
Messias foi aprovado fraudulentamente em dois concursos
Carlos Newton
No segundo governo de Lula da Silva, o Brasil vivia uma fase de euforia e êxtase. O crescimento da economia tinha sido impulsionado pela gestão de Carlos Lessa e Darc Costa no BNDES, que fizeram o PIB chegar a 4% em 2006 e subir para 6,1% em 2007. O espantoso desenvolvimento era impulsionado pelo setor de serviços (6,1%), com a indústria aumentando (5,3%) e agropecuária (4,8%).
Na revolucionária gestão de Lessa como presidente e Darc como vice, o BNDES aumentou fortemente as linhas de financiamento a baixos juros e lançou seu cartão de crédito para eliminar a burocracia no apoio a micros, pequenas e médias empresas.
Foi um espetáculo de crescimento, mas durou poucos anos, porque o presidente Lula, a pedido do ministro Antonio Palocci, da Fazenda, decidiu demitir Carlos Lessa por ter criticado a política econômica, e Darc Costa saiu junto com ele.
NOVA CHINA? – À época, o governo do PT pensou que o Brasil seria uma nova China, mas o crescimento do PIB acabaria sendo apenas “um voo de galinha”, como Lessa previu ao entregar o cargo a Guido Mantega, considerado por ele “um brasileiro sem B maiúsculo”, conforme o renomado economista declarou em sua concorrida entrevista ao deixar o BNDES.
Em 2007, Mantega já tinha sido promovido a ministro da Fazenda e estava embriagado pelo poder, e a economia ainda continuava crescendo, pois ele mantivera no BNDES as diretrizes implantadas por Lessa e Darc.
Em sua visão distorcida, Mantega julgava ser o autor de um novo milagre brasileiro, mas sua alegria durou pouco e ele até teve de cometer crimes de responsabilidade, ao maquiar os números da economia e dar as pedaladas fiscais que causariam o impeachment de Dilma Rousseff.
ESQUEMA PETISTA – Desde o início do primeiro governo Lula, o PT seguia uma orientação do então chefe da Casa Civil, José Dirceu, para aumentar o número de militantes petistas na administração federal, copiando o exemplo do projeto tucano do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, executado por seu superministro Sérgio Motta.
Até aí, nada de novo – todo governante tem essas aspirações de se perpetuar. A diferença é que, na gestão do PT, os ministros não tiveram cuidado em seguir as leis e manter as aparências. Saíram promovendo sucessivos concursos públicos, que não cobravam aos inscritos as exigências legais e ofereciam facilidades aos concorrentes ligados ao partido.
Como os concursos fraudados não eram descobertos, com o passar do tempo seus organizadores passaram a agir com uma displicência impressionante, pois tinham certeza da impunidade e faziam o que bem entendiam.
O EXEMPLO MESSIAS – Na importantíssima área da Fazenda, principal foco do aparelhamento petista, o esquema foi armado na Escola de Administração Fazendária (ESAF) e na Procuradoria-Geral do Banco Central, que organizam a admissão de novos servidores.
E foi num desses concursos nada rigorosos que o jovem e inexperiente advogado Jorge Messias se inscreveu em 2005, sem jamais ter trabalhado como advogado e sem ter os dois anos obrigatórios de experiência forense, porque o complacente Edital da ESAF não obedecia mais à exigência legal, e somente esse fato já bastava para anular o concurso.
Messias foi nomeado em 14 de junho de 2006, como quarto colocado no concurso, um fenômeno semelhante ao filho de Lula. Mas um grande mistério persiste. Como Messias exibiu na época a inscrição na Ordem dos Advogados de Pernambuco, se nunca foi registrado na OAB de lá. A busca de seu nome no site dá a seguinte resposta: “Nenhum resultado encontrado para Jorge Rodrigo Araujo Messias”. Ele está inscrito apenas na OAB do DF, sob nº 31.448, mas essa numeração indica registro feito em 2010 ou 2011…
Tudo é nebuloso na carreira do próximo ministro do Supremo Tribunal Federal, especialmente sua segunda nomeação, para Procurador da Fazenda Nacional, através de um concurso fraudado em 2007 pelos ministros Guido Mantega (Fazenda) e Dias Toffoli (Advocacia-Geral da União).
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P.S. – Havia concursos públicos sucessivos para os mesmos cargos, a ESAF se transformou numa máquina de fabricar servidores, os editais eram manipulados para empregar os petistas, mas ninguém percebia. Para se imaginar o nível dos absurdos, um outro concurso, que nomeou Jorge Messias a Procurador da Fazenda Nacional em 2007, foi aberto com apenas 32 vagas, mas acabou espantosamente ampliado, e ele foi nomeado e assumiu mesmo estando na 586ª colocação. E assim o quadro de pessoal do governo foi aumentando de uma maneira absurda, sem que ninguém percebesse. Amanhã, voltamos ao assunto, com mais detalhes. (C.N)