Áudios de oficiais envolvidos provam que Jair Bolsonaro desistira de dar o golpe

Deltan Dallagnol provou que as penas foram exageradas
Carlos Newton
As redes sociais são surpreendentes. Determinadas postagens fazem tanto sucesso que continuam a ser acessadas dia após dia, conforme acontece com um vídeo gravado há mais de um ano pelo ex-procurador e ex-deputado Deltan Dallagnol, um dos astros da falecida Operação Lava Jato, a maior iniciativa anticorrupção já ocorrida no mundo, mas inapelavelmente destruída e sepultada com incrível velocidade pelo Supremo Tribunal Federal, ao implantar a chamada “Ditadura do Judiciário”.
Enviado somente agora à “Tribuna da Internet” pelo sempre atento comentarista José Guilherme Schossland, o vídeo foi gravado por Dallagnol em fevereiro de 2025, mas não perdeu atualidade, porque aponta o desprezo do relator Alexandre de Moraes em relação a provas concretas que deveriam ter reduzido todas as penas do 8 de Janeiro.
PROVAS ESCLARECEDORAS – Trata-se de áudios extraídos de celulares e computadores a partir de apreensões e quebras de sigilo, mostrando conversas entre oficiais do Exército que se envolveram na trama golpista. Esses arquivos, que constam do processo no Supremo, foram exibidos pelo “Fantástico” em fevereiro do ano passado.
A reportagem foi montada pela TV com objetivo de revelar “a participação de militares e civis no plano de tentar pôr fim à democracia brasileira”, segundo o site g1, editado pela própria Organização Globo. E o objetivo realmente foi alcançado, com enorme repercussão.
Na época, somente o ex-procurador Dallagnol chamou atenção para o surrealismo jurídico, por se tratar de provas importantíssimas e que, ao invés de provar a existência do golpe, demonstravam exatamente o contrário. Ou seja, o golpe chegou a ser planejado, mas o então presidente Jair Bolsonaro desistiu de tentar, devido à reprovação pelo Alto Comando do Exército.
GOLPE DISSOLVIDO – Um dos áudios foi enviado pelo tenente-coronel Sérgio Cavaliere ao coronel Gustavo Gomes: “Acabei de falar com o Cid, cara. Ele falou que não vai ter nada. Tá pronto (o decreto do estado de emergência), só que ele (Bolsonaro) não vai assinar, por conta disso que eu falei, que o Alto Comando está rachado e não vai encampar a ideia”
E acrescentou: “Então, é assim, tio. Deu ruim, tá? Acabei de falar com nosso amigo lá, ele falou que não vai rolar nada. O Alto Comando não vai topar. A Marinha topa. Mas só se tiver outra Força com ela, porque ela não aguenta a porrada que vai tomar sozinha. E é aquilo que eu tinha conversado contigo…”
Outro áudio, enviado pelo coronel Bernardo Corrêa para o coronel Fabrício Bastos, confirma a desistência: “Oh, cara, pode esquecer, o decreto não vai sair. O presidente não vai fazer, só faria se tivesse apoio das Forças Armadas, porque ele está com medo de ser preso. Falei com ele agora de manhã.”
OUTRA MENSAGEM – Houve outro áudio, no mesmo sentido, enviado pelo tenente-coronel Sérgio Cavaliere ao coronel Gustavo Gomes:
“Agradeçam aí aos nossos líderes, formados naquela escola de prostitutas (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), né? E o presidente não vai embarcar sozinho, porque ele está com o decreto pronto, ele assina, e aí ninguém vai, e ele é preso. Então, ele não vai arriscar. E bem-vindos à Venezuela...”.
Portanto, ao contrário do que afirmou o “Fantástico”, os áudios não provam que existiu o golpe. Eles demonstram que realmente houve planejamento, mas o presidente Bolsonaro desistiu, apesar da insistência dos militares golpistas, como esses que enviaram as reveladoras mensagens.
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P.S. – Os jornalistas do “Fantástico” não têm formação jurídica e desconhecem que, no Brasil e no mundo, “planejar crime não é ato punível, caso haja desistência, antes da concretização”. E o mais incompreensível é que os advogados de Bolsonaro e de outros envolvidos ainda não tenham apresentado recurso de revisão criminal, pois todos têm direito de fazê-lo. Se apresentarem, esse recurso será julgado na Segunda Turma e pode sair vitorioso, pois Bolsonaro contaria com os votos de Luiz Fux, André Mendonça e Nunes Marques, formando maioria. Mas quem se interessa? (C.N.)






