segunda-feira, 25 de maio de 2026

 

A corrupção “invisível” que desafia o Brasil é fruto da total impunidade

A corrupção passou a integrar a disputa pública

Marcelo Copelli
Revista Veja  

A corrupção brasileira já não se deixa capturar, em sua forma predominante, por escândalos visíveis ou personagens constrangidos pela evidência. Essa referência, ainda dominante no imaginário político, tornou-se insuficiente para descrever o fenômeno como ele de fato opera.

O que se consolidou nas últimas décadas foi uma forma mais sofisticada de distorção do interesse público, menos dependente da violação explícita da lei e mais estruturada na apropriação das próprias engrenagens institucionais.

PRÁTICAS ILÍCITAS – Isso não significa que a corrupção visível tenha desaparecido. Casos investigados por órgãos de controle continuam a revelar práticas ilícitas relevantes e demonstram que as instituições mantêm capacidade de resposta.

Esses episódios, no entanto, tendem a representar a dimensão mais evidente — e não necessariamente a mais estruturante — do problema. A capacidade de investigação permanece central, mas incide com maior precisão sobre manifestações mais explícitas, enquanto formas mais complexas e adaptadas seguem integradas ao funcionamento institucional.

Não se trata apenas de desviar recursos, mas de orientar decisões, fluxos e prioridades de modo a produzir resultados sistematicamente desalinhados do interesse coletivo, sem a necessidade de um marco inequívoco de ilegalidade. Nesse estágio, a corrupção deixa de ser exceção e passa a operar como método, incorporada à dinâmica do próprio sistema.

CORRUPÇÃO – Essa transformação decorre de um ambiente institucional que se expandiu em normas, controles e procedimentos, mas não avançou na mesma proporção na capacidade de tornar o Estado inteligível. O Brasil consolidou instrumentos relevantes de fiscalização, ampliou mecanismos de transparência e sofisticou o monitoramento de gastos públicos. Ainda assim, a percepção de corrupção permanece elevada de forma persistente.

A explicação de que esse descompasso decorre apenas da subjetividade dos indicadores é insuficiente. Quando a confiança não acompanha a evolução institucional, a questão não está apenas na forma de medir, mas na consistência do que é entregue em termos de integridade e previsibilidade.

A corrupção contemporânea encontrou na complexidade administrativa um ambiente propício. Já não depende de decisões abertamente ilegais, mas de arranjos que exploram lacunas normativas, sobreposições de competência e margens interpretativas amplas. Decisões formalmente sustentáveis podem produzir efeitos direcionados sem violar regras de forma direta.

PADRÃO DIFUSO – O desvio deixa de ser um evento isolado e passa a se manifestar como padrão difuso, incorporado a rotinas administrativas que, analisadas individualmente, não evidenciam irregularidade, mas que, em conjunto, revelam distorções consistentes. A ilegalidade deixa de ser o único parâmetro relevante; a integridade do processo passa a definir a qualidade das decisões públicas.

Nesse ambiente, a opacidade não se limita a uma disfunção — ela assume papel estrutural. A expansão do volume de dados não foi acompanhada por integração e organização compatíveis, o que compromete sua utilidade analítica. Informações são disponibilizadas, mas permanecem fragmentadas, dispersas e de difícil interpretação, reduzindo a transparência a um atributo formal, sem conversão efetiva em capacidade de controle.

O sistema aparenta abertura, mas sua rastreabilidade depende de elevada capacidade técnica, integração manual de dados e tempo de análise — condições que restringem seu uso efetivo e limitam o controle contínuo. A dificuldade não está na ausência de informação, mas na forma como ela se apresenta. Sem estrutura, dados não produzem compreensão.

DISPUTA PÚBLICA – A dimensão política intensifica esse quadro. A corrupção deixou de ser tratada predominantemente como falha institucional e passou a integrar a disputa pública. Denúncias são mobilizadas conforme interesses circunstanciais, enquanto sua validação frequentemente se subordina ao alinhamento político.

Esse processo compromete a precisão do conceito. Quando o termo se torna elástico, perde capacidade de diferenciar situações e orientar respostas consistentes. O debate se afasta da evidência e se aproxima da interpretação. O efeito mais profundo é a deterioração da confiança institucional. A dificuldade de distinguir entre decisões legítimas e distorções de interesse reduz a previsibilidade do ambiente público e eleva o custo de coordenação estatal. A desconfiança, nesse cenário, deixa de ser instrumento de vigilância e passa a atuar como fator de instabilidade.

Processos decisórios se tornam mais lentos, escolhas administrativas mais defensivas e a execução de políticas públicas perde eficiência. O sistema opera sob tensão permanente, sem que isso se traduza em maior controle.

MECANISMOS DE CONTROLE – O Brasil enfrenta, portanto, um problema que vai além da corrupção em sentido estrito. Trata-se de uma acomodação estrutural a um modelo em que a ambiguidade se torna funcional. A manutenção de zonas de baixa clareza preserva mecanismos formais de controle, mas também evita maior exposição de práticas recorrentes.

Nesse ambiente, o combate tende a se concentrar no que é mais visível, enquanto padrões mais sofisticados permanecem protegidos pela própria complexidade que os sustenta. Superar esse quadro exige mais do que ajustes incrementais. Implica reorganizar a forma como o Estado estrutura e integra suas informações, permitindo análise contínua e identificação de padrões. Transparência, nesse contexto, não pode ser apenas exposição de dados; precisa ser capacidade de explicação.

LEGALIDADE APARENTE – A corrupção que mais compromete o país hoje não é a que se impõe pela evidência imediata, mas a que se sustenta na dificuldade de ser plenamente compreendida. Opera dentro da legalidade aparente, molda decisões e produz efeitos cumulativos sem exigir ruptura explícita.

Enquanto essa dimensão permanecer fora do centro do debate, o país continuará enfrentando apenas a parte visível do problema — e chamando de combate aquilo que, na prática, permite sua continuidade.

Sputnik

 

Ex-ministro da Justiça diz que crise de Flávio Bolsonaro é 'escândalo' e pode levar à cassação

José Eduardo Cardozo na Comissão de Impeachment para debater o relatório apresentado pelo Senador Antonio Anastasia - Sputnik Brasil, 1920, 24.05.2026
A crise envolvendo Flávio Bolsonaro, ligada a repasses de Daniel Vorcaro e ao financiamento de um filme, "atingiu a candidatura no coração", diz José Eduardo Cardozo. Para o ex‑ministro, as contradições do senador e suspeitas financeiras podem levar à cassação e abalar a direita radical brasileira.
O ex‑ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff José Eduardo Cardozo afirmou que a crise envolvendo Flávio Bolsonaro após denúncias sobre repasses ligados a Daniel Vorcaro representa um "golpe duro" na possível candidatura presidencial do senador do Partido Liberal (PL) pelo Rio de Janeiro.

Em entrevista à mídia brasileira, ele classificou o caso como "escandaloso" e disse que pode desencadear uma ruptura na direita radical.

Segundo Cardozo, os efeitos eleitorais já são visíveis e tendem a se intensificar. "A candidatura de Flávio Bolsonaro já foi atingida no coração antes mesmo da largada", declarou, apontando que o avanço das investigações deve aprofundar o desgaste da imagem do senador.
O ex‑ministro destacou as contradições de Flávio sobre sua relação com Vorcaro, lembrando que o senador negou proximidade antes de admitir encontros e tratativas financeiras. "Ele mente sucessivamente tentando encobrir uma realidade", afirmou. Para Cardozo, isso configura falta de decoro e pode justificar cassação.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) durante reunião deliberativa da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) da Casa alta, em 20 de maio de 2026 - Sputnik Brasil, 1920, 21.05.2026
Notícias do Brasil
Ciro Nogueira diz que Flávio Bolsonaro deve ser investigado no caso Master e cobra apuração 'isenta'
Ele comparou o episódio ao caso Eduardo Cunha, cassado por mentir ao parlamento, e disse que o impacto político e ético pode ser semelhante. Cardozo também levantou suspeitas sobre a origem dos recursos do filme ligado ao clã Bolsonaro, afirmando: "Isso parece muito mais uma estrutura de arrecadação de recursos do que uma produção cinematográfica".

O ex‑ministro apontou possíveis crimes financeiros, evasão de divisas e lavagem de dinheiro, defendendo bloqueio de bens e aprofundamento das investigações internacionais. "Muita água ainda vai rolar. E tenho a sensação de que muita gente pode morrer afogada nesse processo", disse.

Cardozo avaliou que a crise já provoca movimentações na direita, com nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) surgindo como alternativas. Ele ironizou ainda a presença de Sergio Moro (União Brasil) ao lado de Flávio: "A expressão do Moro era histórica. Parecia alguém percebendo que o barco estava afundando".
Apesar de criticar vazamentos seletivos, Cardozo defendeu rigor nas apurações e respeito ao Estado de Direito.

"É um escândalo de proporções enormes. E a impressão é que estamos apenas no começo."

Por fim, o ex-ministro também comentou debates no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre projetos ligados aos condenados de 8 de Janeiro, afirmando que mudanças que reduzam penas podem ser inconstitucionais.

 Sociedade

A sociedade entre os protagonistas dos dois maiores escândalos de corrupção do país: Odebrecht e Vorcaro

Um relação de sociedade entre o Grupo Odebrecht e o banqueiro Daniel Vorcaro vem à tona em matéria publicada pelo jornalista Demétrio Vecchioli no site Metrópoles. Empreendimentos imobiliários em São Paulo unem as duas partes. Diz o texto:

“Seis empreendimentos imobiliários recentes em São Paulo unem os dois maiores escândalos recentes de corrupção do país. Eles são sociedades entre a Novonor – novo nome que a a Odebrecht escolheu para limpar sua imagem depois ser pivô da Lava Jato – e fundos atribuídos a Daniel Vorcaro.
Um desses empreendimentos ficou pronto há menos de um mês, com 21 apartamentos de luxo, e outros três estão em fase de comercialização de 555 apartamentos e 70 unidades não residenciais. Mais dois já foram anunciados, mas não foram lançados. Todos são impactados por bloqueios judiciais impostos pela 3ª Vara de Falências de São Paulo aos bens do antigo controlador do Banco Master, agora preso.
Os empreendimentos pertencem a cinco incorporadoras que pelo lado da Odebrecht têm como sócia a Orion Empreendimentos (que herdou o legado de ativos da antiga Odebrecht Realizações Imobiliárias) e, pelo lado de Vorcaro, sociedades anônimas que têm como únicos sócios dois fundos de investimentos atribuídos ao banqueiro pelo liquidante do Banco Master.
Esses fundos, segundo o liquidante, foram utilizados como ‘instrumentos de aquisição e titularização formal de bens destinados ao uso e benefício pessoal de Daniel Vorcaro’. Por isso, a 3ª Vara de Falências de São Paulo determinou a averbação de pendência judicial da Magma Empreendimentos e dos fundos Lunar e Quality Golden, entre outros bens do banqueiro. A medida é cautelar e preparatória para futura ação revocatória, quando o liquidante tentará recuperar ativos desviados do banco, e não foi contestada por terceiros.
A Magma, que é sócia da Odebrecht em ao menos três empreendimentos já lançados, tem como acionistas dois fundos de investimentos em participações (FIP): exatamente o Quality Golden e o Lunar, que por sua vez tinha como acionista, ao menos até outubro de 2024, o fundo Astralo 95, que também era dono da cota sabidamente pertencente a Vorcaro na SAF do Atlético-MG.
À coluna, a OR (braço de incorporação imobiliária da Odebrecht) disse que negociou os aportes em 2022 com empresas vinculadas a Augusto Lima, então CEO do Banco Master, e que os acordos foram precedidos de procedimentos de governança que não encontraram menção ao Banco Master ou Vorcaro como possíveis beneficiários finais das investidoras à época. Augusto Lima também foi preso pela Compliance Zero e atualmente usa tornozeleira eletrônica.
A OR também afirma que depois de saber pela imprensa dos processos em curso contra as suas sócias, adotou imediatamente as medidas cabíveis para encerrar qualquer associação ou relacionamento com essas empresas. Até aqui, nenhuma mudança societária foi informada à Junta Comercial.”