domingo, 16 de agosto de 2026

O Antagonista

 

Uma autópsia do sigilo da fonte no STF

Decisão de Moraes para busca e apreensão se refere como "matérias jornalísticas" ao material publicado como denúncia sobre Dino

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Rodolfo Borges

Uma autópsia do sigilo da fonte no STF
Foto: Reprodução de vídeo

A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia garantiu que “a liberdade de imprensa não está em questão no Brasil”, mas talvez ela não tenha visto em detalhes a decisão sigilosa desta semana do colega Alexandre de Moraes (foto) que expõe em detalhes a violação do direito ao sigilo da fonte, documentada como se fosse legítima.

O Antagonista teve acesso à decisão de busca e apreensão contra Raimundo Cutrim e Diogo Diniz Lima, que deixa bem claro que a liberdade de imprensa está, sim, em questão no Brasil, pois a fonte de um jornalista foi descoberta ao mexer em seu computador, apreendido com autorização de Moraes em outra operação de busca e apreensão, em março.

A julgar pelo despacho de Moraes no caso da denúncia sobre uso irregular de veículo do Tribunal de Justiça do Maranhão (TJ-MA) pelo colega de tribunal Flávio Dino, basta que um ministro do STF considere que o jornalista não é digno de respeito para que seu direito ao sigilo da fonte seja desrespeitado.

“Jornalistas investigados”

Ao comentar o caso na sessão plenária de quinta-feira, 13, Moraes disse que é preciso fazer uma distinção entre jornalistas investigativos e “jornalistas investigados”, como se esse jogo de palavras significasse algo de revelante e justificasse de alguma forma sua decisão.

Curiosamente, na decisão Moraes usa a expressão “matérias jornalísticas” ao se referir ao material publicado por Luís Pablo. Quer dizer, no despacho ele não desqualifica o trabalho do jornalista, e nem sequer menciona qualquer explicação para passar por cima do direito ao sigilo da fonte.

Os profissionais de imprensa que têm tentado defender o ministro do STF não estão exatamente fazendo uma trabalho digno de respeito, e podem acabar entrando na mira de algum ministro do STF que não goste do que eles estão dizendo ou publicando.

O fato é que Moraes optou pelo caminho mais fácil para chegar à fonte das informações que considera que não deveriam ter sido divulgadas, pois algumas delas saíram do sistema do TJ-MA. Mas há uma legislação que proíbe exatamente o que ele fez e assegura o direito ao sigilo.

“Stalking”

Os investigadores tratam o jornalista Luís Pablo, que publicou a denúncia sobre Dino, como parte de um esquema de monitoramento e perseguição (stalking) do ministro do STF.

Mas o que o despacho de Moraes expõe é que uma fonte, o ex-secretário de Segurança Pública do Maranhão Raimundo Cutrim, forneceu as informações que Luís Pablo publicou.

A Polícia Federal chegou ao elo ao acessar registros do WhatsApp Web do jornalista em seu computador, apreendido de março, numa clara e flagrante violação do sigilo da fonte.

Está tudo registrado na decisão sigilosa de Moraes, como se fosse algo corriqueiro.

O contrato milionário

Essa mesma lógica poderia ser aplicada, por exemplo, aos jornalistas de O Globo que publicaram o incômodo contrato milionário do escritório da esposa de Moraes com o Banco Master.

O relator do inquérito das fake news foi atrás dos vazadores na Receita Federal, e o STF chegou a expor os nomes de quatro suspeitos, numa nota bastante inusual.

O presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco) ousou reclamar e foi intimado pela Polícia Federal para prestar esclarecimentos.

Esse é o contexto da decisão de Moraes que ameaça a liberdade de imprensa no Brasil, e é por isso que tantas associações de classe manifestaram seu protesto.

Qualquer tentativa de defender essa decisão não passa, no melhor dos casos, do jogo político mais rasteiro, para tentar salvar o que não tem mais salvação, e às custas da reputação do STF.

 

Mendonça diz que o povo deseja um STF imparcial, sem perseguir os investigados

Supremo Tribunal Federal

Mendonça desponta como melhor ministro do Supremo

Deu no SpaceMoney

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, quebrou o silêncio sobre sua atuação como relator de investigações que envolvem o Banco Master e o INSS. Em entrevista ao podcast ITER Cast, o magistrado afirmou que o papel dele é ser imparcial e que a credibilidade do sistema de Justiça depende do respeito aos limites institucionais.

Prestes a completar cinco anos no STF, Mendonça conduz o escândalo do banco de Daniel Vorcaro, o caso Master, e também é relator da chamada farra do INSS. Além dessas apurações, o ministro cuida do inquérito sobre o financiamento do filme Dark Horse, que tem como um dos objetos o senador Flávio Bolsonaro, e das investigações contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, cujo caso foi desmembrado da apuração na Previdência.

IMPARCIALIDADE – “Meu papel é ser imparcial. Acho que esse é o meu papel. E o quanto mais eu me mantiver nesse eixo, eu acho que eu vou corresponder àquilo que a Constituição espera de mim e, por decorrência, acho que a própria sociedade”, declarou Mendonça na conversa, gravada em 27 de julho e divulgada nesta sexta-feira, dia 14.

O magistrado também afirmou que o povo não quer que se persiga ninguém, mas também não quer que se proteja indevidamente pessoas que deveriam ser responsabilizadas. Para ele, a questão central é a credibilidade.

A fala do ministro ocorre em meio à discussão sobre os limites exatos da atuação de um relator em investigações criminais. Se Mendonça não agir dentro desses limites, todo o processo pode ser contaminado e anulado, o que aumentaria as chances de mais um caso de corrupção terminar impune.

MINISTROS ENVOLVIDOS – A jurisprudência do Supremo, porém, atribui aos relatores da Corte papel muito mais alargado do que o dado a juízes de instâncias inferiores. No caso Master, menciona-se na imprensa possível envolvimento de ministros do STF, o que coloca a condução do inquérito sob atenção especial.

Conflitos entre Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal e juiz sobre limites e estratégias sempre existiram — do Mensalão à Lava-Jato. Agora, ocorrem entre o relator e a PF. Nesse cenário, o que não é razoável é que as diferenças gerem insegurança sobre o sucesso das investigações e que as desconfianças cultivem nulidades.

Na entrevista, Mendonça recorreu à teoria do agente principal para explicar a relação entre o povo e os agentes públicos. Segundo o ministro, o principal — o povo — transfere aos agentes públicos uma relação de confiança, com a expectativa de que eles sejam honestos e cumpram as leis, os contratos e os limites institucionais.

DIZ MENDONÇA – “A grande questão brasileira, eu penso que é em relação à persecução. Nós temos histórico muito ruim de efetiva responsabilização dos casos”, disse o ministro do Supremo, acrescentando:

“A questão não é se vai ou não haver corrupção. Corrupção vai haver, faz parte da condição humana. Mas como nós tratamos a corrupção?”. E finalizou Mendonça:.

“O papel do juiz não é combater a corrupção. O papel do juiz é aplicar a lei. Mas aplicar a lei com coerência, aplicar a lei com respaldo nas evidências”, completou o ministro.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Ao contrário de ministros como Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Dias Toffoli e outros, Mendonça não se deixa levar pela vaidade e se comporta como um exemplo de comprometimento com a Justiça e a lei. Se não vacilar, seu nome ficará na História. (C.N.)

 Opinião

Faroeste maranhense desmoraliza o Supremo

Alguns gaiatos apareceram comentando o assunto e querendo defender o indefensável com o seguinte argumento: o sigilo da fonte jornalística não seria um direito absoluto, podendo ser quebrado quando o jornalista comete crime para obtê-lo. No caso, o crime seria um suposto suborno aceito pelo jornalista para fazer a matéria.

O editorial do Estadão trata o assunto de maneira conceitual: mesmo que tenha havido vício na obtenção da informação, esse vício deve ser investigado usando-se expedientes de acordo com a lei. Nas palavras lapidares do editorial “se há suspeita de crime, que se apure a autoria e a materialidade com respeito ao devido processo legal - e perante as autoridades competentes. O estado não pode usar meios ilegais para investigar quem quer que seja, por mais tentadores que sejam os atalhos que surjam no meio de uma investigação.”

Isso é o conceito. Na prática, a história, mesmo na versão apresentada por Dino e Moraes, não para em pé. Mesmo na hipótese de que o jornalista tenha aceito suborno para fazer a sua matéria, isso não torna a relação entre o jornalista e a fonte devassável. Não enquanto não se provar que houve a compra do jornalista. Foi invertida a ordem do inquérito: primeiro se quebrou o sigilo da fonte. Depois, se tenta provar o crime do jornalista. Isso tem um nome em direito: pesca probatória, o que é ilegal.

Mas enfim, o faroeste maranhense tomou conta do Supremo, com a prestimosa ajuda corporativa de alguns ministros e diante da complacência pusilânime da maioria. E tem gente que ainda acha normal, ou pior, legal, tudo isso.

Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.