'Arranjos regionais' e 'reconhecimentos seletivos': afinal, o que Israel quer da Somalilândia?
19:04 23.01.2026 (atualizado: 21:06 23.01.2026)

© AP Photo / Farah Abdi Warsameh
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Neste episódio do Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, vamos discutir os efeitos do reconhecimento de Israel da Somalilândia, seus interesses pela região do Chifre da África e qual seria o papel da União Africana para essas ações unilaterais.
Em 26 de dezembro de 2025, Israel foi o primeiro país a reconhecer formalmente a República da Somalilândia como um Estado independente e soberano. Essa ação por parte de Tel Aviv provocou tensões na região do Chifre da África e até mesmo entre outros países africano.
A Somalilândia, região no norte da Somália, declarou independência em 1991, colocando em xeque sua permanência no Estado somali diante de sucessivas crises de instabilidade política e institucional.
Apesar ter seu próprio governo, moeda e Forças Armadas, a autoproclamada nação não tinha conseguido reconhecimento internacional até o final do ano passado. A Etiópia tinha anunciado que reconheceria a região, mas voltou atrás por pressões internacionais.
Neste episódio de sexta-feira (23) do Mundioka, o podcast da Sputnik Brasil, vamos analisar como a Somalilândia se insere nos interesses estratégicos e geopolíticos de Israel e de que forma um eventual reconhecimento coloca em risco não apenas a soberania da Somália, mas também a de outros países africanos, além de desafiar o papel de organismos internacionais como a União Africana.
Segundo Rafaela Serpa, editora assistente da Revista Brasileira de Estudos africanos e pesquisadora pós-doutoranda do Centro Brasileiro de Estudos Africanos (Cebrafrica) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o reconhecimento de Israel se destaca por vir de uma potência regional em uma época de multipolaridade instável.
Ao seu ver, a decadência de poder dos Estados Unidos não só deu espaço para outras grandes potências no mundo como Rússia e China, mas, principalmente, para potências regionais – neste caso, um país nuclear como Israel, fragmentarem ainda mais a governança internacional.
"Há uma proliferação de arranjos regionais, de colisões, com muito da ideia 'inimigo do meu inimigo é meu amigo'."
No caso da Somalilândia, a pesquisadora aponta a importância geográfica da região como fundamental para que Israel reconhecesse a nação. O autodeclarado país fica bem no estreito de Bab el-Mandeb, que dá acesso ao mar Vermelho.
Sobretudo, o alinhamento da Somalilândia com o Ocidente, especialmente com os Estados Unidos, dá mais peso ao reconhecimento de Israel. "A Somalilândia seria o segundo país, entre aspas, na África que reconhece Taiwan [...] Essa decisão de Israel está dentro dessas suas alianças de expandir para outros, de se aproximar mais dos Estados Unidos."
Por outro lado, o que Israel também quer, segundo a pesquisadora, é conter as influências do Irã, principal rival do país israelense, e da Turquia. Além de possuir bases e estaleiros na Somália, Ancara possui exclusividade de prospecção de petróleo e pesquisa marítima.
"O Paquistão, também no final de 2025, fez uma aliança militar com a Somália e o país também é um aliado turco. Então, aparece um pouco como presença maior de Israel frente a esses seus rivais, frente a esses possíveis adversários regionais do país."
Para Alexandre dos Santos, professor de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o reconhecimento da Somalilândia traz mais tensões para uma região marcada por guerras civis e emergências humanitárias, citando o próprio conflito na Somália, na Etiópia e a guerra no Sudão. Segundo ele, a chegada de mais uma Força Armada no Chifre da África pode não ser benéfico para os países africanos, mas enfraquecer ainda mais a posição da Somalilândia.
Para o especialista, o fato de Israel reconhecer um país africano, mas não reconhecer o Estado da Palestina cria um precedente de "reconhecimento seletivo", marcado por interesses territoriais e mancha sua imagem com as nações islâmicas em seu ao redor, inclusive aqueles que assinaram os Acordos de Abraão.
"A questão aqui que é, para o direito internacional, para reconhecer a Somalilândia, você precisa unificar a Somália primeiro. Toda. Estabilizar e unificar a Somália e implementar um referendo lá na Somalilândia para que os somalilândios decidam se realmente querem ficar independentes ou não", pontua Santos.
Contudo, como a nação já possui seu próprio governo e meios de se defender, talvez isso crie uma exceção jurídica para o reconhecimento somalilandês, o que o professor acredita que Israel ajudou com suas ações.
"O reconhecimento de Israel dá dois tiros: primeiro é forçar o reconhecimento da Somalilândia pela comunidade internacional. E o segundo dificultar ainda mais o reconhecimento somali da Somalilândia, porque dificulta a reunificação da Somália para que se faça o referendo para que os somalilândios decidam se eles querem se tornar independentes ou não."
De qualquer maneira, a região continua fragmentada e entidades como a União Africana ficam constrangidas por ações unilaterais. Alexandre dos Santos ressalta, porém, que a questão é um assunto interno da Somália para resolver, seja por uma resolução pacífica ou uma unificação do país e um referendo depois.


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