posição de negociação com Washington, pressionando por melhores condições no acordo do F‑35, uma vez que a simples abertura saudita a tecnologias chinesas reforça temores norte-americanos sobre vazamento de tecnologia e alinhamento estratégico.



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