Datafolha acende o alerta para Lula e mostra a força do bolsonarismo nos estados
Para o presidente, o sinal amarelo está aceso
Pedro do Coutto
A primeira pesquisa Datafolha depois do início oficial da campanha eleitoral de 2026 oferece uma fotografia que, embora ainda distante de qualquer prognóstico definitivo, merece atenção especial no campo governista. Lula continua liderando a corrida presidencial, com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro.
A vantagem de seis pontos é relevante, mas a trajetória dos números é mais importante do que a fotografia isolada: a distância entre os dois caiu quatro pontos em relação ao levantamento anterior. No segundo turno, a disputa aparece ainda mais apertada: Lula tem 47%, contra 43% de Flávio.
POLARIZAÇÃO – Não se trata, portanto, de uma eleição decidida nem de uma vantagem confortável para o presidente. Ao contrário, os números revelam uma disputa em que o eleitorado está suficientemente polarizado para transformar pequenas mudanças de comportamento em grandes consequências eleitorais.
A margem de erro de dois pontos percentuais significa que a diferença de quatro pontos no segundo turno não autoriza a conclusão de uma vantagem politicamente tranquila. O dado mais preocupante para Lula, porém, talvez não esteja apenas na distância entre os dois candidatos, mas na capacidade demonstrada por Flávio de ocupar rapidamente o espaço político deixado pela ausência do pai da disputa presidencial.
A pesquisa também mostra que a eleição presidencial continua praticamente concentrada nos dois polos. Ronaldo Caiado aparece com 5%, Renan Santos com 4% e Romeu Zema com 3%. Os demais candidatos não alcançam 2%. Isso reduz, por enquanto, a possibilidade de uma terceira via capaz de romper a lógica de confronto entre petismo e bolsonarismo. O eleitor que pretende derrotar Lula parece encontrar em Flávio Bolsonaro o principal veículo para esse voto, enquanto o eleitor contrário à direita mantém no presidente a referência central.
REJEIÇÃO – Há, entretanto, um componente que não pode ser ignorado: a rejeição. Segundo o levantamento, 46% dizem que não votariam em Flávio de jeito nenhum, enquanto 45% afirmam o mesmo em relação a Lula. É uma espécie de teto eleitoral compartilhado. Os dois chegam à reta inicial da campanha com bases consolidadas, mas também com uma parcela expressiva do eleitorado disposta a rejeitá-los. A eleição será decidida, em boa medida, pela capacidade de cada campanha de ampliar sua área de aceitação sem perder o núcleo mais fiel.
É nesse ponto que o mapa dos estados ganha importância. Em São Paulo, principal colégio eleitoral do país, o cenário é particularmente desfavorável ao PT. Tarcísio de Freitas aparece com 45% na disputa pelo governo estadual, enquanto Fernando Haddad registra 27%. Em eventual segundo turno, a vantagem do governador é ainda maior: 54% contra 35%.
O problema para Lula não é simplesmente a candidatura de Haddad estar atrás. É que a eleição paulista possui dimensão nacional. Tarcísio é hoje um dos principais líderes políticos do campo bolsonarista e apoia Flávio Bolsonaro na corrida presidencial. Uma vitória folgada no maior colégio eleitoral do país lhe daria não apenas força institucional para um eventual segundo turno estadual, mas também capacidade de mobilização em favor do candidato do PL à Presidência. A própria campanha petista sabe que manter Tarcísio concentrado na disputa estadual é estrategicamente importante para reduzir sua disponibilidade como cabo eleitoral de Flávio.
CRESCIMENTO DE HADDAD – Isso cria uma equação particularmente delicada para o PT. Haddad precisa crescer para evitar uma vitória de Tarcísio no primeiro turno, mas a tarefa não é simples. A pesquisa mostra que a distância atual é de 18 pontos e que, num eventual segundo turno, o governador mantém uma vantagem de 19 pontos. Não é impossível alterar esse quadro, sobretudo porque a campanha ainda está no começo, mas seria imprudente tratar a diferença como um acidente estatístico. Há uma vantagem política consolidada de Tarcísio em São Paulo.
Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, a fotografia também favorece o campo conservador. Cleitinho Azevedo aparece com 32%, muito à frente de Patrus Ananias e Alexandre Kalil, ambos com 12%. O resultado tem peso nacional porque Minas tradicionalmente ocupa posição estratégica nas eleições presidenciais. Mais do que isso, a liderança de Cleitinho indica a existência de um eleitorado de direita capaz de se organizar em torno de uma candidatura estadual identificada com esse campo político.
Pernambuco oferece uma situação diferente e mostra por que não é possível transformar a pesquisa estadual em uma simples disputa entre Lula e Flávio. Raquel Lyra aparece com 47%, contra 40% de João Campos. A diferença de sete pontos supera a margem de erro, mas ainda não permite decretar uma eleição resolvida. O quadro é particularmente relevante porque João Campos construiu sua campanha também a partir da proximidade com Lula, enquanto Raquel mantém uma posição mais independente na disputa presidencial.
CONTRAPONTO – O Rio de Janeiro, por sua vez, apresenta uma situação capaz de funcionar parcialmente como contraponto ao cenário paulista. Eduardo Paes lidera a disputa pelo governo estadual com 41%, contra 19% de Douglas Ruas e 9% de Anthony Garotinho. A vantagem de Paes é expressiva, embora o número correto seja 41%, e não 47%, como aparece na transcrição original.
A importância de Paes para Lula está justamente na possibilidade de transformar uma eleição estadual favorável em um ativo político nacional. O prefeito do Rio apoia a candidatura de Lula e, se confirmar sua liderança, terá condições de organizar um palanque relevante para o presidente em um estado onde o bolsonarismo possui raízes profundas. Mas há uma limitação objetiva: o peso eleitoral de São Paulo é muito superior ao do Rio. Por isso, uma vantagem expressiva de Paes não compensa integralmente uma eventual derrota política do PT no maior colégio eleitoral brasileiro.
O conjunto desses números revela algo mais sofisticado do que uma simples vantagem de Lula ou de Flávio Bolsonaro. O que está em formação é uma espécie de mosaico eleitoral. Lula mantém força no Nordeste e conserva uma base nacional suficientemente ampla para liderar o primeiro turno. Ao mesmo tempo, o campo bolsonarista demonstra musculatura nos maiores estados do Sudeste e em Minas Gerais, enquanto seus candidatos locais podem funcionar como importantes transmissores de votos e de identidade política.
COALIZAÇÃO ELEITORAL – Essa dimensão territorial será decisiva. Uma eleição presidencial brasileira não se ganha apenas com a soma nacional das intenções de voto; ganha-se pela capacidade de transformar preferências dispersas em uma coalizão eleitoral eficiente. É justamente nesse ponto que a situação de Lula merece atenção. O presidente continua competitivo, mas precisa de palanques estaduais capazes de dialogar com segmentos que não necessariamente votam no PT para governador. A força de Tarcísio em São Paulo, nesse sentido, representa um problema muito maior do que os 45% registrados na pesquisa estadual.
Há ainda um fator externo à disputa eleitoral que pode interferir no ambiente político: a crise comercial com os Estados Unidos. Lula conversou por telefone com Donald Trump na sexta-feira e classificou como infundadas as justificativas utilizadas para as tarifas impostas ao Brasil. Depois da conversa, os governos brasileiro e americano acertaram a retomada de negociações comerciais.
Esse episódio pode ter efeitos ambíguos sobre a campanha. Se o governo conseguir demonstrar que a negociação produz resultados concretos e reduz os efeitos do tarifaço sobre a economia brasileira, Lula poderá transformar uma crise internacional em demonstração de capacidade de negociação. Se, ao contrário, o conflito comercial produzir perdas econômicas perceptíveis, especialmente para setores exportadores e para o emprego, a oposição terá um argumento poderoso contra o governo.
DIÁLOGO – A política brasileira entra, portanto, numa fase em que cada eleição estadual começa a dialogar diretamente com a presidencial. Tarcísio em São Paulo, Cleitinho em Minas, Paes no Rio e Raquel Lyra em Pernambuco não são apenas personagens de disputas locais. Seus desempenhos ajudam a construir o ambiente político no qual Lula e Flávio Bolsonaro disputarão a Presidência.
O Datafolha não mostra Lula derrotado. Tampouco mostra Flávio Bolsonaro à frente. Mostra algo mais importante: uma eleição aberta, polarizada e com uma diferença suficientemente pequena no segundo turno para que nenhum dos lados possa administrar a campanha como se o resultado já estivesse encaminhado. Lula ainda parte na frente, mas sua vantagem está menos protegida do que estava algumas semanas atrás.
SINAL AMARELO – Para o presidente, o sinal amarelo está aceso. Não porque os 39% sejam insuficientes para liderar uma eleição, mas porque os 43% de Flávio no segundo turno revelam a existência de um adversário capaz de transformar a força histórica do bolsonarismo em uma candidatura nacional competitiva. E, sobretudo, porque o mapa dos estados começa a mostrar que a direita não depende apenas da memória eleitoral de Jair Bolsonaro: ela já dispõe de uma rede de lideranças locais com força própria.
A disputa de outubro será, cada vez mais, uma eleição de dois movimentos simultâneos. Lula tentará ampliar sua frente para além do núcleo petista e preservar a vantagem que ainda possui entre os setores mais populares do eleitorado. Flávio Bolsonaro buscará converter a identidade bolsonarista em uma candidatura capaz de alcançar os eleitores que rejeitam Lula, mas que ainda não necessariamente escolheriam um Bolsonaro. É essa passagem — da rejeição ao voto — que decidirá a eleição. E o novo Datafolha mostra que ela começou.






