sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Os Ratos

Os ratos Luiz Holanda Dyonélio Machado, um dos principais expoentes da segunda geração do Modernismo no Brasil publicou, em 1935, um livro intitulado “Os Ratos”. Nele o autor conta a história de um pobre e ingênuo trabalhador que perambula pelas ruas de sua cidade atrás de dinheiro para saldar uma dívida. Durante essa peregrinação, que dura exatas 24 horas, o romancista descreve as angústias, esperanças e desilusões do personagem para obter o dinheiro. Toda a trama se desenrola na figura desse pobre barnabé, Naziazeno, que dispõe apenas de um dia para saldar um débito com o leiteiro, que ameaça cortar o fornecimento do leite se não receber o que lhe é devido. Naziazeno consegue, depois de muita luta e humilhações, um empréstimo em dinheiro, garantido pelo penhor de uma jóia pertencente a um amigo. Exausto e abalado pelas mágoas e decepções sofridas para obter o empréstimo, resolve descansar. De repente, sente-se sonhando acordado. Suando frio no seu devaneio alucinante, imagina uma legião de ratos roendo o seu dinheiro, já sentindo as inquietações que terá ao amanhecer quando se deparará com as mesmas preocupações, dúvidas e dívidas que lhe farão iniciar outra caminhada. A obra é um romance social que reflete o drama urbano de um homem de classe média baixa lutando pela sobrevivência -vivendo em uma cidade grande e insensível-, sempre necessitando de dinheiro para saldar suas dívidas. Mistura-se a essa luta o desespero e a sensação de inutilidade do ser humano que não tem recursos para garantir, com um mínimo de dignidade, algum sustento para a sua família. No seu delírio, Naziazeno sente que os ratos, depois de roerem o dinheiro, resolvem roer a madeira. Faz-se um barulho danado; logo em seguida, um preocupante silêncio. Cansado e exausto, necessita dormir. De repente, já quase manhã, pressente que o leiteiro abre a porta de sua casa e despeja o leite em uma vasiha. Ao sair, sequer se ouve o portão bater. Nesse momento, Naziazeno volta a dormir, dessa vez de olhos fechados. A conclusão que se tira do romance –além da referência psicológica do personagem, do drama social de gente da classe média e a desvalorização da solidariedade-, é que os ratos gostam de dinheiro. E esse gosto passou para alguns políticos, empresários, donos de partido, funcionários públicos e outros agentes. Aprenderam com os ratos de Dyonélio a roer o dinheiro público. Também passaram a ser personagens de livros, jornais e revistas. Além do que já foi publicado, a imprensa divulgou recentemente que peritos da Polícia Federal descobriram como se assaltam os cofres públicos sem deixar rastros e ao abrigo da lei. Em diversas investigações flagraram empresários, políticos e executivos falando sobre como desviar o dinheiro da nação, pagar proprinas e praticar outras fraudes por meio de caixa dois. Depois de anos de análise minuciosa dos contratos públicos, levantamento de notas fiscais e exames de documentos contábeis, esses peritos descobriram que a maneira mais fácil de se roer o dinheiro público é por meio do “superfaturamento oculto” dos contratos celebrados com o governo. Essa descoberta foi feita após uma detalhada análise das licitações que minam e corroem os cofres da nação. Os preços cobrados acima dos existentes no mercado tornaram-se uma constante depois que uma certa casta poítica assumiu o poder. Estão tirando o atraso de uma ausência de vinte anos. Nunca se viu, na história deste país, tamanha corrupção. Até nas tabelas oficiais os preços são superiores aos praticados pelo mercado. Existem obras que aumentaram, em apenas um ano, 128%, fora os reajustes de praxe, tudo em nome da solidariedade entre os ratos. Esses roedores se encastelaram em todos os órgãos e poderes da República, inclusive no Judiciário, conforme denúncias enviadas ao Conselho Nacional de Justiça-CNJ. Essas denúncias apontam corrupção, venda de sentenças, assédio sexual e ineficiências de juizes e magistrados integrantes dos tribunais. Em 2008, o Globo publicou que 1.696 denúncias contra magistrados chegaram à corregedoria do CNJ. Até hoje poucos foram punidos. A capa da revista Veja do dia 8 deste mës é bastante elucidativa; o rato virou o símbolo do Brasil.

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