Ala da corrupção era majoritária no STF, até Dias Toffoli abrir uma brecha enorme

Charge do Kacio (Arquivo Google)
Carlos Newton
Provocada pela negligência e pela desídia de sucessivos governos federais, a crise do Supremo Tribunal Federal tornou-se verdadeiramente surrealista, a ponto de haver cada vez mais apoio à criação de um Código de Ética. É uma necessidade absolutamente patética, porque o STF é justamente o órgão destinada a preservar o primado da ética no país.
Fica realmente esquisitíssimo que, para fazer esse trabalho ético, o Supremo tenha de primeiro aprovar um código interno. Significa uma tenebrosa declaração de incompetência institucional, lavrada em cartório, com firma reconhecida e selo carimbado.
OS CULPADOS – É claro que foram os próprios ministros que tornaram surreal a Suprema Corte, ao se empenharem num processo demorado de progressiva desmoralização, que começou quando os presidentes da República passaram a desconhecer a imperiosa necessidade de respeitar os requisitos de notório saber e reputação ilibada.
O Senado, é claro, também foi culpado por essa supremo esculhambação, porque aprovou os falsos juristas indicados por sucessivos presidentes da República que tinham caráter pouco republicano.
Foi o que bastou. Ora, quem tem notório saber e reputação ilibada, consequentemente também possui vergonha na cara, como dizia o jornalista e historiador Capistrano de Abreu. Ou seja, juristas de verdade jamais descumpririam as leis nem permitiriam que a mulher ou os filhos abrissem, de forma oportunista, escritórios de advocacia em Brasília, como virou moda nos últimos anos.
CRISE DO CELULAR – A atual brigalhada foi causada pela recente revelação de outras mensagens entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. A quebra de um sigilo que jamais deveria ter existido provocou essa encrenca toda e teve um efeito altamente benéfico, porque revelou a existência de duas bancadas no Supremo – a ala da corrupção e a ala da ética.
A bancada da corrupção é liderada por Gilmar Mendes, que desta vez perdeu todas as estribeiras e trocou mensagens desairosas e ameaçadoras com os ministros Nunes Marques e Luiz Fux, pressionando-os a segui-lo nas votações. Conseguiu até amordaçar Marques, que se absteve na sessão de terça-feira, mas Fux foi mais incisivo e partiu para o confronto.
A ala que defende a corrupção é formada por Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Dias Toffoli e Cristiano Zanin, enquanto a ala ética é liderada por Édson Fachin e integrada por Cármen Lúcia, Luiz Fux, André Mendonça e Nunes Marques, que já sentiu o peso da prepotência de Gilmar e agora quer distância dele
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P.S. 1 – Gilmar Mendes é um gigante que influenciava os demais ministros de uma forma hábil e efetiva. Desta vez, porém, extrapolou todos os limites, ao pressionar de maneira ofensiva Nunes Marques e Luiz Fux. Dizem que estava de porre, ninguém sabe. O fato é que ele perdeu o controle e deixou provas rastreáveis, que a repórter Carolina Brígido, do Estadão, trouxe a público nesta sexta-feira, desnudando o ministro em público.
P.S. 2 – Com Dias Tofolli impedido pelas burrices cometidas e com o voto duplo de Fachin, assegurado pelo Regimento (Artigos 13 e 146), pela primeira vez a bancada da ética ficou em maioria e o Supremo enfim poderá se libertar e se recuperar. E tudo isso está acontecendo graças a André Mendonça, que soube o momento certo de se rebelar. (C.N.)




