/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_d975fad146a14bbfad9e763717b09688/internal_photos/bs/2026/q/W/PDq0yZTAuGdBmjPNZI1w/afp-20260406-a6w29um-v2-midres-uspresidentdonaldtrumpholdspresseramidiranwar.jpg)
Promessas de Trump se diluem com o tempo
Marcelo Copelli
Congresso em Foco
Num sistema internacional em que a força, por si só, já não sustenta autoridade, a coerência tornou-se a verdadeira moeda do poder. É exatamente nesse terreno — o da consistência entre discurso e ação — que os movimentos recentes de Donald Trump revelam uma fragilidade difícil de ocultar e ainda mais difícil de corrigir.
A extensão do cessar-fogo com o Irã não surge como expressão de prudência estratégica, mas como resultado de constrangimentos acumulados — militares, econômicos e diplomáticos — que comprimiram a capacidade de decisão de Washington e impuseram um reposicionamento que contrasta com a retórica inicial de confronto decisivo.
PROMESSA – A promessa de uma resposta rápida e dominante, ancorada em uma lógica de pressão máxima, foi se diluindo à medida que o cenário evoluiu para um impasse mais complexo, em que a realidade operacional impôs limites claros à ambição política.
Fontes como o Le Monde têm destacado a ambiguidade dessa postura, marcada pela coexistência de uma trégua prolongada com a manutenção de mecanismos de pressão econômica e bloqueio indireto — uma combinação que não reflete sofisticação estratégica, mas sim uma dificuldade evidente em hierarquizar objetivos e estabilizar uma linha de ação coerente. Ao tentar preservar simultaneamente a capacidade de dissuasão e a necessidade de contenção, a administração americana acabou comprometendo ambas, produzindo um resultado que fragiliza sua posição negociadora.
Do lado iraniano, a resposta tem sido moldada por uma lógica distinta, menos dependente de demonstrações imediatas de força e mais baseada na gestão do tempo como instrumento estratégico. Sem dispor da mesma capacidade material, Teerã tem, ainda assim, conseguido impor um ritmo favorável, recusando ceder à pressão externa e apostando no desgaste progressivo do adversário.
RESISTÊNCIA – Essa postura não decorre de uma posição de superioridade, mas de uma leitura pragmática do equilíbrio de forças, em que a resistência prolongada se mostra mais eficaz do que a confrontação direta, especialmente em um contexto em que os custos de escalada são elevados para ambas as partes.
O problema central, portanto, não está na existência de recuos — inevitáveis em qualquer processo negocial complexo —, mas na forma como eles se acumulam sem um enquadramento estratégico consistente. Quando decisões sucessivas parecem responder a contingências imediatas, em vez de refletirem uma direção política clara, instala-se uma percepção de vulnerabilidade que tende a se consolidar rapidamente no sistema internacional.
Em geopolítica, essa leitura ganha autonomia, influenciando o comportamento de aliados e adversários e condicionando o espaço de manobra de uma potência, independentemente de sua capacidade material.
INSTABILIDADE – Relatórios da Reuters têm destacado a instabilidade recorrente no Estreito de Ormuz, ponto nevrálgico para o fornecimento energético global, cuja volatilidade impõe pressão adicional sobre Washington ao reduzir a margem para uma escalada que poderia desorganizar mercados e afetar aliados estratégicos. Esse cenário revela um paradoxo estrutural: quanto maior o poder acumulado, maior também a responsabilidade e, consequentemente, menor a liberdade real para exercê-lo sem custos sistêmicos relevantes.
Nesse contexto, o elemento mais corrosivo não é operacional, mas reputacional. Ao oscilar entre ameaças contundentes e aberturas diplomáticas sem continuidade, Washington deixa de projetar previsibilidade e passa a emitir sinais contraditórios que reduzem a eficácia da dissuasão e incentivam leituras estratégicas mais ousadas por parte dos adversários. A previsibilidade, que por décadas foi um dos pilares da influência americana, dá lugar a um padrão errático, no qual cada decisão parece reconfigurar a anterior, enfraquecendo a credibilidade acumulada.
Essa erosão torna-se ainda mais evidente na aproximação a soluções anteriormente rejeitadas, especialmente a aceitação de parâmetros próximos ao acordo nuclear de 2015, durante anos criticado de forma contundente. Essa inflexão não resulta de uma reavaliação estratégica cuidadosamente planejada, mas da constatação de que a política de pressão máxima não produziu resultados sustentáveis, expondo a escassez de alternativas viáveis e forçando uma adaptação que carece de sustentação política e narrativa consistente.
DERIVA – O que está em jogo, neste ponto, vai além da conjuntura imediata e assume contornos estruturais. Uma potência pode ajustar suas posições sem comprometer sua autoridade, desde que preserve coerência e direção. Quando essas dimensões falham, no entanto, o ajuste deixa de ser interpretado como flexibilidade e passa a ser percebido como deriva. Em um sistema internacional cada vez mais fragmentado, no qual múltiplos atores disputam influência e exploram zonas de incerteza, a consistência estratégica deixa de ser apenas desejável — torna-se indispensável.
É importante destacar que os Estados Unidos mantêm intactos seus instrumentos de poder material, da superioridade militar à capacidade econômica e ao alcance global. O desafio atual, contudo, está na conversão desse poder em influência efetiva — um processo que exige coerência, previsibilidade e clareza na definição de objetivos. Quando essa tradução falha, o poder permanece apenas potencial e perde relevância prática no jogo geopolítico.
DINÂMICA ALTERADA – Ao prolongar o cessar-fogo sem redefinir de forma inequívoca os termos do confronto, Washington não resolve o impasse, limitando-se a adiar uma definição que se torna cada vez mais inevitável. Esse adiamento transfere, ainda que parcialmente, a iniciativa ao adversário e altera a dinâmica temporal do conflito, favorecendo quem melhor consegue administrar o tempo e explorar as hesitações alheias.
A história demonstra que grandes potências raramente perdem influência de forma abrupta. O mais comum é um processo gradual de desgaste, marcado por decisões que, isoladamente, parecem táticas, mas que, em conjunto, revelam a perda de direção estratégica. É nesse processo silencioso — mais do que em rupturas evidentes — que o poder começa, de fato, a escapar, deixando de se afirmar como elemento decisivo na configuração da ordem internacional.
Entenda como ocorreu a fraude na nomeação de Messias para a Procuradoria da Fazenda
Messias reza para os senadores não lerem a denúncia
Carlos Newton
Escritores como Conan Doyle, Agatha Christie, Maurice Leblanc e Allan Poe sabiam que não há crime perfeito; o que existe são investigações equivocadas que não conseguem solucionar o caso. Mas todo crime, por sua própria natureza, é sempre um ato imperfeito, pois demonstra a deformação social de seus autores.
No caso da nomeação do atual ministro Jorge Messias para procurador da Fazenda Nacional, em 2007, houve várias ilegalidades. Ocorreram há quase 20 anos, em Brasília, mas vêm passando despercebidas. Era como se fossem crimes perfeitos.
FRAUDES DE MESSIAS – As provas até agora coletadas mostram que Jorge Messias foi beneficiário das fraudes que a partir de 2003 passaram a ocorrer em concursos públicos, para aparelhar a máquina administrativa em favorecimento ao PT.
As fraudes aconteciam através da atenuação das exigências legais aos candidatos ligados ao partido, além da espantosa multiplicação de vagas que não existiam e até do fornecimento de dicas aos favorecidos. No caso específico de Messias, a ilegalidades ocorreram no concurso convocado em Edital da Escola de Administração Fazendária (ESAF), em 1º de dezembro de 2005 para provimento de 27 vagas no cargo de Procurador da Fazenda Nacional.
Ele se formara em dezembro de 2003 e precisa demonstrar dois anos de prática forense e ser inscrito na OAB. Seus quatro currículos (Portal da Transparência, Lattes, Escavador e Wikipédia) registram que nessa época (2005/2006) ele morava em Recife, onde era empregado de dedicação exclusiva na Caixa Econômica Federal e trabalhava na agência Teatro Marrocos.
IMPOSSIBILIDADE – Surge uma grande dúvida. Como Messias poderia ter dois anos de prática forense pós- formado, conforme é exigido, se à época do concurso ainda trabalhava em horário integral na Caixa?
Mesmo assim, os dirigentes da ESAF entenderam que ele cumpriu as exigências e Jorge Messias participou do concurso, embora ainda hoje existam dúvidas pertinentes também quanto ao exame exigido pela Ordem dos Advogados do Brasil para exercício da profissão.
Em 2005, Messias ainda morava em Recife, continuava trabalhando na Caixa Econômica, e deveria se inscrever na Seccional de Pernambuco. Porém, isso jamais ocorreu. A única inscrição que tem é de Brasília, com o nº 31.448 indicando que foi feita em 2010 ou 2011, anos depois de ser nomeado. Ele jamais foi inscrito em Recife, seu nome não consta como ativo ou inativo.
SURGIRAM PROBLEMAS – A homologação do concurso ocorreu em 22 de junho de 2006, quando Jorge Messias constou na lista de aprovados, no 86º lugar. Mas havia problemas em relação a ele e a outros 65 inscritos, porque a nomeação deles para o cargo de Procurador da Fazenda Nacional só ocorreu um ano e meio depois, em 6 de novembro de 2007.
Na Portaria Conjunta assinada pelos ministros Guido Mantega (Fazenda) e Dias Toffoli (AGU), fica claro que Jorge Messias e os outros 65 aprovados pediram para serem colocados no final da lista de nomeação.
Esse tipo de solicitação só ocorre quando o candidato tem dificuldades de apresentar documentos, como diploma, exame da OAB, comprovação de dois anos de prática forense etc. É mais uma dúvida no nebuloso início de carreira de Messias, que acabou ficando como 586º nomeado num concurso para 27 vagas, o que demonstra o aparelhamento da máquina administrativa pelo PT.
JOVEM PRODÍGIO – Detalhe importante: nessa época, o jovem Jorge Messias já tinha sido aprovado para Procurador do Banco Central, onde não havia exigência de dois anos de prática forense.
Ficou em surpreendente quarto lugar, com apenas 25 anos, mesmo sendo empregado da Caixa Econômica Federal em horário integral, que impediu ter experiência como advogado.
E também não tinha inscrição na OAB de Recife, onde morava, e somente foi registrado na OAB de Brasília vários anos depois de nomeado, porque sua inscrição tem número 31.448.
###
P.S. 1 – Em quem acreditar: no Messias do 4º lugar ou no Messias da 586ª colocação em concursos semelhantes? Ou seja, tudo que se refere ao futuro ministro do Supremo tem jeito de fraude. Mas o assunto não está esgotado e amanhã voltaremos a ele. (C.N.)






