Há povos que atravessam a história como folhas ao vento, arrastados por impérios, dobrados por invasões, dissolvidos pelo tempo. E há civilizações que atravessam os séculos como rocha antiga, talhada, golpeada, incendiada, mas nunca pulverizada. O Irã pertence a esta segunda ordem. Antes de ser república, antes de ser islâmico, antes mesmo de ser chamado Irã, já era Pérsia, já era império, já era consciência de si. A sua história não é mera sequência de dinastias; é continuidade de forma, persistência de estrutura mental, obstinação de soberania. Desde Ciro, o Grande, que no século VI antes de Cristo concebeu um império multinacional onde a tolerância religiosa era instrumento de governo e a administração era ciência política avant la lettre, até a República Islâmica do século XXI, há um fio invisível que liga trono e púlpito, espada e escritura, ordem política e ordem cósmica. O rei dos reis aquemênida não governava apenas territórios; governava em nome de uma verdade, de uma ordem superior que o zoroastrismo exprimia na luta entre asha e druj, entre verdade e mentira, entre cosmos e caos. A política, ali, já nascia teológica. A autoridade era sacralizada. O poder não era simples técnica; era missão.
Quando vieram os árabes no século VII, trazendo o Islã e o ímpeto da nova fé, muitos imaginaram que a Pérsia se dissolveria sob a maré da revelação corânica. Engano histórico. A Pérsia foi conquistada, mas não foi apagada. O que ocorreu não foi substituição pura, mas assimilação recíproca. O califado abássida floresceu com burocratas, intelectuais e juristas persas; a língua persa renasceu como veículo literário de altíssima sofisticação; a filosofia islâmica encontrou em solo iraniano um laboratório onde Aristóteles dialogava com a revelação, onde Avicena articulava metafísica que ecoaria até Tomás de Aquino. O Islã foi islamizando a Pérsia, mas a Pérsia foi persianizando o Islã. E é nesse cruzamento que emerge o elemento decisivo para compreender o Irã contemporâneo: o xiismo.
A divisão entre sunitas e xiitas, frequentemente reduzida a caricaturas sectárias, nasceu de uma questão brutalmente simples e politicamente explosiva: quem deveria suceder o Profeta após sua morte em 632? Os que se tornariam sunitas sustentaram que a comunidade deveria escolher seu líder; a legitimidade viria do consenso, da tradição, da sunna. Abu Bakr foi eleito, e o califado assumiu forma político-administrativa, não sacerdotal. Já os que se tornariam xiitas afirmaram que a liderança legítima não era objeto de votação, mas de designação divina, e que Ali, primo e genro do Profeta, era o herdeiro espiritual autêntico. O conflito não era apenas sucessório; era ontológico. Quem detém a autoridade sobre a comunidade dos crentes? A história selou a ruptura em Karbala, em 680, quando Husayn, filho de Ali, foi massacrado. Ali nasce como símbolo; Husayn morre como paradigma. O martírio transforma-se em eixo identitário. No xiismo, a injustiça sofrida não é derrota; é testemunho. A resistência contra o poder ilegítimo torna-se virtude suprema. A memória é ritualizada, dramatizada, incorporada na vida coletiva. O sofrimento é pedagogia política.
Teologicamente, as diferenças consolidaram-se. O sunismo desenvolveu tradição jurídica plural, sem clero hierarquicamente centralizado, apoiando-se no consenso dos sábios e na estabilidade da comunidade. O xiismo, especialmente o duodecimano que se tornaria majoritário no Irã, construiu doutrina dos Imãs, líderes espirituais descendentes de Ali, dotados de autoridade especial. O décimo segundo Imã, segundo essa tradição, entrou em ocultação no século IX e retornará no fim dos tempos como Mahdi. Essa ausência-presença cria uma tensão permanente: quem governa enquanto o Imã está oculto? Durante séculos, muitos juristas xiitas preferiram postura de expectativa, evitando legitimar plenamente poderes temporais. Mas a teologia carregava em si uma possibilidade explosiva: se a liderança legítima é moral e sagrada, todo governo injusto é suspeito, e toda autoridade pode ser questionada em nome de uma justiça superior.
Quando os safávidas, no século XVI, adotaram o xiismo duodecimano como religião oficial, o que era minoria tornou-se fundamento de Estado. A identidade iraniana fundiu-se com o xiismo. O clero estruturou-se, redes de autoridade foram consolidadas, e o Irã diferenciou-se nitidamente do mundo sunita circundante. Ali começava a forma peculiar do Estado iraniano: não mera monarquia islâmica, mas construção onde religião e soberania se entrelaçam de modo orgânico. A sacralização aquemênida do poder encontrava nova linguagem. O rei já não invocava Ahura Mazda; invocava a legitimidade da linhagem do Profeta e a ortodoxia xiita. A matriz, porém, permanecia: o poder como expressão de ordem transcendente.
A modernidade europeia chegou como choque. No século XIX, o Irã Qajar viu-se espremido entre impérios russo e britânico, humilhado por concessões econômicas, pressionado por interesses estrangeiros. A Revolução Constitucional de 1906 foi momento extraordinário: tentativa de limitar o poder monárquico por meio de parlamento e constituição, com participação ativa de juristas religiosos que argumentavam que o Islã não era incompatível com freios institucionais. Ali se esboçou uma síntese rara entre constitucionalismo moderno e jurisprudência xiita. Mas a fragilidade estrutural persistia. A dinastia Pahlavi, no século XX, buscou modernização acelerada, centralização, secularização e industrialização. Reza Shah e, depois, Mohammad Reza Shah imaginaram que poderiam domesticar o clero e reconfigurar a sociedade à imagem de Estados-nação ocidentais. O petróleo tornou-se riqueza e maldição. Em 1953, quando Mohammad Mossadegh tentou nacionalizá-lo, foi derrubado em operação apoiada por potências estrangeiras. A memória do golpe cravou-se como cicatriz aberta na consciência nacional: soberania violada, dignidade ferida.
A Revolução de 1979 não brotou do nada; foi o acúmulo de tensões históricas. Quando Ruhollah Khomeini articulou a doutrina do Velayat-e Faqih, o governo do jurista, ele não inventou do zero; radicalizou uma possibilidade latente no xiismo. Se o Imã está oculto, alguém deve garantir que a comunidade não se perca. O jurista mais qualificado assume tutela política. Assim nasceu a República Islâmica: presidente eleito, parlamento, eleições regulares, mas acima deles o Líder Supremo, o Conselho dos Guardiões, a vigilância teológica sobre a lei. Não é democracia liberal; não é teocracia medieval. É estrutura híbrida, constitucionalismo religioso, onde soberania popular é reconhecida, mas condicionada por autoridade transcendental.
O mundo sunita observa com mistura de rivalidade e desconfiança. A Arábia Saudita, guardiã dos lugares sagrados do Islã e potência sunita, disputa influência regional com o Irã. Conflitos na Síria, no Iraque, no Líbano e no Iêmen assumiram tonalidade sectária, ainda que motivados também por cálculos estratégicos, energia e poder. O Irã apoia atores xiitas ou aliados estratégicos; seus adversários respondem com coalizões próprias. A divisão nascida em 632 continua a reverberar como linha de falha geopolítica. Mas reduzir tudo a religião seria simplificação grosseira. O sectarismo é linguagem mobilizadora; a política é o campo real onde se joga influência, segurança e sobrevivência.
No século XXI, o Irã enfrenta tensão interna profunda. A população é jovem, urbana, conectada ao mundo digital. Protestos massivos eclodiram em 2009, reacenderam-se em 2019 e, sobretudo, em 2022 após a morte de Mahsa Amini sob custódia policial, desencadeando movimento que combinava reivindicações de liberdade individual, crítica à polícia de costumes e insatisfação econômica. A repressão foi dura, mas o sinal estava dado: há fratura entre parte significativa da sociedade e os mecanismos de controle moral do Estado. Ao mesmo tempo, o país convive com sanções internacionais pesadas ligadas ao programa nuclear, inflação persistente, desvalorização cambial e pressões sociais crescentes.
Em fevereiro de 2026, essa tensão acumulada encontrou ponto de ruptura dramático. Uma operação militar coordenada entre Estados Unidos e Israel lançou ataques aéreos e de mísseis contra múltiplos alvos em território iraniano, instalações militares, estruturas associadas ao programa nuclear e centros estratégicos de comando, no que ambos os governos apresentaram como tentativa de neutralizar ameaças ligadas ao programa nuclear iraniano e à sua rede regional de aliados armados. O ataque inicial incluiu uma operação de “decapitação” que matou o líder supremo Ali Khamenei e outros altos responsáveis militares, provocando choque institucional e desencadeando uma escalada imediata no conflito.
Israel e os Estados Unidos sustentam que a operação foi uma ação preventiva destinada a impedir que o Irã alcançasse capacidade nuclear militar e a reduzir a ameaça representada por mísseis balísticos e forças aliadas regionais. Do outro lado, autoridades iranianas e numerosos governos do chamado Sul Global denunciaram os ataques como violação do direito internacional e tentativa de mudança de regime conduzida pela força.
A resposta iraniana foi rápida e multifacetada. Mísseis e drones foram lançados contra posições militares americanas no Golfo e contra alvos israelenses, enquanto aliados regionais de Teerã, como o Hezbollah no Líbano, abriram novos fronts de confrontação com Israel. A guerra rapidamente expandiu-se para além das fronteiras iranianas, criando um arco de confrontos que se estende do Levante ao Golfo Pérsico.
No plano econômico e marítimo, o conflito desencadeou uma crise estratégica no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado por mar no planeta. Após os ataques iniciais, forças iranianas ameaçaram ou restringiram a passagem de navios na região, provocando queda abrupta do tráfego marítimo e aumento imediato dos preços do petróleo e do gás natural. O impacto global foi imediato: mercados financeiros reagiram com volatilidade, cadeias energéticas entraram em alerta e companhias de navegação suspenderam operações na área.
Os combates também produziram vítimas e destruição em vários países. Centenas de pessoas morreram nos primeiros dias de bombardeios e contra-ataques, enquanto mísseis atingiam instalações militares, cidades e infraestruturas estratégicas em diferentes pontos da região. A guerra, ainda em desenvolvimento, envolve múltiplos atores e apresenta risco concreto de transformação em conflito regional de grande escala.
E, no entanto, quem lê a história longa percebe padrão recorrente. O Irã já enfrentou invasões mongóis que devastaram cidades inteiras; já suportou dominação estrangeira; já viu dinastias ruírem e impérios fragmentarem-se. Cada vez, reorganizou-se. A memória de Karbala ensina resistência; a herança aquemênida ensina administração; a experiência safávida ensina fusão entre identidade e fé; a Revolução de 1979 ensinou que estruturas podem ser derrubadas quando perdem legitimidade.
A pergunta que paira sobre o presente não é se haverá mudança, mas qual forma ela assumirá. Reforma interna gradual? Endurecimento? Nova síntese entre tradição religiosa e demandas de liberdade? Ninguém pode prever com certeza. O que se pode afirmar é que qualquer transformação no Irã não será mero transplante de modelos externos; será reelaboração interna de sua própria matriz histórica.
O Irã não é acidente; é continuidade. Não é irracionalidade exótica; é racionalidade distinta, enraizada em séculos de experiência em que religião e política jamais foram domínios estanques. A divisão entre sunitas e xiitas, nascida de disputa sobre sucessão, tornou-se arquitetura de identidades, teologias e alianças que moldam o presente. A República Islâmica, com todas as suas tensões, é expressão dessa longa sedimentação histórica. Compreender o Irã exige coragem intelectual para abandonar simplismos e encarar a complexidade: ali o poder fala a linguagem da fé, a fé dialoga com a história, e a história nunca morre; apenas muda de vestes. Se Shakespeare buscasse tragédia de Estado e Hemingway procurasse sobriedade diante da adversidade, ambos encontrariam no Irã matéria abundante. E Churchill, diante de tempestades geopolíticas, talvez reconhecesse naquela civilização algo familiar: a determinação obstinada de não desaparecer.
*Zilan Costa e Silva, advogado e professor.