terça-feira, 9 de junho de 2026

 

Um grande país se faz com uma Justiça de regras confiáveis e iguais para todos

Justiça nem sempre é cega charge política. Uma mão oferece dinheiro à Justiça e ela remove a venda para parecer gananciosa charge política

Ilustração reproduzida do Arquivo Google

Fernando Schüler
Estadão

“Vai chegar o dia em que a mera defesa da liberdade de expressão será um crime no Brasil”. Me lembro de ouvir isso em um debate, anos atrás. À época, achei exagerado. Mas a verdade é que o dia chegou. Já tratei aqui do caso Monark. Ele fez exatamente isso, em um programa perdido no tempo, defendendo a liberdade de expressão até para um partido nazista.

Semanas atrás, saudei o promotor Marcelo Ramos e o Ministério Público pela manifestação em favor da improcedência da ação”. O argumento de Ramos era cristalino, mostrando que o youtuber havia feito uma defesa — equivocada, na sua visão — da liberdade de expressão. E que isto não poderia ser um crime.

TRISTE ENGANO – “Ótimo”, pensei. Sinal de que estaríamos recuperando algum apreço a direitos individuais. Ou, quem sabe, apenas o bom senso. Triste engano. Dias depois, tudo retrocedeu.

Não apenas o promotor Marcelo foi afastado do caso, como sua decisão foi “substituída” pela de um colega, sob a curiosa justificativa de que Ramos havia se “equivocado”. Para completar, o próprio promotor acabou sofrendo um processo disciplinar, sob a vaga acusação de colocar em risco o “prestígio” da Justiça e a “dignidade” do Ministério Público.

Pelo que entendi, prestigiar a Justiça exigiria que o promotor tivesse confirmado a multa de R$ 4 milhões para o Monark. Mesmo se isso atentasse contra sua convicção sobre o caso. Como decidiu na direção inversa, pode agora ser sancionado, sabe-se lá de que jeito.

DUPLA CENSURA – O que temos agora é uma dupla censura: o MP querendo censurar o Monark. E querendo, de quebra, censurar o promotor que defendeu a liberdade de expressão de Monark. Difícil achar uma imagem mais adequada do país estranhíssimo em que nos transformamos.

Muitas coisas impressionam neste caso. A primeira delas é a curiosa dificuldade com a objetividade da lei e do texto. É perfeitamente inequívoco que Monark não fez apologia nenhuma do nazismo. Sua defesa é de um princípio idêntico ao da Primeira Emenda americana. Pode estar errado nisso. Mas, se isto fosse um crime, há muito não seríamos mais uma democracia.

Impressiona, neste caso, a inversão de valores. O promotor que repõe a realidade dos fatos passa a ser ele mesmo o “culpado”. Para quem gosta de história, foi exatamente o que ocorreu no caso Dreyfus. Quando Georges Picquart assumiu a inteligência francesa e percebeu que o capitão Dreyfus era inocente, foi removido de sua função e logo indiciado. O pecado, à época, não era ser um youtuber anarquista e politicamente incorreto. Era o antissemitismo. Cada época tem lá sua loucura.

TRISTE EXEMPLO – O caso entrou para a história como exemplo de intimidação e corporativismo judicial. O instante triste em que as razões de Estado, que por vezes não passam de mesquinharia, se sobrepõem ao dever de justiça. Coisas que nunca deveriam acontecer em uma democracia baseada em direitos.

O curioso disso tudo é que Monark, com sua fala confusa, pode estar dando uma enorme contribuição à nossa democracia. Seu caso expõe uma fratura entre a objetividade da lei, de um lado, e a politização da Justiça, de outro.

Meu argumento sobre isto é bastante simples: em um mundo fraturado, como o nosso, marcado por um radicalismo difuso que se produz no ambiente tóxico dos meios digitais, precisamos tomar cuidado. Que a sociedade esteja tomada pelas guerras culturais é apenas um fato. Sem lá muito remédio. O que é inadmissível é que isto ocorra com as instituições.

REGRAS IGUAIS – Um grande país se faz com o que o Nobel Daron Acemoglu chamou de “instituições inclusivas”. Instituições que resistem à captura. Seja por parte de identitários ou conservadores. Um sistema de justiça feito de regras iguais para todos, e no qual cada cidadão pode confiar. E, a partir daí, acreditar que vale apostar.

Vale dizer o que pensa, mesmo quando isto signifique criticar as leis, as autoridades e defender uma ideia muito ampla sobre a liberdade de expressão.

E isto sem medo de acordar no dia seguinte arrebentado pelas idiossincrasias de algum agente do poder. Viver em um país com estas virtudes é um direito do qual, por nada, deveríamos abrir mão.

Imoralidades tributárias do Congresso criam um país que não pode dar certo

Apesar de limitada, Comissão da Verdade é um passo histórico para consolidar a democracia no Brasil | FUP - Federação Única dos Petroleiros

Charge do Latuff (Arquivo Google)

Hélio Schwartsman
Folha

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas.

ISENÇÃO MÚLTIPLA – Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos.

O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

GRAVES DISTORÇÕES – Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular.

Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

###
NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Artigo impecável. Mostra as distorções que o próprio Congresso cria. Realmente, não pode prosperar um país que não se preocupa com critérios que poupem os recursos públicos, para serem empregados no que é absolutamente necessário. É lamentável. (C.N.)

 Política

URGENTE: Nova pesquisa surge e Flávio dá "surra" em Lula no 1º e no 2º turno

Levantamento divulgado pelo Instituto Gerp nesta terça-feira (9) indica que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado como pré-candidato à Presidência da República, venceria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em uma simulação de segundo turno das eleições de 2026.

Segundo os números apresentados, Flávio alcançaria 44,7% das intenções de voto, enquanto Lula registraria 39,1%. Outros 13,1% dos entrevistados afirmaram que não escolheriam nenhum dos dois candidatos, e 3,2% disseram não saber em quem votariam. No cenário estimulado de primeiro turno, Flávio Bolsonaro e Lula aparecem em situação de empate técnico dentro da margem de erro. O senador alcança 35% das intenções de voto, enquanto o presidente registra 34%.

Na sequência aparecem Renan Santos (Missão), com 4%, Romeu Zema com 2%, Ronaldo Caiado com 2% e Joaquim Barbosa (DC) também com 2%. Augusto Cury (Avante) soma 1% das preferências.

Entre os entrevistados, 12% afirmaram ainda não saber em quem votar, enquanto 7% declararam que não escolheriam nenhum dos nomes apresentados.

O levantamento também mediu o grau de convicção dos eleitores em relação à escolha do candidato. Segundo os dados, 77% afirmaram que já têm o voto totalmente definido. Outros 20% disseram que ainda podem mudar de opinião até o período eleitoral, enquanto 3% não souberam responder.

A pesquisa foi realizada entre os dias 2 e 5 de junho de 2026, com 2.000 eleitores de 16 anos ou mais. O estudo apresenta margem de erro de 2,24 pontos percentuais para mais ou para menos e nível de confiança de 95,55%.

 

Ponto de vista: STJ desbanca o “Gilmarpalooza”

Por Luiz Holanda


Tribuna da Bahia, Salvador
09/06/2026 06:00
1 hora e 33 minutos

O Congresso Estado de Direito e Ética Judicial, realizado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, conseguiu esvaziar a 14ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, apelidado pela imprensa de "Gilmarpalooza” e organizado pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento e Pesquisa (IDP). O ministro Gilmar Mendes até gosta do apelido, encarando o termo com leveza, pois, para ele, "falar até mal do fórum para nós é ótimo". O problema é que o apelido, além de irônico, parece indicar outro sentido. O esvaziamento político-institucional do “Gilmarpalooza” ganhou destaque  em razão do clima negativo provocado pelos escândalos do Banco Master e pela ausência de grandes empresários, políticos de oposição e a um racha no meio jurídico. Outro fator decisivo foi o uso do dinheiro público com passagens para bancar os altos custos do evento. O “Efeito Vorcaro” inibiu a presença de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), cujo presidente, Herman Benjamin, organizou e abriu o Congresso Internacional Estado de Direito e Ética Judicial, em Brasília.

Esse evento foi desenhado como um contraponto institucional aos debates acadêmicos internacionais, e teve como objetivo fomentar o diálogo e a troca de experiências entre tribunais e jurisdições de diferentes países. O Congresso do STJ reuniu magistrados e especialistas globais para debater os principais desafios atuais do Judiciário, e contou com a presença de diversos presidentes de Supremos Tribunais e Cortes de países das Américas, Europa, Ásia e África, além de alguns ministros do STF. Enquanto Herman Benjamin e Edson Fachin recebiam em Brasília representantes de 17 Cortes Constitucionais de todo o mundo para debater o Estado de Direito e a Ética judicial, Gilmar e Alexandre de Moraes abriam o “Gilmarpalooza” na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, onde se realiza o IDP tropical de Portugal. O ICL Notícias, em artigo do jornalista Luís Costa Pinto, assim se pronunciou sobre esse congresso: “Chamemos o evento do IDP pelo nome que o torna célebre: Gilmarpalooza. A alcunha grudou porque descreve com precisão o que aquilo é: um festival de lobby e de encontros entre magistrados, políticos, empresários e advogados com causas nos mesmos tribunais, cujos membros estão lá, em Lisboa, bebendo vinho verde e comendo nacos de queijo da Serra da Estrela, enquanto fingem discutir soberania tecnológica em anfiteatros da universidade lisboeta enquanto o contribuinte paga a conta”.

Segundo o jornal Folha de São Paulo, foram ao menos 135 autoridades e servidores públicos que receberam autorização para viajar às expensas de seus órgãos. O Tribunal de Contas da União (TCU) mandou quatro ministros e mais nove representantes e o Tribunal de Justiça do Piauí enviou alguns dos seus membros. Ambos estimaram gastar, juntos, R$ 692 mil em diárias internacionais. Os custos dos ministros do STF não foram divulgados. A Advocacia-Geral da União, comandada por Jorge Messias, mandou ao menos 22 representantes, com viagens custeadas pelo órgão. Aproveitando a ocasião, editou, às vésperas do evento, uma norma interna sobre participação em eventos no exterior, o que facilitou o próprio deslocamento de sua cúpula. Outras instituições indicaram representantes, mas o congresso do IDP não foi como nos anos anteriores. Neste ano foi oferecido um cardápio de temas criptoativos e do agronegócio, de “deepfakes” gerados por IA e regulação de casas online, de apostas esportivas à CPLP (Comunidades dos Países de Língua Portuguesa), tudo sem o fio condutor que transforma debates em obra. Em Brasília, o cenário foi radicalmente diferente. O Congresso Internacional Estado de Direito e Ética Judicial do STJ trouxe ao Brasil os presidentes das Supremas Cortes de Portugal, Países Baixos, África do Sul, Irã, Senegal, Costa Rica, Caribe, Irlanda e da própria União Europeia, entre outros.

A Relatora Especial das Nações Unidas sobre Independência de Juízes e Advogados, professora Margaret Satterthwaite, da Universidade de Nova York, foi palestrante e membro do Comitê Consultivo do evento. O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos enviou seu presidente, ministro Mattias Guyomar, e a ministra Sarah Cleveland, da Corte Internacional de Justiça, participou por vídeo. O ministro Edson Fachin abriu o evento com uma conferência sobre “Ética judicial: a perspectiva brasileira”, enquanto a ministra Cármen Lúcia, que é relatora do novo Código de Ética do Judiciário, participou por vídeo do painel de abertura. Os dois congressos apresentaram visões distintas do Judiciário. Enquanto o evento em Portugal  focou em assuntos de interesse diversos, o congresso do STJ priorizou a ética judicial e uma postura institucional da magistratura, além de um Judiciário sóbrio, acadêmico e ético.

Luiz Holanda é advogado e professor universitário.

 

Bolsonaro errou feio ao indicar Flávio, que não tem condição de vencer Lula

Tarcísio é a aposta do mercado financeiro para substituir Bolsonaro após  inelegibilidade – CartaCapital

Se tivesse sido indicado, Tarcísio estaria liderando as pesquisas

Carlos Newton

Durante os trabalhos da Assembleia Constituinte, acompanhei numa visita ao Congresso o então presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho. Além de ser jornalista, ele conseguia ser advogado, procurador, escritor, professor universitário e historiador. Era uma figura realmente notável, sempre de bom humor, e adorava política, tinha sido governador e deputado federal por Pernambuco.

Ele se encontrou com Ulysses Guimarães, que então presidia a Câmara e a Assembleia Constituinte, e com Humberto Lucena, que presidia o Senado. Sua visita foi acompanhada por muitos jornalistas, entre os quais se destacava a premiada fotógrafa Ana Carolina, da revista IstoÉ, que usava uma estonteante minissaia.

UM GALANTEIO – O presidente da ABI não sabia que Ana Carolina era filha de um de seus maiores amigos, o jornalista Helio Fernandes. Quando ela se aproximou  para fotografá-lo, Barbosa Lima, que estava com 90 anos, não conteve o galanteio e arrancou gargalhadas. “Está tudo errado, minha filha. Me passe a máquina, porque eu é devia fotografá-la…”.  

Antes de sairmos, pediu que eu o levasse ao gabinete de Jarbas Passarinho, ao lado do plenário.  Eu não sabia que eram amigos, porque Barbosa Lima se opunha firmemente contra os militares e até foi candidato a vice-presidente na chapa de protesto encabeçada por Ulysses.

“Gosto muito do Passarinho. Entre os militares, é um dos mais preparados e mais dignos, foi o único ministro que assinou a contragosto o AI-5, lembra?”, explicou  

MAL DE FAMÍLIA – A conversa rolou solta sobre a importância da Constituinte e as negociações políticas, e a horas tantas Jarbas Passarinho fez uma revelação que nos surpreendeu. “Para os políticos, o maior problema é a família. Dos amigos, a gente ainda consegue se livrar, mas é impossível se livrar da família…”, disse o senador.

“Os membros da família acham que o político pode lhes dar tudo. Querem emprego de alto salário, vaga na universidade sem fazer vestibular, passagem grátis em avião da FAB, uma chatice, não há quem aguente!”.

Quando saímos, Barbosa Lima comentou: “Também sofri muito esse problema, especialmente quando fui governador de Pernambuco. É um lado podre da política.

ESCOLHA INFELIZ – Lembrei esse episódio ao refletir sobre os rumos da sucessão presidencial. Jair Bolsonaro é um dos maiores influenciadores políticos. Não pode ser candidato, mas tem força para influenciar diretamente o voto de milhões de brasileiros.

Ele poderia ter indicado o governador paulista Tarcísio de Freitas, que é e sua inteira confiança, para formar uma chapa fortíssima com seu filho Flávio, como vice. Se tivesse feito essa escolha, a eleição corria o risco de ser vencida por Tarcísio no primeiro turno.

No entanto, Bolsonaro preferiu um membro da família, embora seja claramente despreparado e com um passado nebuloso, temperado por rachadinhas, negócios imobiliários com dinheiro vivo e lavagem de dinheiro achocolatado. Com isso, facilitou muito a vida de seu arqui-inimigo Lula da Silva, que seria facilmente derrotado por Tarcísio.

###
P.S.
A política tem dessas coisas. Qualquer vacilo pode ser fatal, e a família atrapalha muito mais do que ajuda. Agora, tudo piorou. Depois que entronizaram a corrupção e a impunidade, as próprias famílias se encarregam de corromper os jovens. E vida que segue, diria João Saldanha, que faz uma falta danada em época de Copa do Mundo. Com certeza, vai assistir ao lado de nosso amigo Nelson Rodrigues. Um de esquerda, outro de direita, mas ambos democratas. (C.N.)