Se vivessem hoje, Marx e Engels estariam empolgados com o fim das ideologias

Engels e Marx provocaram a humanização do capitalismo
Carlos Newton
Há muitos anos, na década de 80, ainda no regime militar, tive a honra de ser autor de uma série de artigos que motivaram debates entusiásticos na Escola Superior de Guerra. Publicada antes da queda do muro de Berlim e da derrocada da União Soviética, a série de artigos tinha um título profético – “O Fim das Ideologias”.
Infelizmente, não fui convidado a participar dos debates, porque minha ficha no Serviço Nacional de Informações (SNI) indicava que eu era membro do Partido Comunista”, ao qual jamais fui ligado, embora continue a ser ardoroso admirador de Karl Marx e Friedrich Engels, dois pensadores que conseguiram mudar o mundo.
GRANDES AMIGOS – Sem Engels, não existiria Marx, que era um intelectual pobretão, sem dinheiro para sustentar a família, enquanto Engels era de família rica e seu pai se tornara um dos primeiros empresários multinacionais, com fábricas de tecido na Alemanha e na Inglaterra.
Assim, sem o dinheiro de Engels, que o sustentou a vida inteira, Marx não teria tempo para estudar e desenvolver suas teorias humanitárias, junto com o amigo.
Engels era um intelectual de primeira linha, porém Marx se tornou muito mais importante do que ele, porque assinava como autor os estudos desenvolvidos em conjunto, cuja autoria Engels jamais poderia assumir, para não entrar em choque com os interesses de sua família, que enriquecia cada vez mais com indústria e comércio no ramo têxtil – linhas, fios e tecidos.
SEGUNDO PLANO – Engels tinha de ficar em segundo plano e só podia assinar ensaios que não defendessem diretamente as classes trabalhadoras, como a monumental obra “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, em 1884.
Na época, o trabalho ainda caminhava próximo à escravidão; o único direito trabalhista era a folga semanal aos domingos, adotada desde o Império Romano. E a possibilidade de descansar também aos sábados só viria a ser adotada no Século XX.
O sofrimento dos trabalhadores incomodava o capitalista Engels, que se transformou num grande defensor dos direitos humanos, quando a exploração do homem pelo homem era considerada normal, porque ocorria totalmente dentro da lei.
DIREITOS HUMANOS – Os criadores do comunismo se conheceram em Colônia, capital da Renânia (antiga Prússia e hoje Alemanha), onde Marx nasceu e a família de Engels instalara uma de suas fábricas.
Engels tinha alma de jornalista, colaborou ativamente na “Gazeta Renana” onde Max trabalhava e depois fundou com ele a “Nova Gazeta Renana”. Assim, desde sempre foi ele quem sustentou Marx e assim seguiram pelo resto da vida na Alemanha e depois em Paris, Bruxelas (onde escreveram o Manifesto Comunista) e Londres.
Portanto, Engels usou o dinheiro do capitalismo para patrocinar e criar o comunismo, regime político que ele e Marx julgavam mais humano, sem saber que poderia ser desvirtuado por líderes ditatoriais, tão exploradores quanto os capitalistas.
GRANDES PREVISÕES – Juntos, os dois pensadores previram em detalhes o que aconteceria ao capitalismo, inclusive o surgimento dos “rentistas”, termo criado por eles para designar as pessoas que hoje vivem da renda do dinheiro investido, como é comum aqui no Brasil, onde quem possui R$ 2 milhões aplicados pode viver com renda superior a R$ 20 mil mensais, e sob proteção de bancos estatais, que não têm risco de ir à falência.
O que não poderiam prever é que os profundos estudos que realizaram fossem utilizados para humanizar o capitalismo e garantir a defesa dos direitos humanos em todos os sentidos, de tal forma que tornou totalmente inviável aquele comunismo com o qual os dois sonhavam.
Hoje, os principais países que se diziam comunistas não podem mais ser considerados assim. Rússia, China e Vietnã, por exemplo, tiveram de adotar o capitalismo de estado e hoje caminham para a social democracia, a alternativa ideal seguida pelos escandinavos, que se tornaram os países mais desenvolvidos do mundo, através do Estado do Bem-Estar Social.
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P.S. 1 – Sempre que faço reflexões sobre a morte das ideologias, fico entusiasmado com a obra de Marx e Engels (ou de Engels e Marx, conforme prefiro), que redundou na abençoada Social Democracia.
P.S. 2 – Embora tanta gente hoje despreze Engels e Marx, eu cada vez os admiro mais. E fico orgulhoso quando me chamam de comunista, como aconteceu no regime militar, quando o coronel Costa Júnior, que trabalhara no Serviço Nacional de Informações (SNI), ofereceu-se para limpar minha ficha e eu recusei, dizendo-lhe que todo jornalista de verdade se orgulhava de ser fichado. E vida que segue, como dizia meu amigo João Saldanha, que também era fichado como comunista. (C.N.)





