
Charge do Jônatas (Política Dinâmica)
Pedro do Coutto
O Brasil atravessa um período em que crises de naturezas diferentes começam a se sobrepor. Não existe uma única explicação para todos os episódios, mas há um traço comum: problemas econômicos, empresariais, regulatórios e institucionais estão alimentando uma sensação de instabilidade que já chega ao cidadão comum.
Casas Bahia, Braskem, Banco Master e, agora, TikTok aparecem em contextos completamente diferentes. Não seria correto atribuir-lhes a mesma causa. Mas também seria imprudente ignorar o efeito acumulado de episódios envolvendo endividamento, governança, fiscalização, controles internos e responsabilização.
MULTA – O caso do TikTok é particularmente revelador. A Agência Nacional de Proteção de Dados aplicou à ByteDance, controladora da plataforma, multa de R$ 153,7 milhões por falhas relacionadas ao tratamento de dados de crianças e adolescentes. A decisão também determinou medidas para corrigir as irregularidades e reforçar a proteção dos menores. A empresa ainda pode recorrer.
O valor impressiona, mas o aspecto mais importante é o precedente. Crianças e adolescentes não podem ser tratados pelas grandes plataformas apenas como usuários ou consumidores. Quando uma empresa desse porte é punida por falhas nessa área, fica evidente que a economia digital já exige uma fiscalização compatível com o seu poder.
Esse episódio surge, porém, num ambiente que já vinha acumulando sinais de tensão. As Casas Bahia chegaram à recuperação judicial com R$ 17,3 bilhões em dívidas sujeitas ao processo, enquanto a dívida total se aproxima dos R$ 28 bilhões. A Braskem enfrenta dificuldades no mercado petroquímico, elevado endividamento e os efeitos financeiros e jurídicos da tragédia provocada pela exploração de sal-gema em Maceió.
CASO MASTER – O Banco Master acrescentou outra dimensão ao quadro por envolver diretamente o sistema financeiro e desencadear uma investigação de grandes proporções. São situações distintas, mas a frequência desses episódios levanta uma pergunta incômoda: por que empresas e instituições continuam chegando tão frequentemente depois da crise?
Uma economia dinâmica não pode ser confundida com uma economia sem falências. Empresas quebram, projetos fracassam e dívidas são renegociadas. O problema está na qualidade dos mecanismos de prevenção.
Quando a fiscalização chega depois da irregularidade ou a recuperação financeira começa depois do estrangulamento do caixa, a sociedade paga mais caro pelo mesmo problema. É nesse cenário que a eleição de 2026 começa a ganhar forma.
POLARIZAÇÃO – As pesquisas mostram Lula à frente no primeiro turno, mas com vantagem muito menor num eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro. Na Quaest, Lula aparece com 38%, contra 31% de Flávio no primeiro turno. No segundo, a diferença cai para apenas três pontos: 43% a 40%, dentro da margem de erro.
O movimento é revelador. O primeiro turno permite que diferentes correntes da direita, do centro e da esquerda disputem espaço. O segundo reorganiza o eleitorado em torno de duas escolhas. É nesse momento que o lulismo e o antilulismo recuperam toda a força.
Parte do eleitorado não vota necessariamente por entusiasmo, mas para impedir a vitória do adversário. É essa lógica que pode fazer candidaturas de direita transferirem parte relevante de seus votos para Flávio Bolsonaro diante de uma disputa direta com Lula. O problema é que a polarização pode esconder questões muito mais importantes.
LULA OU FLÁVIO ? – Enquanto a eleição se organiza em torno da pergunta “Lula ou Flávio?”, o país precisa responder como reduzir a vulnerabilidade financeira das empresas, fortalecer a fiscalização, regular plataformas digitais, proteger crianças e adolescentes e criar instituições capazes de agir antes que os problemas alcancem proporções bilionárias.
Essas questões não produzem o mesmo efeito eleitoral de uma guerra entre dois polos. Exigem planejamento, competência administrativa e políticas que sobrevivam ao ciclo eleitoral. O Brasil corre o risco de entrar em mais uma eleição discutindo intensamente quem deve governar, mas pouco sobre como governar.
A disputa eleitoral decidirá quem ocupará o Palácio do Planalto. Não resolverá, por si só, os problemas estruturais do país. A verdadeira prova do próximo governo será outra: não apenas administrar as crises que já existem, mas criar mecanismos para que as próximas não precisem chegar às manchetes para finalmente serem enfrentadas.
Mendonça diz que salário de ministro do STF não permite ‘vida sem preocupações financeiras’
Salário do STF dá ‘condição média’ de vida, diz ministro
Guilherme Matos
Estadão
O ministro André Mendonça, do STF, afirmou que o salário de magistrados proporciona uma ‘condição média’ de vida, apesar de ser superior à média brasileira. Durante o 5º Seminário da Anamel, ele destacou que, embora privilegiados, magistrados precisam controlar despesas.
Mendonça, no STF desde 2021, relatou dificuldades nos primeiros anos na Corte. Ele é responsável por investigações sensíveis na Polícia Federal. Seus rendimentos mensais variaram entre R$ 18.881,92 e R$ 43.028,21 em 2023.
“CONDIÇÃO MÉDIA” – O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou que o salário de um magistrado proporciona uma “condição média” de vida, ainda que “muito acima” do restante dos brasileiros.
“Um ministro do tribunal, um juiz em geral, ele não pode ter a pretensão de ficar rico. O salário, ainda que seja um bom salário, não te dá condições de ter uma vida sem preocupações financeiras. A gente tem que controlar a despesa no dia a dia”, afirmou Mendonça.
Apesar de não proporcionar uma “vida nababesca”, como descreveu o ministro, os magistrados são uma classe privilegiada. “Mas não é uma classe que não tem que se preocupar com as contas no fim do mês”, disse. A declaração foi feita durante o 5º Seminário da Associação Nacional de Magistrados Evangélicos (Anamel), realizado na última sexta-feira, 21, na Universidade Presbiteriana Mackenzie.
RENDIMENTOS – Segundo o Portal da Transparência do STF, os rendimentos líquidos recebidos por André Mendonça entre janeiro e julho deste ano variaram de R$ 18.881,92 (abril e maio) a R$ 43.028,21 (janeiro), somando R$ 182.029,10 no período. A média mensal é de R$ 26.004,16.
Conforme noticiou o Estadão, no mesmo evento, o ministro falou sobre as dificuldades do trabalho na Corte. Os dois primeiros anos no STF, disse, “foram períodos de muita infelicidade”. Hoje, ele vive “muito mais o ônus e a responsabilidade do que qualquer outra coisa”.
André Mendonça é ministro do STF desde dezembro de 2021 por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele é relator das duas investigações mais sensíveis em curso na Polícia Federal: a que apura as fraudes envolvendo o Banco Master e a que investiga o esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões do INSS.



